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Muito mais que bons amigos - Parte 11

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Lopedrinhofm

A segunda-feira começou com um clima totalmente diferente na empresa. Quando o elevador abriu no andar da diretoria, a porta da sala do CFO já estava escancarada.
O Felipe tinha voltado.
Ele estava sentado na cadeira executiva com a postura impecável de sempre, camisa social azul-marinho perfeitamente engomada, barba alinhada e nem um fio de cabelo fora do lugar. Parecia que a semana em que esteve fora acompanhando o nascimento do filho nem tinha acontecido — exceto por um detalhe: o olhar dele estava mais atento, frio e observador do que o normal.
Passei pela sala espaçosa da Emilly, que fica bem ao lado da dele. Como diretora, ela já estava acomodada atrás da sua mesa de vidro, assinando uma pilha de contratos com a maior calma do mundo. Quando me viu, ela só me deu um olhar discreto — o famoso modo profissional ativado —, como se a semana inteira em que ela usou a sala de madeira nobre do CFO pra sacanagem nunca tivesse acontecido.
— Bom dia, Vitor. Vinicius — a voz grave do Felipe ecoou do ambiente dele, chamando a gente sem nem levantar os olhos do tablet. — Na minha sala, por favor.
Eu e o Vini nos olhamos rapidamente. Meu coração deu um salto, lembrando instantaneamente da intensidade do que tínhamos vivido com o Alex no sábado e do segredo que estávamos guardando. Engoli em seco, ajeitei o colarinho e entrei na sala junto com o Vini.
O Felipe esperou a gente sentar nas poltronas de couro à frente da mesa dele. Ele lentamente fechou o dispositivo, cruzou as mãos sobre o tampo de madeira e encarou nós dois por longos e silenciosos segundos. O ar na sala ficou pesado.
— Como vocês sabem, estive ausente por motivos pessoais — o Felipe começou, com um tom calmo, mas afiado. — A Emilly conduziu a diretoria com a competência de sempre, mas... eu dei uma olhada nos relatórios do sistema de acesso e segurança do andar durante o fim de semana.
O sangue sumiu do meu rosto no mesmo segundo. Olhei de canto pro Vini e vi a mandíbula dele travar de desespero.
— Não me refiro a metas ou prazos — continuou o Felipe, inclinando o corpo pra frente. — Me refiro às luzes da minha sala que ficaram acesas após o expediente na terça-feira. E ao fato de o registro da minha fechadura eletrônica mostrar que você, o Vinicius e a diretora Emilly ficaram trancados aqui dentro com a porta trancada por mais de uma hora.
Ele fez uma pausa calculada, deixando o pavor tomar conta da gente. Mas, em vez de esbravejar ou ameaçar uma justa causa, o Felipe deu um sorriso frio, quase imperceptível, no canto dos lábios.
— O Compliance da empresa destruiria a carreira de vocês três por isso — ele disse, num tom quase sussurrado, se apoiando nos cotovelos. — Mas acontece que eu aprecio quem sabe manter a discrição... O caso da Julia é resolvido na minha vida pessoal e a Sabrina sabe exatamente onde cada peça se encaixa. Mas a diretoria e o conselho desta empresa não precisam saber o que vocês aprontaram na minha mesa.
O Felipe se levantou, caminhou até a porta da sala, girou a chave na fechadura e baixou todas as persianas de vidro. Ele se virou pra gente, tirando o paletó e jogando sobre o sofá de couro.
— Não vou expor vocês e nem a Emilly ao conselho, porque prezo pela discrição e pela imagem da diretoria. Mas a partir de hoje, quero controle absoluto sobre os horários do meu setor. Sem encontros no andar, sem portas trancadas após o expediente. Vocês me devem essa discrição. Estamos conversados?
O silêncio reinou na sala, com a postura rígida e impenetrável do Felipe colocando uma barreira clara de autoridade sobre nós.
O Felipe nos encarava com aquele olhar gélido, a mão apoiada na mesa de madeira nobre, esperando a nossa rendição total. O silêncio na sala era sufocante.
Foi quando a porta da diretoria se abriu devagar.
A Emilly entrou com passos calmos e firmes, usando um salto alto que estalava no piso de mármore. Ela vestia um terninho perfeitamente ajustado e trazia uma pasta sob o braço. Sem pedir licença, fechou a porta atrás de si com um toque suave, mantendo uma expressão serena, elegante e completamente inabalável.
— Licença, Felipe — disse ela, cortando o tom pesado do ambiente com uma voz aveludada, impecavelmente educada.
O Felipe piscou, surpreso pela interrupção súbita, e ajeitou a postura na cadeira:
— Emilly, eu estou alinhando algumas diretrizes sérias com o Vitor e o Vinicius sobre o uso do andar...
