#Bissexual #Corno #Traições

Muito mais que bons amigos - Parte 21 & 22

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Lopedrinhofm

Guardar um segredo daquele peso do Vinicius era a mesma coisa que carregar uma bomba relógio no bolso da calça.
Nos primeiros dias, eu tentei levar a vida normal. Fui trabalhar na matriz, cruzei com o Felipe no corredor — que agiu como se nada tivesse acontecido, mantendo a postura de chefe intransigente —, e vi a Emilly de longe na diretoria, trocando apenas olhares discretos comigo para disfarçar. Mas a culpa estava me corroendo por dentro.
O grande problema é que o Vinicius não era de ferro e nem cego. Trabalhando sozinho na filial antiga, ele já estava com a pulga atrás da orelha por causa da distância e da minha ascensão na matriz. Para piorar, ele continuava me ligando nos fins de semana e mandando mensagem para saber das novidades.
Na quarta-feira daquela mesma semana, o meu celular vibrou perto da meia-noite. Era vídeo chamada do Vinicius.
O meu coração deu um pulo na garganta. Olhei para a Gi, que dormia um sono pesado.
A cara do Vinicius apareceu na tela, meio iluminada pela luz do celular, com aquela expressão de quem tinha bebido umas cervejas depois do expediente.
— E aí, meu irmão! Sumido pra caralho — o Vinicius já começou, falando com aquela voz arrastada de quem queria botar o papo em dia. — Como que tá a correria aí na matriz chique? A Emilly tá muito brava com as operações essa semana? Falei com ela mais cedo, mas a patroa tava com pressa.
Na hora em que ele mencionou a Emilly, o meu suor gelou. Senti o meu estômago embrulhar e por pouco eu não gaguejei na resposta.
— E aí, mano... Tá tudo corrido pra caralho por aqui. Reunião atrás de reunião com o Felipe, balancete fechando... A Emilly tá atolada de serviço lá no andar dela — disfarcei, tentando manter a voz o mais firme possível, enquanto passava a mão na testa suada.
O Vinicius deu uma risada curta, mas estreitou os olhos pelo visor, me analisando com aquela desconfiança de melhor amigo que conhece a gente até pelo jeito de respirar.
— Sei não, Vitor... Tu tá com uma cara de quem tá escondendo alguma coisa pesada. Tem certeza que é só trabalho? Cuidado para não deixar subida de cargo subir à cabeça, hein, meu parceiro.
Fiquei com a resposta entasada na garganta. Faltou muito pouco para eu não mandar a real, confessar que a esposa dele tinha dado para o presidente da empresa inteira na minha sala e que eu tinha participado da putaria. Mas lembrei do pedido da Emilly, do estrago que aquilo ia fazer no casamento deles e de como a nossa dinâmica ia pro buraco de vez.
— Imagina, mano, paranoia sua. É só cansaço dessa vida de executivo — forcei um sorriso amarelo.
A gente conversou mais uns dez minutos sobre amenidades até ele desligar, mas eu passei o resto da madrugada acordado, olhando para o teto. Conseguir esconder eu até consegui por enquanto, mas eu sabia muito bem que, num esquema daquele tamanho, o segredo tinha perna curta. E a qualquer momento a bomba ia estourar de vez.
Aquela videochamada com o Vinicius tarde da noite tinha me deixado com os nervos à flor da pele. Enquanto ele desligava do outro lado da linha, eu joguei o celular na mesinha de cabeceira, soltando um suspiro longo que parecia puxar o ar de todo o quarto escuro.
A luz fraca do abajur iluminava de leve o rosto da Gi, que dormia virada de lado na cama, respirando devagar com a mão apoiada na barriga. Olhar para ela me deu um aperto no peito ainda maior. Se o Vinicius descobrisse a verdade sobre o que aconteceu na minha sala com a Emilly e o Felipe, o castelo de cartas que a gente tinha montado — envolvendo a minha família, o casamento deles e a paz que a gente demorou tanto para conquistar — ia desabar em cinco minutos.
