Furvela cidade dos peludos
A cidade que eu gostaria ter, no meio de todos o sexo rolava solto.
# FURVELA, A CIDADE DOS PELUDOS
Ninguém sabe direito como Furvela começou. Dizem que era um vilarejo de pescadores, depois uma zona portuária, depois um bairro inteiro de homens que resolveram que mulher não fazia falta pra nada. Hoje é uma cidade de duzentos mil habitantes e não há uma única mulher nela. Todos homens. Todos magros, todos novos, todos cobertos de pelo da canela ao pescoço.
E o ar de Furvela tem cheiro. Cheiro de suor, de chulé de sandália, de cueca virada, de sebo acumulado debaixo do prepúcio. É a primeira coisa que Téo sentiu quando o ônibus parou na rodoviária — não o calor de trinta e nove graus, não o barulho, mas aquele perfume denso de macho jovem que não se lava direito. Ele desceu com vinte e dois anos, um metro e setenta e oito de magreza, mochila nas costas e a bermuda já grudada na virilha de tanto suor. Peludo como todo mundo ali, mas ainda com cara de quem não sabia.
Não sabia mesmo. Foram dez passos até o primeiro convite.
O rapaz do guichê de informações tinha vinte anos, peito liso de pelo ralo e escuro, osso do quadril aparecendo acima do cós da bermuda. Estendeu o mapa com a mão e, quando Téo pegou, não soltou.
— Você é novo. — Cheiro de axila subindo pelo braço erguido. — Vai ficar onde?
— Não sei ainda.
O rapaz sorriu, largou o mapa e abaixou o zíper sem pressa nenhuma. Tirou o pau pra fora por cima do cós da cueca, grosso, retorcido, com a pele do prepúcio meia descascada e um anel branco-amarelado de sebo na coroa da glande. O cheiro veio na hora, azedo, quente, aquele cheiro que gruda na garganta.
— Chupa um pouco antes de ir — ele disse. — É cortesia da casa.
Téo se abaixou ali mesmo, no chão da rodoviária, entre os pés de outros passageiros, e encostou o nariz na virilha do rapaz. Puxou o ar fundo. Era de doer. Passou a língua de baixo pra cima, recolheu aquele sebo com a ponta, mastigou o gosto salgado e amargo, e depois engoliu até o nariz afundar no pentelho encaracolado. O rapaz segurou a cabeça dele com as duas mãos e meteu fundo, sem delicadeza, a coxa peluda tremendo contra a orelha de Téo. Gozou em três minutos, jato curto e grosso, e Téo engoliu tudo com a boca cheia.
— Bem-vindo a Furvela — o rapaz falou, se recompôs e voltou pro guichê.
## A rua do Meio
Furvela não tem calçada. Tem chão. E no chão, o dia inteiro, homens. A Rua do Meio é a espinha da cidade: estreita, ladrilhada de branco, sempre molhada porque os canos de água estouram de propósito, e sempre cheia. Ninguém ali usa camisa. Ninguém usa cueca. Andam de sandália de dedo e short de elástico, e o short só serve pra esconder até alguém pedir — e alguém sempre pede.
Téo foi caminhando e contando. Na esquina, dois rapazes de dezenove anos, os dois muito magros, os dois com aquela linha de pelo subindo do umbigo, se beijavam contra a parede de azulejo azul, e o da frente metia a mão por dentro do short do outro, socando os dedos. Um pouco adiante, um mais velho, talvez vinte e cinco, sebo acumulado na barba rala, mijava no meio-fio com o pau mole na mão e três garotos em volta esperando pra chupar. Téo passou, e um deles, ajoelhado, segurou o tornozelo dele.
— Senta aqui um pouco.
Ele sentou no degrau. O garoto tirou o chinelo de Téo, e o cheiro de chulé subiu — dois dias de sandália no calor, aquele cheiro bom de pés de homem jovem que a cidade inteira respira. O garoto encostou a cara na sola, esfregou o nariz nos dedos, e depois foi subindo pela panturrilha, mordendo o pelo, até chegar na coxa e enfiar o nariz na virilha. Abocanhou por cima da bermuda, e Téo sentiu o calor da boca atravessar o tecido, e sentiu o próprio pau endurecer até doer, até a cabeça latejar contra o zíper.
— Me deixa ver — o garoto pediu.
Téo abriu a bermuda. Estava encharcado de suor e de umidade, e o sebo do dia inteiro já formava aquela pasta esbranquiçada embaixo do prepúcio. O garoto puxou a pele pra trás, cheirou, e lambeu a glande devagar, recolhendo tudo com a língua áspera. Depois engoliu, e Téo jogou a cabeça pra trás e gemeu pro céu branco de tanto sol, os dedos do pé crispados na pedra molhada.
Ficaram assim até a boca do garoto cansar. Ele cuspiu, levantou, virou de costas e puxou o short do próprio rabo — magro, coberto de pelo ralo, com dois vãos fundos nas costas. Encostou-se no gradil e olhou por cima do ombro.
— Bota.
Téo cuspiu na mão duas vezes, passou na glande e empurrou. Entrou apertado, o garoto grunhiu e abriu mais os pés, e a coisa foi ficando fácil, escorregadia de suor. Ele meteu com a mão espalmada no quadril do outro, sentindo o osso, sentindo o pelo, sentindo o cheiro que subia dali. A rua seguia ao redor, ninguém parava pra ver, porque na Rua do Meio transar é tão banal quanto andar.
Quando ele gozou, escorreu pelas pernas do garoto, e o garoto não limpou. Deixou secar ali e saiu andando com as pernas meladas.