— Eu ouvi parte da conversa, Felipe — ela o interrompeu delicadamente, caminhando até a mesa dele e colocando a pasta sobre o tampo com uma leveza calculada. Ela deu um sorriso discreto, olhando de relance pra mim e pro Vini antes de encarar o CFO nos olhos. — E não precisa ser tão duro com os rapazes. A responsabilidade foi minha.
O Felipe franziu a testa, claramente desconfortável com a postura tranquila dela:
— Como assim, sua? As normas de Compliance da empresa...
— Esquece as normas um segundo, Felipe — ela falou num tom baixo, profissional, mas carregado de uma audácia absurda. Ela se encostou levemente na borda da mesa dele, cruzando os braços. — Você esteve fora resolvendo seus assuntos pessoais, e a sala estava sob o meu comando. A verdade é que a gente aproveitou a sua ausência... e transamos aqui dentro. E transamos gostoso demais. Nessa mesma mesa onde você trabalha todo dia.
O sangue do Felipe pareceu subir pro rosto num segundo. O homem rígido, ultra reservado e cheio de etiqueta deu uma travada monumental, abrindo a boca ligeiramente sem saber o que responder diante da confissão tão direta e elegante da diretora ao lado dele.
— Emilly... você tem noção do absurdo que está dizendo? — ele sussurrou, visivelmente abalado na sua bolha de autocontrole.
— Tenho total noção — ela respondeu com uma calma desconcertante, mantendo a classe irretocável. — Mas também sei que você é um homem inteligente e discreto. Ninguém lá fora sabe, o setor rendeu o dobro na sua ausência e o trabalho continua impecável. Então, vamos poupar os meninos desse sermão, sim? O recado já foi dado.
Eu e o Vini trocamos um olhar incrédulo, segurando o riso e a respiração ao ver a Emilly desarmar o CFO mais temido da empresa com a maior elegância do mundo.
A Emilly deu um passo mais perto da cadeira do Felipe, inclinando o corpo devagar e mantendo aquele tom elegante, calmo e terrivelmente bem informado. O sorriso dela permaneceu sereno, mas o olhar entregava um domínio absoluto da situação.
— E sejamos francos, Felipe... — ela continuou, num sussurro impecável que parecia preencher todo o silêncio da sala. — Essa mesa não é exatamente um templo sagrado, é? Eu lembro muito bem da visita da Nayara, aquela diretora da parceira comercial que veio assinar a renovação do contrato há uns meses.
O Felipe congelou no mesmo instante. As mãos dele, que seguravam a caneta sobre o tampo de madeira, pararam no ar. A cor sumiu do rosto do CFO, e a postura rígida dele pareceu ruir por completo sob a luz do teto.
— A porta ficou trancada por mais de duas horas — a Emilly completou —, e os relatórios de presença no andar do fundo nem sequer foram registrados naquele dia. Eu sei exatamente o que aconteceu aqui dentro, assim como sei o quanto você preza para que histórias assim não saiam dessa sala.
O Felipe engoliu em seco, claramente desarmado, olhando para a Emilly com uma mistura de choque e respeito forçado. Ele soltou um suspiro profundo, ajustou o nó da gravata para disfarçar o constrangimento e tentou retomar uma nesga de controle sobre a cena.
— Certo... — o Felipe disse, a voz bem mais baixa e contida do que no início do sermão. Ele nem sequer conseguia encarar eu e o Vini diretamente agora. — Acho que o ponto sobre discrição já ficou bastante claro para todos.
Ele abriu a pasta que estava na sua frente, pegando um bloco de anotações como se quisesse encerrar o assunto imediatamente:
— Vitor, Vinicius... vocês estão dispensados. Voltando para as suas demandas, por favor. A gente se fala no alinhamento do fim da tarde.
— Licença, Felipe — respondi, tentando manter a voz firme apesar da vontade de rir da cara que ele fez.
Eu e o Vini nos levantamos rápido, sem olhar pra trás, e saímos da sala acompanhados pela Emilly, que apenas deu um tchauzinho discreto com a cabeça pro chefe antes de encostar a porta.
Assim que pisamos no corredor, fora do alcance de vista do Felipe, o Vini me deu uma cotovelada na altura da costela, rindo baixinho e abafado, enquanto a Emilly caminhava ao nosso lado com a cabeça erguida e a elegância de quem acabou de dar um xeque-mate.
