Puteiro de Garimpo - Parte 3 - Lembranças
Elas são empurradas para os fundos do Barracão das Sombras sem nenhuma cerimônia. Um corredor estreito, cheirando a mofo, suor velho e desinfetante barato, termina numa porta de madeira trancada por fora com cadeado. O homem que as escoltam abre, empurra as duas para dentro e tranca de novo. O barulho da tranca ecoa como sentença.
O espaço é único, sem divisões. Grande o bastante para caber dezenas de corpos, mas baixo, quente, abafado. Colchões finos espalhados no chão de concreto rachado. Algumas redes improvisadas. Roupas jogadas em cantos. Uma única janela alta, gradeada, deixa entrar um fio de luz suja da floresta. O ar é pesado de corpo feminino, de sangue menstrual velho, de porra seca e de resignação.
Várias mulheres estão ali. Algumas deitadas, outras sentadas com as costas na parede, outras em pé, fumando bitucas até o fim. Quase todas nuas ou de calcinha só. Olhos fundos, marcas roxas, cicatrizes. Olhares que já não se surpreendem com nada.
Quando Marisa e Jéssica entram, ainda nuas, sujas, meladas, andando de pernas abertas, o silêncio se espalha por alguns segundos. Depois uma voz rouca, de uma mulher mais velha no canto, pergunta sem emoção:
— Primeira noite?
Marisa acena com a cabeça. Jéssica só aperta a mão da mãe.
Elas se sentam num colchão livre, perto da parede. O corpo ainda lateja, o cu de Marisa arde a cada movimento, ele não fecha. A boceta de Jéssica lateja inchada. O cheiro delas é de sexo, sangue e o homem negro, e se mistura ao cheiro do cômodo. Não demora para as perguntas começarem. Não por curiosidade mórbida, por necessidade. Ali, contar é a única forma de não enlouquecer sozinha. Marisa fala primeiro. A voz sai rouca, sem enfeite, sem pudor.
— Foi um negro, dono de máquina. Pau grosso pra caralho, parece uma garrafa de cerveja, desproporcional para um homem. Levou a gente para a barraca dele. Fez a gente se chupar, mandou a minha filha chupar ele… a boca dela quase não aguentou, quase que aquele negócio preto nem cabe na boca dela. Depois arrombou meu cu por quase uma hora, cheio de remédios e drogados, ele não parou. Sangrou, e sangrou bastante, fodeu as duas bocetas várias vezes. Gozou dentro, gozou na boca, estuprou a gente a noite inteira. A gente voltou andando de perna aberta, com os filhos da puta do garimpo xingando.
Jéssica completa, a voz quebrada, mas firme o bastante para ser ouvida:
— Eu era virgem. Ele rasgou, e tá doendo pra caralho, eu tô estourada por dentro. Ele fez eu chupar depois de ter metido no cu da minha mãe. Tinha sangue na cabeça do pau dele, tinha gosto de sangue e de merda. Eu chorei a noite inteira, ele não parou.
Nenhuma das mulheres ali se choca. Algumas só balançam a cabeça. Outras baixam o olhar. Uma delas, magra, cabelo raspado de um lado, cicatriz feia no peito, ri sem humor.
— Bem-vindas ao clube.
E então as histórias começam a sair. Uma atrás da outra, sem ordem, sem pudor. Como quem vomita veneno para não morrer envenenada.
Uma mulher de uns trinta anos, seios caídos e olho roxo ainda verde, conta:
— Teve uma noite que cinco homens me compraram juntos. Me amarraram numa árvore atrás do barracão. Cada um gozou dentro, me arrombaram que meu cu demorou vários dias para fechar novamente. Depois me deixaram lá até de manhã, pendurada na árvore. Acordei com formiga no corpo e porra escorrendo na perna. Ninguém veio me buscar, fiquei o dia todo presa lá, e quando foi de tardezinha, me soltaram e tive que voltar engatinhando.
Outra, mais nova, fala baixo, quase sem mexer a boca:
— Um venezuelano me fez engolir o meu próprio vomito misturado com porra dele. Falou que se eu cuspisse ele me matava. Eu engoli tendo arrepios, nunca vou esquecer disso. Depois ele mijou na minha boca e me fez engolir de novo. Fiquei três dias sem conseguir comer.
Uma terceira, sentada no canto com as pernas abertas porque não consegue fechar, mostra a cicatriz grossa entre as coxas:
— Tentei fugir uma vez, mas me pegaram. O Nestor mandou me “ensinar”. Quatro homens me estupraram ao mesmo tempo, um na buceta, dois no cu, que me rasgaram, e um socando na minha garganta. Um deles usou a faca e riscou o nome dele na minha coxa, depois me cortou por dentro da buceta, rasgou por dentro. Sangrei tanto que achei que ia morrer. Não morri, mas agora só sinto dor. Nunca mais senti prazer, nem ódio eu consigo mais, só dor.
Uma mulher mais velha, cabelos brancos na raiz, voz cansada, completa:
— Tem noite que eles pagam pra gente se comer na frente deles. Mãe e filha, irmãs, o que tiver. Já vi mulher sendo obrigada a chupar a boceta da própria filha enquanto um homem fodia o cu dela. Já vi mulher sendo usada por cachorro. Já vi homem apagar cigarro no mamilo de uma moça de quinze anos. Já vi mulher sumir e nunca mais voltar, a gente finge que não viu. Porque se perguntar demais, é a próxima.