## O mercado de sebo
O Mercado de Furvela abre às cinco da manhã e o nome não é por acaso. No fundo do galpão, atrás das bancas de peixe e de manga, há um corredor de tábuas onde os rapazes mais novos da cidade trabalham. A regra é simples: você chega, escolhe um, senta na cadeira de plástico, e ele desce o prepúcio e te deixa cheirar antes de qualquer coisa. Chama-se "checar o sebo". Se o cheiro estiver bom — azedo, forte, de dois ou três dias — você paga o dobro.
Téo escolheu um de dezenove, quase transparente de magreza, costelas aparecendo, pelo preto e denso descendo em triângulo até o pau. O rapaz abaixou a pele e o cheiro bateu como um soco. Téo puxou o ar até o fundo dos pulmões, os olhos lacrimejando.
— Tá bom? — o rapaz perguntou.
— Tá horrível — Téo respondeu. — Me dá mais.
O rapaz riu e encostou o pau no rosto dele, esfregando o sebo na bochecha de Téo, na sobrancelha, no lábio. Téo abriu a boca e deixou. Lambeu até a coroa ficar limpa, brilhando de saliva, e o rapaz gemeu fino, se apoiava na banca, e depois Téo o virou e comeu de pé, contra a madeira, com o barulho do peixe sendo pesado ao lado e as moscas voando em volta.
## A casa de banho
À noite, Téo foi à Casa de Banho da Rua Sete, um prédio de azulejo verde com quarenta chuveiros e nenhum box. Todo mundo nu, todo mundo peludo, a água caindo e o vapor embaçando tudo. Ali dentro ninguém fala alto; só o barulho da água e o som de pele batendo em pele nos cantos.
Ele ficou um tempo só olhando. Havia um rapaz de vinte anos sentado no banco de cimento, pernas abertas, se masturbando devagar e olhando Téo nos olhos. Havia dois outros se pegando em pé sob o chuveiro, um com a mão entre as nádegas do outro. Havia um terceiro, ajoelhado, com dois paus na boca — um de cada lado — revezando, a baba escorrendo até o peito.
Téo se aproximou do rapaz do banco. Ele abriu mais as pernas, e o chulé de sandália fechada subiu com o vapor, aquele cheiro ácido e doce que só a Casa de Banho tem. Téo se ajoelhou entre as pernas dele, encostou a testa na coxa peluda e ficou ali respirando por um tempo, sem pressa, enquanto a água quente escorria pelos dois. Depois chupou. Chupou longo, com a garganta, até o rapaz gemer e segurar o cabelo dele, e até outro homem, atrás, encostar a glande na entrada de Téo e empurrar devagar, e ele ficar ali, entre duas bocas de homem, no meio do vapor, sendo usado de todos os lados sem precisar decidir nada.
Gozaram nele quase juntos. O de trás primeiro, dentro; o da frente depois, na cara, no olho, no canto da boca. Téo ficou sentado no chão do chuveiro com aquilo escorrendo, rindo sozinho, e o vapor foi apagando tudo.
## A fonte
A Praça da Fonte é o coração de Furvela e o chão em volta dela é de pedra lisa, sempre seca, sempre quente. É onde os rapazes se deitam em roda ao entardecer, de barriga pra cima, as pernas abertas, e esperam. Não é putaria organizada — é só a cidade sendo a cidade. Quem chega, escolhe, deita no meio, e o círculo se fecha.
Téo deitou. Cinco homens se aproximaram sem combinar nada. Um pegou o pé dele e chupou os dedos. Outro subiu pela perna, mordendo a panturrilha, e parou na coxa. Um terceiro se deitou de lado e enfiou o próprio pau na boca de Téo, e Téo chupou deitado, com a cabeça virada, o pescoço doendo. Um quarto montou por cima, de costas, e desceu devagar até sentar, e Téo sentiu o aperto quente e o pelo roçando no ventre, e começou a meter de baixo pra cima, e o quinto ficou de joelhos ao lado, batendo uma punheta rápida pra ele.
Ficaram quase uma hora assim. Téo gozou duas vezes — a primeira em ninguém, escorrendo pela barriga; a segunda dentro do que estava sentado nele, que gozou junto e depois levantou com as pernas bambas, escorrendo, e saiu andando pela praça sem limpar, cumprimentando os amigos pelo caminho.
## Como a cidade se lava
Em Furvela ninguém toma banho de manhã. Tomam banho à noite, e mal. A água é pouca e a cidade prefere assim, porque o dia inteiro de suor e o sebo de dois, três dias são a assinatura de cada um. Quando você pega um rapaz na rua, ele levanta o braço e você cheira a axila antes de qualquer coisa. É o cumprimento. É a etiqueta. Ninguém acha estranho.
Téo aprendeu isso no terceiro dia, quando um rapaz de vinte e um anos o parou na frente da padaria e levantou o braço. Ele enfiou o nariz ali, no pelo do sovaco, e o rapaz suspirou aliviado, como se estivesse esperando aprovação a semana inteira. Depois Téo o encostou no balcão de metal da padaria e o comeu ali, com o padeiro ao lado tirando o pão do forno e fingindo não ver, e o rapaz gozando em cima do balcão, e o padeiro, quando terminou, passando a mão no próprio pau por cima do avental e dizendo:
— Deixa eu também.
Furvela é isso. É a cidade onde ninguém diz não, onde o cheiro de macho jovem é o ar que se respira e onde transar não é um evento — é o jeito de andar na rua.
No quarto dia, Téo já não usava mais cueca. No quinto, já tinha parado de se limpar direito. No sexto, um rapaz parou ele na rodoviária — o mesmo do guichê — e perguntou:
— Tá indo embora?
Téo olhou em volta: os azulejos, os corpos magros, os pelos, os pés de sandália, o sebo de todo mundo. Abaixou o zíper e respondeu:
— Chupa que eu te conto.
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