A Emilly caminhou até a sala dela e fez um sinal para que eu e o Vini entrássemos logo atrás. Assim que ela encostou a porta de vidro e fechou as persianas, a expressão séria de diretora deu lugar a um sorriso extremamente sacana.
ela se encostou na mesa, cruzou as pernas e encarou nós dois com os olhos brilhando de curiosidade:
— O clima lá dentro ficou denso, mas me diz uma coisa... — ela começou, num tom baixo e brincalhão. — O Felipe tá morrendo de medo, mas a gente sabe o tesão represo que aquele homem guarda. Se surgisse a oportunidade, vocês dois topariam transar com o Felipe e com a Sabrina numa sacanagem só com a gente?
O Vini deu uma risada abafada, passando a mão pelo queixo:
— Puta que pariu, Emilly... o homem é nosso chefe, mas a Sabrina é uma gostosa absurda. Com o clima certo, eu não duvido de nada.
Olhei para os dois, dando um sorriso de canto e sentindo a imaginação ir longe:
— Se for pra abrir o jogo desse jeito, não dá pra esquecer do Pedro também — comentei, lembrando daquele cara forte e presença do nosso grupo. — Imagina a confusão gostosa de juntar essa galera toda... O Pedro no meio, o Felipe perdendo essa marra de certinho com a Sabrina na nossa frente, e a gente dominando tudo.
A Emilly soltou uma gargalhada gostosa, impressionada com a audácia do rumo da conversa:
— Vocês não valem nada mesmo, né? O Fe ia ter um colapso antes de ceder, mas aposto que a ideia não sai mais da cabeça dele.
Nos dias seguintes, o ritmo na diretoria voltou ao normal, mas a dinâmica na sala mudou completamente. Com a descoberta sobre a vida dupla do chefe e o xeque-mate que a Emilly deu na sala dele, o pavor de uma demissão simplesmente evaporou.
Passei a adotar uma postura muito mais confiante e provocativa com o Felipe. Claro, mantendo sempre o respeito profissional e a eficiência impecável nas entregas, mas jogando no ar uma tensão constante.
Toda vez que entrava na sala do CFO pra levar um relatório ou alinhar o orçamento, eu fazia questão de olhar bem no fundo dos olhos dele, dando um sorriso de canto e usando um tom de voz um pouco mais baixo, quase intimista. Chegava perto da mesa dele pra mostrar algo na tela do tablet, deixando meu ombro roçar levemente no dele, ou soltava elogios sutis sobre como a camisa social caía bem no corpo dele.
O Felipe, no entanto, era uma rocha de autocontrole.
Homem extremamente reservado, ele erguia uma barreira invisível e intransponível a cada investida minha. Quando eu dava uma brecha de duplo sentido, ele fingia que não ouvia, pigarreava seco e voltava o assunto imediatamente para as planilhas e métricas de desempenho. Ele não dava um milímetro de abertura, mantendo a postura de chefe sério e inabalável, embora o olhar atento dele entregasse que ele reparava em cada gesto meu.
Numa tarde de quinta-feira, ao entregar a revisão final de um contrato na mesa dele, encostei a mão no tampo de madeira, bem do lado da dele, e soltei devagar:
— Se precisar de mais alguma coisa pra hoje, Felipe... qualquer coisa mesmo... é só me chamar.
O Felipe me encarou por dois segundos inteiros, ajeitou os óculos de leitura com frieza e apenas assinou a folha de rosto no documento, sem mover um músculo do rosto.
— Está tudo em ordem por hoje, Vitor. Pode voltar para as suas tarefas — respondeu ele, firme, ríspido e mantendo a distância irretocável de sempre.
Saí da sala com um sorriso sacana, sabendo que, mesmo sem dar abertura, a presença daquela tensão só deixava o ar do escritório cada vez mais carregado.
Já passava das sete da noite quando o expediente acabou. Eu e o Vini arrumamos as coisas e fomos juntos pro estacionamento. Entramos no carro dele, mas, na hora em que tático na minha bolsa pra pegar a chave de casa, percebi o rombo: tinha esquecido meu celular em cima da mesa na minha estação de trabalho.
— Puta que pariu, Vini... larguei o aparelho lá em cima, me espera dois minutos aí que vou subir rápido pra pegar.
— Vai lá, mano, fica sussa — o Vini respondeu, encostando a cabeça no banco e mexendo no rádio.
Apertei o botão do elevador e subi pro andar da diretoria, que já estava na meia-luz e em silêncio absoluto. Caminhei em passos fundos sobre o tapete pra não fazer barulho. Quando dobrei o corredor em direção à minha mesa, percebi a porta da sala do Felipe entreaberta, deixando passar um feixe fino de luz amarelada.
Parei meus passos no mesmo segundo ao ouvir o som de um salto alto.