Conseguir segurar a língua naquela chamada tinha sido por pouco. Eu fui obrigado a mentir na cara dura para o meu melhor amigo, engolindo a culpa e fingindo que a rotina na matriz era só planilhas e reuniões chatas.
Mas a verdade é que o clima na empresa mudou do dia para a noite.
No dia seguinte, cheguei cedo na matriz, com a cabeça pesada e a sensação de que todo mundo nos corredores estava me olhando de canto. Subi direto para o andar financeiro, joguei a maleta em cima da mesa e tentei focar nos relatórios de tesouraria para ver se o trabalho tirava aquela merda da minha cabeça.
Por volta das dez da manhã, o ramal tocou seco. Olhei para o visor com o coração disparado, achando que era o Vinicius ligando de novo para tirar satisfação ou a Emilly querendo cobrar alguma coisa.
Atendi com a voz travada.
— Alô?
— Vitor. Sou eu. Sobe na minha sala agora — a voz do Felipe ecoou do outro lado da linha, seca, curta e com aquela autoridade de quem não aceitava recusa.
O meu estômago despencou. Se o Felipe estava me chamando na presidência depois de tudo o que rolou, a merda estava prestes a estourar de vez, e eu não fazia a menor ideia se o problema era o marido policial da Nayara, o Vinicius começando a desconfiar ou algo pior que a diretoria tinha descoberto.
Quando empurrei a porta da sala do presidente, levei um susto: a Emilly já estava lá, sentada numa poltrona com uma cara nada boa, cruzando os braços.
— Fecha essa porta, Vitor — o Felipe falou, sério, escorado na mesa de vidro.
Fiquei em pé perto da entrada, olhando de um para o outro.
— O que foi, Felipe? Aconteceu alguma coisa? — perguntei, sentindo o suor frio começar a descer pela nuca, já esperando o pior.
O Felipe respirou fundo, cruzou os braços e olhou de relance para a Emilly. Ela estava sentada na poltrona, com uma expressão totalmente tensa, mordendo o canto da unha e olhando fixamente para mim.
— Senta aí, Vitor — o Felipe falou, apontando para a cadeira em frente à mesa dele. A voz estava séria, daquele jeito que cortava o ar.
Fiquei de pé, sem me mover.
— Fala logo, Felipe. O que tá acontecendo?
Foi a Emilly quem tomou a palavra, levantando da poltrona com os olhos pesados de preocupação.
— Eu pedi uma indicação para o Felipe hoje de manhã, Vitor. Um laboratório particular de confiança, bem discreto — ela soltou, direto ao ponto, cruzando os braços com força. — Eu preciso fazer um exame de DNA. Para tirar a limpo aquela história... para saber se o bebê que a Giovana tá esperando é teu ou do Vinicius.
Eu apoiei os cotovelos nos joelhos, passei as mãos pelo rosto e encarei o chão por alguns instantes, digerindo tudo aquilo.
— É foda, gente... — falei com a voz baixa, sentindo o peito apertado. — A Gi é uma mulher incrível, a nossa casa tá quase pronta para receber o bebê, e viver com essa interrogação na cabeça tá me matando por dentro todos os dias. Eu amo a minha esposa, mas olhar para aquela barriga crescendo sem saber se o filho é meu ou do Vinicius... é uma agonia que não acaba nunca.
A Emilly levantou da poltrona, deu dois passos até mim e colocou a mão de leve no meu ombro, com um olhar compreensivo.
— Eu sei, Vitor. Ninguém aqui quer destruir o casamento de ninguém. O Vinicius também está sofrendo com essa dúvida, e nós decidimos que o melhor caminho era agir com maturidade. A gente faz o exame em sigilo absoluto, descobre a verdade de uma vez por todas, e aí cada casal lida com o resultado de cabeça erguida e com respeito.
Olhei para o Felipe, que balançou a cabeça positivamente em sinal de apoio.
