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Puteiro de Garimpo - Parte 1 - Introdução

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AnãoJediManco

No coração podre da floresta, onde o Rio Branco se estreita e a fronteira entre Brasil e Venezuela vira só uma linha imaginária no mapa dos homens sem lei, fica o Barracão das Putas. Não tem nome oficial. Quem precisa, sabe onde é. Quem não precisa, nunca chega vivo até lá.
É um puteiro de madeira podre e lona verde-musgo, fincado no meio de um garimpo ilegal que nunca dorme. O barulho das balsas e dos motores de sucção mistura-se com a música alta, os gritos e o cheiro constante de cachaça barata, suor, sangue e sexo. Não existe folga, não existe domingo, não existe “hoje não”. O Barracão abre quando o sol ainda não nasceu e só fecha quando o último homem com ouro no bolso ou com a alma suja de crime sai cambaleando pela trilha.
As mulheres chegam de formas diferentes. Algumas fugindo da miséria de Roraima, outras vendidas por traficantes venezuelanos, outras que simplesmente desapareceram do mundo lá fora e reapareceram ali, com outro nome e o olhar vazio. Todos sabem a regra, enquanto o ouro saísse da terra e os homens precisassem esquecer o que eram, elas trabalhariam. Sem pausa, sem escolha real.
O dono é um homem chamado Seu Nestor. Ninguém sabe se esse é o nome verdadeiro. Alto, magro, pele queimada pelo sol da floresta, sempre de camisa aberta e um revólver enfiado na cintura. Ele cobra em ouro em pó, em gramas de cassiterita, em dólares sujos ou em favores. Favores perigosos, favores que envolvem corpos flutuando rio abaixo ou homens que nunca mais voltavam do mato. Os clientes eram o que a floresta vomita quando a lei não entra. Garimpeiros com as mãos calejadas e o olhar amarelo de quem já engoliu mercúrio demais. Traficantes de droga e de gente que usam o garimpo como rota. Foragidos da justiça brasileira e venezuelana, homens com vários nomes e nenhum rosto oficial, que tinham encontrado no meio da Amazônia o único lugar onde ainda podiam respirar sem olhar por cima do ombro o tempo todo.
Eles chegam sujos, armados, cheirando a barro e a morte. Pedem cachaça, comida e mulher. Nessa ordem, ou tudo ao mesmo tempo. As meninas atendem em cabines improvisadas de madeira e plástico, com colchões finos e ventiladores que mal giram no calor úmido. O barulho de fora nunca para, motores, gritos, o som distante de um motosserra, o zumbido constante dos insetos.
Há hierarquia no Barracão. As mais novas e as mais bonitas ficam na frente, para os clientes que pagam melhor. As mais antigas, marcadas pelo tempo e pelo uso, atendem quem sobra, os bêbados perigosos, os violentos, os que chegavam com a faca ainda ensanguentada da briga da noite anterior.
Uma delas se chama Luana. Ou pelo menos era o nome que usa ali. Ela veio de Pacaraima três anos antes, depois que o companheiro sumiu num conflito de garimpo. Nunca mais saiu. Sabe o nome de quase todos os foragidos que passam por ali, sabe quem tinha matou quem, quem está devendo o quê. Mas nunca fala, falar é perigoso, no Barracão, a única coisa que vale mais que o ouro é o silêncio.
À noite, quando a floresta fica mais escura e os geradores zumbindo, o lugar vira outro. Homens armados jogam baralho com barras de ouro sobre a mesa. Mulheres dançam seminuas em cima de caixas de cerveja. Alguém sempre acaba brigando. Alguém sempre acaba sangrando. E no dia seguinte, tudo recomeça. Porque o garimpo não para, e o Barracão das Sombras também não. Ali, no meio da floresta que engole tudo, a vida e a morte, o prazer e a violência, o ouro e a carne, tudo se mistura até virar a mesma coisa, sobrevivência suja, sem lei, sem deus e sem amanhã.
No Barracão das Sombras, as mulheres não têm passado. Têm só o corpo e o que sobra dele depois de cada noite. Algumas chegam ainda com algum brilho nos olhos. Outras já chegam quebradas. Todas saem piores, ou não saem.
Vamos conhecer muitas delas nessa história, mas para entenderem como é esse lugar, nessa introdução, vamos mostrar alguns casos para entenderem melhor a crueldade desse lugar.
Luana, a que sabe demais

Luana tem vinte e seis anos, mas o rosto parece de quarenta. Pele bronzeada, seios pesados, cicatriz fina no lábio inferior de uma facada antiga. Ela é uma das mais duradouras do lugar. Já viu de tudo, ou pensa que viu.
Uma noite de chuva pesada, chega um grupo de venezuelanos foragidos. Quatro homens. Um deles, um tipo magro de olhos claros, pede Luana especialmente. Paga o dobro em ouro em pó. Leva ela para o fundo do barracão, numa cabine isolada onde o barulho da música não chega tão forte.
O que acontece ali dentro não é só sexo. É um ritual. Os outros três entram depois, amarram as mãos dela com corda de nylon usada para amarrar motores. Um deles enfia o cano da pistola na boca dela enquanto os outros a usam. Não é ameaça vazia, o gatilho está armado. Luana se engasga, chora, sangra. Quando terminam, o de olhos claros tira uma faca pequena e faz um corte superficial entre os seios dela, lambendo o sangue. Pra lembrar, diz em espanhol carregado.
Luana não grita. Já aprendeu que gritar só piora. No dia seguinte está de volta na frente do barracão, maquiagem grossa cobrindo os hematomas, atendendo o próximo.