A Emilly saiu de dentro da sala do Felipe. Ela olhava pra trás enquanto fechava a porta com todo o cuidado do mundo pra não fazer ruído. Fiquei paralisado no canto do corredor, coberto pela sombra do hall de entrada. A Emilly estava completamente alheia à minha presença, ajeitando a saia com um puxão firme no quadril e abotoando os dois primeiros botões da camisa social de seda, que estavam escancarados. Ela passou a mão pelo cabelo, alinhando os fios com um suspiro fundo e um sorriso satisfeito no rosto, antes de caminhar em direção ao elevador privativo e sumir do meu campo de visão.
Ajeitei as ideias na cabeça, incrédulo com a cena. O homem tão reservado, que passou a semana inteira dando fora em mim e mantendo a postura inabalável de chefe certinho, tinha acabado de ceder pra diretora bem do lado da minha mesa. Eles transaram ali mesmo, no meio do escritório.
Peguei meu celular num pulo sobre a bancada e desci correndo pelas escadas pra não cruzar com a Emilly no elevador. Entrei no carro do Vini afobado, batendo a porta com força
— Calma, caralho! Parece que viu um fantasma — o Vini reclamou, rindo da minha cara de choque.
— Mano... tu não vai acreditar no que eu acabei de ver lá em cima — falei, me virando de lado no banco e encarando ele bem sério, baixando o tom de voz.
— O que foi? O Felipe te pegou mexendo nas coisas dele?
— Não, porra! O Felipe e a Emilly estavam trancados na sala dele até agora. Eu vi a Emilly saindo de lá, Vini! Ajeitando a saia, abotoando a camisa toda desarrumada e com aquele sorriso de quem acabou de levar uma surra de pau. Eles transaram, mano. O CFO 'reservado' caiu na rede da Emilly.
O Vini travou com a mão na chave de partida, arregalando os olhos e soltando uma risada seca de pura surpresa:
— Mentira... Aquele cara rígido que finge que não quer nada? Ninguém resiste àquela mulher, mano. Nem o certinho do Felipe.
— Pois é — sorri de canto, sentindo o jogo virar completamente na minha cabeça. — O homem cedeu. E agora a gente sabe exatamente onde apertar pra desarmar ele de vez
O Vini fechou a cara no mesmo segundo. O choque deu lugar a uma raiva quente, a mandíbula travada de puro ciúme ao imaginar a Emilly nos braços do chefe.
— Ah, mas esse filho da puta não vai dar uma de falso santo pra cima da gente! — o Vini esbravejou, desligando o carro no tranco e abrindo a porta. — Fica dando sermão, pagando de certinho, e na primeira oportunidade pega a Emilly? Vou subir nessa porra agora.
— Calma, Vini, pirou? — tentei segurar o braço dele, mas ele já estava fora do carro, pisando fundo em direção aos elevadores.
Corri atrás dele. O Vini passou pela roleta com cara de poucos amigos, bufando. Quando o elevador abriu no andar da diretoria, ele nem esperou as portas abrirem direito, saiu pisando duro no tapete com os punhos fechados.
Ele foi direto pra porta do Felipe e nem se deu ao trabalho de bater: girou a maçaneta de uma vez e escancarou a porta da sala do CFO.
A sala estava no mais absoluto breu. As luzes apagadas, a mesa limpa, as persianas fechadas. Ninguém.
A dona Célia, secretária do andar que estava terminando de guardar as coisas no balcão ao lado, deu um pulo da cadeira com o estrondo da porta batendo na parede.
— Meninos! Meu Deus, o que é isso? Que susto! — a secretária exclamou, ajeitando os óculos no rosto e olhando pra cara de surto do Vini.
— Cadê o Felipe, dona Célia? — o Vini perguntou, ríspido, tentando enxergar alguma coisa nas sombras da sala vazia.
— O dr. Felipe? Ué, Vinicius, o dr. Felipe foi embora era nem cinco da tarde. Teve uma emergência familiar, saiu correndo de pressa. Nem voltou pra fechar a sala direito, a Emilly que fez o favor de vir aqui trancar tudo e desligar o ar-condicionado depois do expediente.
O silêncio que se instalou no corredor foi constrangedor.
Olhei pro Vini, que lentamente virou a cabeça pra mim, com os olhos arregalados de choque. O sangue da raiva dele sumiu na hora, dando lugar a uma cara de palhaço monumental.
A Emilly não estava ajeitando a roupa porque tinha transado na mesa. Ela só tinha entrado na sala vazia pra fechar as coisas do chefe a pedido dele, e provavelmente estava se arrumando depois de um dia longo de trabalho antes de ir pra casa. Eu tinha montado uma novela inteira na minha cabeça e tirado a conclusão mais precipitada do mundo.