— O laboratório que eu conheço garante total confidencialidade, Vitor. Ninguém da empresa vai saber, nem os médicos de rotina da Giovana, a menos que vocês queiram — o Felipe concluiu. — É a única forma de trazer paz para a casa de vocês e para a nossa. O que você acha?
O silêncio que se instalou na sala da presidência foi pesado, mas não teve o peso de uma briga — foi o alívio amargo de quem finalmente decidiu encarar a verdade.
Eu encarei o Felipe, depois olhei para a Emilly, que me fitava com um misto de apreensão e apoio. A incerteza vinha me corroendo por meses, tirando o meu sono e pesando em cada abraço que eu dava na Gi. Ficar cego naquele mar de dúvidas já não era mais possível.
Passei a mão pelos cabelos e soltei um suspiro longo, balançando a cabeça em sinal de concordância.
— É... vocês têm razão. Não dá mais para continuar vivendo desse jeito, fingindo que tá tudo bem enquanto a nossa cabeça tá explodindo por dentro — falei, com a voz firme, embora o coração batesse acelerado. — Eu concordo. A gente precisa fazer esse exame. O quanto antes a gente souber a verdade, melhor para todo mundo, principalmente para a Gi e para o bebê que tá chegando.
A expressão de tensão no rosto da Emilly suavizou na mesma hora. Ela deu um leve aperto no meu ombro, demonstrando alívio.
— Fico aliviada que você pense assim, Vitor. Eu sabia que você ia ser sensato sobre isso — ela disse, respirando fundo antes de soltar a próxima informação que fechava o quebra-cabeça. — E pode ficar mais tranquilo ainda quanto à Giovana. Eu já conversei com ela.
Olhei para a Emilly com os olhos arregalados, sentindo o peito dar um salto.
— O quê? Você já falou com a Gi? Como assim, Emilly? — perguntei, sentindo um calafrio na espinha. — A gente acabou de falar sobre sigilo, como é que você joga uma bomba dessas para cima da minha esposa grávida?
— Calma, Vitor, respira — a Emilly interveio rápido, levantando as mãos para me acalmar e voltando a se sentar na poltrona. — Eu não fui sem tato. Eu sei o momento certo para as coisas. A gente conversou ontem à tarde, numa boa, longe de confusão.
O Felipe recostou na cadeira, cruzando os braços, observando tudo com atenção, mas deixando a Emilly conduzir a explicação.
— A verdade, Vitor, é que a Gi não é tonta — continuou a Emilly, com a voz serena e sincera. — Ela também já estava com essa dúvida entasada na garganta há semanas. Quando eu toquei no assunto com cuidado, abrindo o jogo sobre a nossa situação e a do Vinicius, ela desabou, mas concordou na hora. Ela quer paz de espírito tanto quanto você. Nenhuma mãe quer olhar para o próprio filho sem saber quem é o pai.
Fiquei estático, digerindo aquilo. A minha cabeça girava. A Gi sabia? Ela tinha conversado com a Emilly e aceitado passar por isso? Por um lado, o choque me deixou zonzo; por outro, um peso gigante saiu das minhas costas por saber que eu não precisava mais carregar aquele segredo sozinho dentro de casa.
— Ela tá muito abalada? — perguntei, com a voz falhando, sentindo um nó na garganta só de pensar na Gi sofrendo.
— Ela é forte, Vitor. E ela confia em você, assim como confia na nossa discrição — a Emilly garantiu, olhando fundo nos meus olhos. — A conversa foi madura. Agora o próximo passo depende só de nós fecharmos os detalhes com o laboratório que o Felipe indicou para colhermos o material o mais rápido possível.
Olhei para o Felipe, que assentiu com a cabeça, confirmando que os contatos confidenciais já estavam engatilhados. A corda estava esticada, mas agora a gente estava puxando para o mesmo lado.
O dia da coleta foi marcado por uma tensão quase palpável, daquelas que deixam a gente com a respiração curta desde a hora em que o despertador toca. O laboratório que o Felipe indicou ficava numa rua discreta na zona sul de São Paulo, bem longe do circuito corporativo habitual, garantindo o sigilo absoluto que todos nós precisávamos. Ficou combinado que cada um chegaria em horários separados para evitar qualquer tipo de alarde ou curiosidade desnecessária.