A novata que dura três noites

Chega uma menina de dezenove anos, trazida por um traficante de Pacaraima. Magra, cabelo preto liso, ainda com jeito de quem tem vergonha. Chamam ela de Ninfeta, nome cruel, porque não é mais criança, mas ainda não tem a casca dura das outras.
Na primeira noite, um garimpeiro gordo e sujo a compra por duas gramas de ouro. Leva ela para a cabine e a usa com violência, sem preparo, sem cuidado. Ela grita, ele ri e tapa a boca dela com a mão suja de barro.
Na segunda noite, um grupo de cinco homens, misturados de brasileiros e venezuelanos pedem a novata. Seu Nestor cobra caro. Eles a levam para trás do barracão, perto do rio. Ali, no barro molhado, fazem fila. Um deles filma com o celular. Outro obriga ela a engolir terra misturada com porra. Quando ela vomita, batem, e batem forte. Quando ela tenta correr, um deles a segura pelo cabelo e a enfia de cabeça na água barrenta até quase afogar.
Na terceira noite, Ninfeta não aguenta. Tenta fugir pela trilha. Dois pistoleiros do Seu Nestor a pegam antes de chegar na primeira curva. Trazem ela de volta amarrada. Seu Nestor, na frente de todo mundo, a entrega de novo para os mesmos cinco. Dessa vez não há cabine. É no meio do salão. As outras mulheres assistem em silêncio. Algumas viram o rosto, outras não, e assistem tudo como se não se importando com a dor da colega.
Ninfeta some no quarto dia. Ninguém pergunta, e ninguém sabe o que aconteceu com ela. No Barracão, sumiço é rotina.

A noite dos foragidos

Há noites em que o lugar parece vomitar o pior da humanidade. Uma dessas é quando chega um grupo de sete homens foragidos, misturados de assaltantes de banco, traficantes e um estuprador em série que fugiu de uma cadeia em Manaus.
Eles compram o Barracão inteiro por uma noite. Seu Nestor fecha as portas para qualquer outro cliente. As mulheres, oito delas naquela madrugada, ficam trancadas lá dentro com os sete.
O que acontece nas horas seguintes não tem nome. As mulheres são usadas em rodízio, em grupos, no chão, nas mesas, amarradas umas nas outras. Uma delas, chamada Rosa, de trinta e dois anos, é forçada a engolir o que os homens mijam depois de gozar. Outra, uma morena alta chamada Débora, tem os seios queimados com a ponta de cigarro enquanto é penetrada por dois ao mesmo tempo. Uma terceira, a mais quieta, chamada Solange, é obrigada a lamber o sangue de um corte que um dos homens faz no próprio braço.
Quando o sol nasce, duas mulheres não conseguem mais andar. Uma tem o olho roxo fechado. Outra sangra entre as pernas de forma que nem a toalha grossa que colocam resolve. Seu Nestor manda as outras limparem o chão. O ouro é contado e compensou muito para o dono. Os foragidos vão embora rindo, carregando mais munição e mais história suja para contar.

O que a floresta esconde

Há coisas piores. Coisas que nem as mulheres mais antigas falam em voz alta.
Uma vez, um cliente pede para brincar de caça. Leva uma das meninas para o mato, amarrada numa corda comprida. Solta ela e corre atrás com uma faca. Quando a pega, não mata, mas deixa marcas que ela carrega para o resto da vida. Outro pede para usar uma mulher enquanto um companheiro dele filma e ameaça mandar o vídeo para a família dela, mesmo que ninguém saiba se ela ainda tem família.
Há noites de drogas pesadas, em que homens cheiram cocaína misturada com residual de mercúrio e ficam horas sem conseguir gozar, usando as mulheres até elas desmaiarem. Há noites em que algum cliente pede para compartilhar a mulher com o cachorro vira-lata que fica no acampamento. Seu Nestor cobra extra por isso. Nem todas as mulheres aguentam. Algumas simplesmente desligam a cabeça e deixam o corpo fazer o trabalho.
E no meio de tudo isso, as mulheres continuam. Porque o ouro continua saindo da terra. Porque os homens continuam chegando. Porque naquela fronteira esquecida por Deus e pela lei, o Barracão das Sombras é o único lugar onde um corpo ainda tem algum valor, mesmo que seja o valor mais baixo possível.
(Se gostarem, posso contar a história de muitas vadias que chegam todos os anos nesse lugar)

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