— Ah... — o Vini soltou, a voz afinando de vergonha enquanto olhava pra dona Célia. — Entendi... Não, tudo bem, dona Célia. É que... faltou assinar um documento importante. A gente vê isso amanhã.
O Vini se virou devagar pra mim no corredor escuro, fuzilando minha cara com o olhar enquanto a dona Célia encarava a gente sem entender nada.
— Vitor... — o Vini sussurrou, entredentes, com a veia do pescoço saltada. — Eu vou te matar, seu animal.
Soltei um riso nervoso, dando dois passos pra trás no corredor e erguendo as mãos em sinal de paz.
— Calma, Vini! Pensa pelo lado positivo, mano... pelo menos a sua mulher não tava levando pirocada do Felipe — sussurrei, tentando segurar o riso diante da cara de tacho dele.
O Vini soltou um suspiro fundo, passando a mão pelo rosto pra desacelerar os batimentos. A raiva foi baixando aos poucos, dando lugar a um alívio absurdo, embora ele ainda me encarasse com um ódio mortal pela vergonha que quase passou. Voltamos pro carro em silêncio, torcendo pra dona Célia esquecer a cena bizarra do fim do expediente.
Mas a dona Célia não esqueceu.
Na terça-feira de manhã, assim que pisei no andar da diretoria, senti o clima pesado no ar. Quando passei pela mesa da secretária, ela me deu um olhar de reprovação por cima dos óculos. Ela tinha contado tudo. Tim-tim por tim-tim.
Antes mesmo de eu sentar na minha cadeira, o telefone da minha mesa tocou. Era a voz fria e polida do Felipe:
— Vitor, Vinicius. Na sala da diretoria. Agora.
Entramos na sala da Emilly e o cenário já entregava que o bicho ia pegar. O Felipe estava de pé ao lado da janela, de braços cruzados e com aquele olhar cortante de chefe traído na sua autoridade. A Emilly estava sentada na sua cadeira de couro, com a expressão séria, embora o canto da boca dela quisesse denunciar uma vontade imensa de rir da nossa cara.
— Vocês ficaram malucos? — o Felipe começou, com a voz grave e pausada, dando dois passos na nossa direção. — O que deu na cabeça de vocês pra invadir a minha sala daquele jeito ontem à noite, assustando a dona Célia e insinuando absurdos sobre a conduta da diretoria?
O Vini engoliu em seco, olhando pro chão, sem ter coragem de encarar ninguém.
— Pelo visto, o Vitor tem uma imaginação fértil demais — a Emilly interveio, cruzando os braços sobre a mesa e mirando o olhar diretamente em mim. — Eu só fui fechar a sala do Felipe e desligar o ar-condicionado a pedido dele, Vitor. Ajeitar minha roupa no corredor depois de doze horas de trabalho não é convite e nem prova de nada. Vocês dois passaram de todos os limites do profissionalismo ontem.
— Se eu souber de mais uma palhaçada dessas — continuou o Felipe, dando um passo firme pra cima de mim, marcando a posição de autoridade —, se houver mais um boato ou chilique no meio do expediente por causa de suposições idiotas, eu não vou me importar com nenhum segredo. Coloco os dois no olho da rua no mesmo minuto. Ficou claro?
— Claríssimo, Felipe... Desculpa — murmurei, sentindo as minhas bochechas queimarem de vergonha. O Vini só balançou a cabeça rapidamente, sem dar uma palavra.
— Ótimo — a Emilly concluiu, apontando pra porta. — De volta ao trabalho. E limpem essa bagunça que vocês fizeram na cabeça da dona Célia.
Saímos da sala da Emilly pisando em ovos, engolindo a seco a humilhação do puxão de orelha duplo. O Vini passou o resto do dia sem olhar direito pra minha cara, e a dona Célia fez questão de nos dar o tratamento do silêncio até o fim do expediente. A poeira só baixou no final da tarde, quando a rotina do escritório finalmente nos deu uma trégua.
Por volta das seis, quando a maior parte do andar já tinha ido embora, o silêncio tomou conta do corredor. Eu estava arrumando as minhas coisas pra ir embora quando vi a porta da sala do Felipe se abrir.
Ele saiu vestindo o paletó, com a pasta de couro na mão. Mas, em vez de ir direto para o elevador privativo, ele caminhou até a minha estação de trabalho. Parou bem na minha frente, me encarando por cima dos óculos.
— Vitor — a voz dele veio baixa, sem aquele tom ríspido do sermão de mais cedo, mas mantendo a postura firme de sempre. — O que aconteceu mais cedo... a dona Célia foi instruída a esquecer. A Emilly e eu conversamos e entendemos que foi apenas um mal-entendido infeliz.