Quando cheguei à recepção privativa, a sala era silenciosa, com uma iluminação baixa e um cheiro suave de antisséptico. A Emilly já estava lá, sentada num dos sofás de couro cinza, com o rosto sério e as mãos entrelaçadas no colo. O Vinicius chegou logo depois, empurrando a porta com um olhar pesado, o maxilar trancado. Entre nós quatro — eu, o Vinicius, a Emilly e a Giovana, que chegou apoiando a mão na barriga —, o clima era de um respeito tenso e doloroso. Afinal, éramos amigos de longa data, parceiros de vida, que dividiam churrascos, confidências e, nos bastidores daquela dinâmica intensa e cruzada, os corpos uns dos outros até os dias de hoje. Saber que a nossa ciranda íntima tinha gerado uma vida colocava todos nós na corda bamba.
A Gi estava pálida, mas manteve a postura firme. Quando nossos olhares se cruzaram, eu fui até ela, segurei sua mão fria e dei um beijo em sua testa.
— Vai dar tudo certo, meu amor — sussurrei, sentindo o meu próprio coração disparado no peito.
O enfermeiro encarregado do procedimento nos chamou para uma sala reservada. Para manter o rigor técnico do exame de DNA pré-natal e garantir a precisão sem riscos para a gestação, a coleta exigia o material genético de todos os envolvidos diretos: a Gi, eu e o Vinicius. A Emilly acompanhava tudo de perto, segurando a mão do Vinicius, enquanto a Gi se sentava na maca para a coleta do sangue.
O som do equipo estalando e o silêncio da sala pareciam em câmera lenta. Cada tubo de sangue preenchido era um pedaço do nosso futuro que estava sendo colocado à prova. Quando chegou a minha vez, estendi o braço, sentindo a agulha picar a pele enquanto a minha cabeça repassava cada data, cada noite em que eu e a Gi dividimos a cama, mas também cada segundo em que os nossos corpos se misturavam naqueles encontros cruzados com o Vinicius e a Emilly. O Vinicius fez o mesmo logo em seguida, com o semblante fechado, encarando o chão com um peso insuportável nos ombros.
— O prazo para o laudo completo é de cinco dias úteis. Entraremos em contato diretamente com os senhores pelo canal seguro — avisou o enfermeiro, guardando as ampolas na maleta térmica.
Aquelas foram as piores horas e dias da minha vida. A rotina na empresa virou um borrão; o trabalho na financeira parecia acontecer em outra realidade, enquanto na minha cabeça só passava a imagem do envelope que definiria o nosso destino. Em casa, o clima com a Gi era de um silêncio cúmplice e angustiante. A gente evitava tocar no assunto para não desabar, mas o peso daquela espera nos consumia. O Vinicius e a Emilly também mal davam as caras em nossa casa, engolidos pela mesma ansiedade sufocante.
Cinco dias depois, o e-mail criptografado chegou ao celular do Felipe, que nos convocou imediatamente para a sua sala na presidência à noitinha, quando o prédio já estava vazio.
Quando eu entrei, a Gi já estava lá sentada no sofá, com os olhos vermelhos de quem tinha chorado, segurando a mão da Emilly. O Vinicius andava de um lado para o outro perto da janela de vidro. O Felipe estava em pé, encostado na mesa de vidro, com um envelope branco na mão. O silêncio na sala era cortante como vidro quebrado.
Minhas mãos tremiam tanto que eu quase não consegui rasgar o papel. Senti o suor frio escorrer pelas costas enquanto eu desdobrava a folha timbrada do laboratório, correndo os olhos diretamente para a linha de conclusão e o índice de probabilidade de paternidade.
O meu mundo parou por um segundo inteiro. As letras e os números saltaram aos meus olhos com uma clareza absoluta.
Probabilidade de Paternidade: 99,99%.