— Obrigado, Felipe. Não vai se repetir, eu garanto — respondi, adotando a melhor postura profissional que consegui arrancar da minha vergonha.
Ele assentiu devagar. Olhou para os lados, confirmando que o corredor estava completamente vazio, e se aproximou só um passo a mais da minha mesa. O perfume amadeirado dele tomou conta do ar.
— Mas preciso admitir uma coisa... — o CFO disse, num tom quase imperceptível, baixando o olhar pra minha boca por um milissegundo antes de voltar para os meus olhos. — A sua imaginação é perigosa, Vitor. Você especula demais sobre o que acontece dentro da minha sala. E isso pode acabar se tornando uma profecia auto-realizável se você continuar me provocando do jeito que faz.
O sangue subiu pro meu rosto na hora. Aquele homem rígido, o CFO intocável, tinha acabado de soltar a primeira fresta de controle na minha frente — e sem a Emilly ou o Vini por perto.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação ou resposta provocativa, o Felipe ajustou o nó da gravata, deu um meio sorriso imperceptível e completou com a frieza habitual:
— Tenha uma boa noite de trabalho. Vejo você amanhã cedo.
Ele se virou com passos firmes, pegou o elevador e sumiu.
No dia seguinte, o clima na empresa parecia ter voltado aos eixos, mas a lembrança do que o Felipe tinha sussurrado na minha mesa no fim da tarde anterior ainda fazia meu sangue correr mais quente.
Assim que cheguei, nem bem tinha ligado o computador, o ramal tocou.
— Vitor. Na minha sala, por favor. Agora — a voz do Felipe veio curta, seca, exatamente no tom profissional de sempre.
Ajeitei a camisa, dei uma olhada discreta para o Vini — que só me encarou de canto, ainda ressabiado — e caminhei até a sala do CFO. Bati duas vezes e entrei.
O Felipe estava de pé junto à janela panorâmica, olhando a movimentação da cidade lá embaixo. Ele vestia um terno cinza-chumbo impecável, sem uma dobra sequer. Quando ouviu a porta fechar, virou-se devagar, com a expressão séria, quase misteriosa. Ele caminhou até a mesa, pegou um par de chaves e um cartão de acesso de couro preto e colocou sobre o tampo de madeira.
— Senta, Vitor — ele pediu, apontando para a cadeira à sua frente.
Sentei, mantendo a postura, mas sem tirar os olhos dele.
— O motivo de eu ter te chamado não tem nada a ver com o balanço do trimestre — ele começou, cruzando as mãos atrás das costas e me encarando com um olhar denso. — É um assunto estritamente pessoal. E envolve a Sabrina.
— A Sabrina? — perguntei, surpreso.
— Sim — o Felipe continuou, a voz baixando um tom, tornando a conversa absurdamente íntima dentro daquele escritório gigante. — A Sabrina vai passar o dia na cidade para um evento de arte e alguns compromissos particulares. Eu tenho uma maratona de reuniões com o conselho financeiro até de noite e não vou poder acompanhá-la. Não quero que ela fique sozinha por aí... e não confio em qualquer um para essa tarefa.
Ele deu um passo na minha direção, apoiando as duas mãos na borda da mesa e se inclinando ligeiramente sobre mim.
— Eu preciso que você cuide dela hoje, Vitor. Que seja o motorista, o acompanhante, o que for necessário. Leve onde ela quiser, faça companhia... garanta que ela se divirta e fique bem.
Senti um arrepio correr pela espinha. O chefe reservado, controlado e inabalável estava me entregando a própria mulher, sabendo perfeitamente da tensão e da dinâmica que existia entre todos nós.
— Cuidar da Sabrina, Felipe? — provoquei de leve, sustentando o olhar dele com um sorriso de canto. — Tem certeza de que quer me dar essa responsabilidade?
O Felipe não piscou. Um brilho muito sutil de desafio passou pelos olhos dele antes que ele respondesse, num tom firme, mas carregado de segundas intenções:
— Tenho absoluta certeza. Eu sei exatamente o que estou fazendo, Vitor... e sei do que você é capaz. Apenas faça o seu trabalho.
Ele empurrou o cartão de acesso e as chaves do carro na minha direção.
Peguei o cartão e as chaves sobre a mesa do Felipe, sustentando o olhar dele por mais um segundo antes de me levantar. Manter a boca fechada era a regra de ouro: não disse uma palavra para o Vini e nem passei na sala da Emilly. Fui direto para o estacionamento, peguei o SUV do CFO e saí em direção ao hotel boutique onde a Sabrina estava hospedada.
Quando parei no valet e ela desceu a escadaria, o impacto foi imediato. A Sabrina estava deslumbrante em um vestido fluido de seda verde-esmeralda, óculos escuros de grife e uma postura de pura elegância. Assim que entrou no carro, o perfume adocicado dela tomou conta do cabine.
— Vitor! Não sabia que o meu "motorista" de hoje seria você — disse ela, tirando os óculos e me dando um sorriso malicioso que entregava que ela sabia exatamente o jogo do marido. — O Felipe disse que enviaria alguém de confiança... mas não imaginava que seria tão de confiança assim.
— Serviço completo da diretoria, Sabrina — respondi com um sorriso de canto, engatando a marcha. — Para onde o seu itinerário pede primeiro?
Passamos a tarde inteira juntos. Levei a Sabrina a uma galeria de arte privativa nos Jardins e, em seguida, para um almoço tardio na varanda de um restaurante reservado. Conforme as taças de vinho branco eram esvaziadas, a postura refinada dela foi dando lugar a uma ousadia sem filtros.
Depois do almoço, em vez de voltar para o hotel, pedi para o manobrista trazer o carro e fomos dar uma volta por uma rota mais tranquila. A Sabrina encostou a cabeça no banco do passageiro, olhando para mim com um brilho intenso nos olhos.
— Sabe, Vitor... o Felipe acha que me engana fingindo que é esse homem intocável e certinho — ela começou, a voz ficando mais grave e pausada. — Mas a gente se conhece há anos. Eu sei a tensão que rola naquele andar. E sei como você e o Vinicius olham para as coisas.
— É mesmo? — provoquei, mantendo o olho na estrada, mas sentindo o clima esquentar dentro do carro.
— É claro — ela riu baixinho, deslizando a mão suavemente pelo meu joelho, subindo devagar pela minha coxa. — O Felipe precisa dessa fachada de CFO rígido para funcionar, mas eu não. Eu gosto da bagunça... e ando pensando muito em você e na Giovana.
A menção direta à minha esposa fez meu sangue correr mais rápido.
— Na Gi?
— Na Gi e em você. Vocês dois juntos — a Sabrina disse, sem hesitar nem um segundo, apertando levemente a minha coxa. — A Giovana é linda, tem aquela carinha de santa que me deixa louca... e você tem essa audácia toda. Eu quero colocar vocês dois numa sacanagem pesada comigo. Quero ver você dominando a sua mulher na minha frente enquanto eu participo de tudo. E quero ver como o Felipe vai reagir assistindo a gente quebrar cada uma das regras dele.
Ela se inclinou na minha direção, ficando a poucos centímetros do meu ouvido, a respiração quente roçando no meu pescoço:
— O que você acha de a gente organizar esse encontro sem o Felipe ter como fugir?
Senti o peso da mão da Sabrina na minha coxa e não pensei duas vezes. Ajeitei o tronco no banco, olhei direto nos olhos dela pelo retrovisor e dei aquele sorriso de quem já estava calculando cada passo.
— A ideia da Giovana é excelente, Sabrina... ela vai adorar entrar nessa — soltei, com a voz baixa e carregada de malícia. — Mas se é pra fazer um jogo de verdade e ver a estrutura do Felipe ruir de vez, a gente não pode deixar o resto do time de fora. A gente precisa colocar a Emilly e o Vinicius nessa roda.
A Sabrina arregalou os olhos por um segundo, mas em vez de recuar, abriu um sorriso largo e completamente dominado pelo tesão da proposta.
— O Vinicius e a diretora? — ela murmurou, passando a língua pelos lábios. — Puta que pariu, Vitor... o Felipe vai surtar vendo a Emilly no meio disso tudo. Eu topo. Quero todo mundo junto nessa sacanagem. Monta essa engenharia que eu garanto a minha parte com o meu marido.
O restante da tarde passou num piscar de olhos. Deixei a Sabrina no hotel no começo da noite com a promessa velada de que o plano já estava em andamento e fui direto para a casa da Emilly, sem avisar ninguém.
Quando ela abriu a porta vestindo apenas um robe de seda e segurando uma taça de vinho, nem me deu tempo de cumprimentar.
— Onde você se meteu o dia inteiro? O Vini tava surtando achando que você tinha sumido — ela disse, dando espaço pra eu entrar.
Entrei, encostei a porta e puxei a Emilly pela cintura de surpresa, colando o corpo nela até sentir a respiração dela falhar.
— Eu passei o dia cumprindo uma ordem direta do Felipe, Emilly — sussurrei bem perto do ouvido dela. — O Felipe me deu o carro e a missão de 'cuidar' da Sabrina o dia todo. E a sua futura parceira de cama quer colocar você, o Vini, a Giovana e eu numa suruba pesada na frente do marido dela. E ela já aceitou tudo.