Nome do suposto pai: Vitor.
O papel escorregou levemente entre os meus dedos, e eu soltei um suspiro tão fundo que parecia que eu estava prendendo o ar desde o dia em que tudo começou. Meus olhos encontraram os da Gi, que me olhava com uma expectativa desesperada.
— E aí, Vitor? — a voz do Vinicius saiu rouca, quase num sussurro, enquanto ele parava de andar e nos encarava, tenso.
Eu olhei para o Vinicius, depois para a Emilly, e voltei os olhos para a minha esposa, sentindo uma onda gigantesca de alívio e uma emoção avassaladora tomar conta do meu peito.
— Sou eu, Vinicius... O filho é meu. Eu sou o pai — falei, com a voz embargada, abrindo um sorriso fraco enquanto as lágrimas finalmente escapavam dos meus olhos e a Gi desabava num choro manso, levantando para correr direto para os meus braços.
Até o Vinicius, depois de fechar os olhos por um segundo e respirar fundo, deu um tapinha firme no meu ombro, demonstrando que, apesar de toda a loucura e da nossa ciranda íntima, a amizade e o respeito entre nós iam resistir.
O Felipe dobrou a folha do laudo, guardou no envelope e deu um sorriso discreto.
— Bom, assunto resolvido entre os casais. Agora vocês tratem de sumir daqui e ir comemorar essa paz — o Felipe falou, já pegando a maleta dele e a chave do carro em cima da mesa. — Eu tô fora. Tenho um compromisso particular e preciso ir direto para casa descansar. Boa noite para vocês, aproveitem o jantar.
Ele saiu da sala com aquela postura de sempre, deixando nós quatro sozinhos para respirar o ar limpo da vitória.
Decidimos ir a um restaurante italiano tradicional e um pouco mais reservado na Vila Nova Conceição, num cantinho aconchegante com luz baixa, ideal para a gente tentar fingir que a vida tinha voltado a ser normal. Pedimos uma mesa no fundo. O clima, que começou meio travado e cheio de resquícios de tensão, foi se soltando com uma boa garrafa de vinho tinto para a Gi (que tomou apenas uma taça pequena para brindar) e massas caprichadas para todo mundo.
O Vinicius pediu desculpas meio sem graça por ter surtido dias antes, eu brinquei dizendo que a nossa amizade já tinha passado por testes piores, e a Gi sorria de verdade pela primeira vez em semanas, acariciando a barriga com uma leveza linda de ver. A gente riu, relembrou histórias antigas e por algumas horas parecia que o mundo corporativo, as traições cruzadas e a presidência não existiam.
Mas a noite longa sempre guarda surpresas.
Já passava das dez e meia. O garçom tinha acabado de recolher os pratos e servido o expresso. Foi aí que eu percebi a mudança na Emilly.
Ela, que tinha passado o jantar inteiro rindo, brindando e participando das piadas, de repente emudeceu. A expressão no rosto dela fechou num tom pálido, e ela ficou encarando a xícara de café vazia na mesa de madeira escura, mexendo a colherzinha em círculos lentos, num ritmo quase robótico.
Aproximei o meu corpo um pouco mais da mesa, percebendo o jeito que ela engolia em seco, com os olhos vidrados. O Vinicius, distraído cortando um pedaço da sobremesa que sobrou, não percebeu na hora, mas a Gi notou também e parou de falar no meio de uma frase.
— Emilly? Tá tudo bem, amiga? — a Gi perguntou, franzindo a testa com carinho, tocando de leve no braço dela. — Tu ficou muito quietinha de repente. Passou mal com alguma coisa do jantar?
A Emilly deu um sorriso amarelo, daqueles que não chegam aos olhos, e balançou a cabeça negativamente, desviando o olhar para a janela do restaurante que dava para a rua arborizada.
— Não, Gi... Tá tudo bem, de verdade. Só um pouco de cansaço da semana pesada na operações da matriz — ela mentiu descaradamente. A voz saiu um pouco mais baixa e trêmula do que o normal.