A Emilly deu um passo pra trás, chocada, antes de soltar uma gargalhada gostosa e passar a mão pelo meu peito, os olhos pegando fogo:
— Você não existe, Vitor... E como a gente vai armar essa armadilha pro Felipe sem ele ter como dizer não?
O clique da maçaneta ecoou na sala um segundo antes de o Vini entrar.
Quando ele deu dois passos pra dentro e viu a cena — eu encostado no balcão da cozinha, com a mão por dentro do robe de seda da Emilly, agarrando a cintura dela enquanto ela ria com a cabeça jogada pra trás —, o Vini parou no ato. A expressão dele oscilou entre a surpresa e uma ponta de ciúme que ele nem tentou disfarçar.
— Mas que porra é essa aqui? — o Vini soltou, fechando a porta com o pé e jogando as chaves sobre a mesa. — O cara some o dia inteiro, não atende a bosta do celular e quando eu venho atrás, encontro vocês dois nesse amasso?
— Acalma o fogo, Vinicius — a Emilly respondeu sem se soltar de mim, virando o rosto devagar pra encarar ele com um sorriso provocante. — O Vitor tava só me contando as ordens diretas que recebeu do nosso CFO hoje. A esposa dele passou a tarde com nosso amiguinho aqui sendo motorista particular dela.
O Vini travou, cruzando os braços enquanto a gente explicava, a proposta aberta da Sabrina: o plano de juntar a Giovana, a Emilly, ele e eu numa orgia sem pudor, armada pra desarmar a marra de certinho do Felipe de uma vez por todas.
Conforme as peças iam se encaixando, o clima na sala mudou de figura. A raiva do Vini foi dando lugar a uma respiração mais curta, os olhos dele alternando entre a minha boca e as pernas da Emilly, que o robe de seda mal conseguia cobrir.
— A Sabrina quer ver o circo pegar fogo... e quer a Giovana na jogada — o Vini murmurou, dando dois passos lentos na nossa direção, a voz ficando mais grave. — E como a gente vai convencer a Gi a entrar nessa sem assustar ela?
— A Gi confia no Vitor... e tem um tesão reprimido nessa dinâmica toda que ela nem consegue mais esconder — a Emilly sussurrou, desfazendo o nó do próprio robe e deixando o tecido deslizar pelos ombros, ficando apenas de lingerie preta de renda no meio da sala. — Mas pra essa engenharia dar certo, a gente precisa alinhar muito bem como vai dominar aquele quarto.
O Vini não aguentou. Ele deu mais um passo, segurou a Emilly pela nuca e puxou ela pra um beijo fundo, esfomeado, cravando as mãos no quadril dela. Eu me aproximei por trás da Emilly, colando meu corpo no dela, passando as mãos pelo seu ventre até sentir a pele quente e arrepiada.
— A gente pode ir treinando as posições por aqui... — murmurei no ouvido da Emilly, descendo a mão pra entrepernas dela por cima da renda, enquanto o Vini abria o cinto da própria calça sem quebrar o contato visual comigo.
— O Felipe vai surtar quando ver vocês dois me dividindo assim na frente dele... — a Emilly gemeu baixinho, jogando o quadril pra trás contra mim enquanto o Vini ajoelhava na frente dela, puxando a lingerie pro lado pra cravar a boca no sexo dela sem cerimônia.
O plano foi sendo traçado no ritmo dos gemidos abafados e das estocadas fundas. Deitei a Emilly sobre o sofá de couro da sala, me posicionando entre as pernas dela enquanto o Vini ficava por cima, beijando a boca dela e segurando seus pulsos contra o encosto. A cada investida minha, a Emilly arfava, soltando detalhes de como deveríamos conduzir a noite no fim de semana.
— A Giovana... a gente chama pra um jantar mais intimista... na casa do Vitor — a Emilly instruía entre arfadas altas, cravando as unhas nas minhas costas enquanto eu aumentava o ritmo por baixo. — A Sabrina 'chega de surpresa' com o vinho... e o Felipe... o Felipe vem atrás pra tentar manter o controle...
— E quando ele pisar pra dentro... a porta tranca e a gente assume tudo — o Vini completou, a voz arfada, descendo os beijos do pescoço da Emilly até o meu peito, puxando meu corpo pra mais perto dele no meio daquela confusão de corpos e suor.
A transa na sala durou quase uma hora, misturando o tesão da ideia com a execução perfeita daquela conspiração. Quando os três gozaram juntos, largados no tapete da sala com as respirações pesadas e os corpos suados entrelaçados, o plano já estava completamente montado na nossa cabeça.

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