Eu conhecia aquela expressão dela de cor. Era a exata cara que a Emilly fazia quando estava segurando um pepino corporativo gigantesco nas mãos e não sabia como soltar a bomba sem foder com tudo. E, considerando o nível dos nossos segredos, eu sabia que aquele silêncio dela não era por causa de balancete atrasado. Tinha coisa muito mais pesada rolando nos bastidores da empresa, e pelo visto, o fato de o Felipe ter ido embora mais cedo para casa não era mera coincidência.
O silêncio que se formou na mesa foi pesado o suficiente para cortar com faca. O Vinicius, percebendo o clima estranho, largou o garfo no prato, franziu a testa e olhou para a esposa, confuso.
— Que história é essa de cansaço, Emilly? Tu passou o jantar inteiro normal e agora fecha a cara assim do nada? Aconteceu alguma coisa na operações? Algum problema com os fornecedores da filial? — ele perguntou, com aquele tom de quem queria proteger a mulher, sem desconfiar nem de leve do que realmente estava por trás.
A Emilly deu um suspiro fundo, apertou a alça da bolsa que estava pendurada na cadeira e evitou encarar o Vinicius diretamente nos olhos. Ela olhou de relance para mim, num pedido mudo de socorro, como se dissesse que a bomba não era para ser discutida ali, na frente dos nossos cônjuges, mas que o peso daquilo estava esmagando o peito dela.
— Não é nada com a filial, Vin. É... coisa interna da matriz. Negócio de rotina com a diretoria — ela mentiu de novo, mas a voz falhou feio no final, entregando o nervosismo.
Eu cruzei os braços por baixo da mesa, sentindo o meu estômago, que tinha acabado de sossegar com o jantar, embrulhar de novo. Se a Emilly estava com aquela cara de enterro logo depois de o Felipe vazar mais cedo para casa, inventando compromisso particular, a merda era grande. O Felipe sabia de alguma coisa que a gente ignorava, ou pior: a auditoria que a gente achava que tinha sido contornada com o laudo do DNA era só a ponta de um iceberg muito mais perigoso.
— Deixa a Emilly em paz, Vini, ela deve estar esgotada com a cobrança em cima da diretoria. O bicho tá pegando lá em cima para todo mundo — a Gi interveio, passando a mão na barriga e tentando aliviar a barra da amiga, completamente alheia ao verdadeiro abismo corporativo e pessoal em que a gente estava enfiado.
— É, Vinicius... Deixa a menina respirar. O dia hoje foi pesado para todo mundo, o teste mexeu com a cabeça da gente — falei, endireitando a postura na cadeira e tentando mandar um olhar firme para a Emilly, tentando passar a mensagem de que ela segurasse a onda até a gente conseguir falar a sós.
O Vinicius resmungou qualquer coisa, balançou a cabeça e pediu a conta para o garçom, achando que o assunto tinha morrido ali. Mas eu sabia que não tinha.
Assim que saímos do restaurante para a calçada fria da Vila Nova Conceição, enquanto o manobrista ia buscar o carro do Vinicius, a Gi foi dar um abraço de despedida na Emilly. Foi nesse segundo exato, com a Gi distraída olhando para o sentido oposto, que a Emilly se aproximou rápido do meu ouvido, com os lábios encostando de leve na minha orelha e a voz num sussurro cortante e desesperado:
— O Felipe não foi para casa porra nenhuma... Ele foi resolver a bronca daquela auditoria paralela que achamos no cofre do Marcelo. E pelo que o meu contato avisou antes do meu celular cair na caixa postal, o nome que tá no topo da lista dos desvios de caixa... não é o do Vinicius. É o seu, Vitor.

Comentários (1)

Regras
- Talvez precise aguardar o comentário ser aprovado - Proibido numeros de celular, ofensas e textos repetitivos
  • Safadin: Caralho, como o nome dele foi parar lá?! Que porra é essa? Estou de cara aqui. É problema atrás de problema.

    Responder↴ • uid:4a20ataahrc