Jéssica escuta tudo com os olhos abertos demais. As lágrimas descem sem parar, mas ela não soluça mais, absorve. Cada história entra nela como prego. Marisa mantém o braço em volta da filha, mas o gesto já não protege ninguém.
No meio daquele cômodo trancado, as duas entendem de verdade, nenhuma daquelas mulheres está ali por escolha. Todas foram trazidas, vendidas, enganadas ou quebradas. Todas já passaram por coisas que a mente normalmente não consegue segurar. E todas continuam ali, dia após dia, noite após noite, porque a floresta não devolve quem ela engole.
Uma das mulheres se aproxima e oferece um pedaço de pano úmido.
— Limpa o que der. Daqui a pouco chamam de novo. Aqui não tem tempo para se recuperar. Só tem tempo para aguentar.
Marisa pega o pano. Começa a limpar, devagar, o sangue seco da filha. Jéssica deixa. Os olhos dela já não têm mais a mesma luz de quando chegaram do Rio Grande do Sul. Ali, no fundo do puteiro, cercadas por mulheres que já tiveram a mente estuprada junto com o corpo, as duas começam a entender o tamanho do inferno em que entraram.
E sabem, sem que ninguém precise falar, que ainda vão ouvir e viver coisas piores.
O silêncio depois das primeiras histórias não dura. Uma mulher mais ao fundo, magra demais, com os seios murchos e uma cicatriz feia que sobe do osso do púbis até perto do umbigo, se mexe no colchão e cospe no chão antes de falar.
— Vocês ainda tão limpinhas. Ainda choram, ainda acham que dor tem fundo. Não tem.
Ela abre as pernas sem pudor nenhum. A boceta dela está destruída. Os lábios internos saem para fora, roxos escuros, com pedaços de carne que não voltaram pro lugar. O buraco do cu fica logo abaixo, folgado, aberto o suficiente para caber dois dedos sem esforço.
— Teve uma noite que um grupo de seis comprou a gente. Eu e mais duas. Eles trouxeram um pedaço de cano de PVC grosso, daqueles de água. Enfiaram no meu cu primeiro. Empurraram até eu gritar que ia cagar as tripas. Depois passaram para a boceta. Foderam com o cano até sangrar, me esfolaram tanto por dentro, que eu queria morrer. Depois um deles enfiou a mão inteira, mão fechada, entrou até o pulso. Eu senti os ossos dele dentro de mim. Quando tirou, saiu pedaço de carne junto, que o cano esfolou. Sangrou tanto que achei que ia morrer ali mesmo. Não morri, pelo menos o corpo. Só fiquei assim larga, sem valor. Agora qualquer pau fino parece brinquedo. E eu não sinto quase nada, só pressão, e vergonha.
Outra mulher, sentada com as costas na parede, tem os dois mamilos queimados. A pele ao redor é lisa, brilhante, de cicatriz antiga. Ela toca um deles enquanto fala, como quem ainda não acredita que é real.
— Um filho da puta de Manaus gostava de cigarro. Acendeu um atrás do outro e foi apagando nos meus peitos enquanto me fodia. Cada vez que eu gritava ele gozava mais forte. Queimou os dois mamilos até não sobrar quase nada, ficou em carne viva. Depois me fez chupar o cigarro apagado misturado com a porra dele, me fez comer todas as bitucas. Fiquei com febre três dias, as queimaduras inflamaram e ficou horrível. Os mamilos nunca mais ficaram normais. Qualquer roupa roça e dói muito, qualquer boca que chupa faz eu querer morrer.
Uma terceira se aproxima. Tem o cabelo cortado rente, quase raspado, e uma marca funda no canto da boca, como se tivesse sido rasgada até a orelha e costurada mal.
— Tentei morder um, mordi o pau de um velho nojento. Maior erro da minha vida, eles seguraram minha cabeça, abriram minha boca com alicate de ferramenta e cortaram o canto com faca de peixe. Enquanto o sangue escorria ele meteu o pau na garganta até eu me engasgar com o próprio sangue. Depois me fizeram lamber o chão. Fiquei sem conseguir fechar a boca direito por semanas. Hoje ainda vaza saliva quando fico muito tempo calada. E todo mundo que me fode quer gozar nessa cicatriz. Empurra a porra para dentro do corte. Fala que é “maquiagem de puta”.
No canto, uma mulher mais nova, talvez a mesma idade de Jéssica, está encolhida. Quando fala, a voz sai baixa e monótona, como se estivesse contando o dia a dia.
— Um venezuelano me comprou por três dias. Levou para a barraca e me acorrentou pelo pescoço numa estaca. Me fodia de manhã, de tarde e de noite. Entre uma foda e outra me fazia engolir a porra que tinha escorrido no colchão. No segundo dia começou a me foder com o cabo da pá. Grosso, cheio de farpa. Rasgou por dentro. No terceiro dia trouxe o cachorro dele. Um vira-lata grande e agressivo. Segurou minha cabeça no chão e fez o cachorro me montar. Eu senti o pau do animal entrando. Sentindo-o tremer quando gozou. Depois me obrigou a lamber a porra do cachorro que escorria de mim. Quando voltou eu para o Barracão, o Nestor só falou para limpar o sangue e voltar para o salão. Ninguém perguntou nada. Eu também não falei, até hoje.
Uma mulher de meia-idade, barriga mole e coxas marcadas de chupões antigos que viraram manchas, ri sem alegria e aponta para própria boceta.
— Já fui forçada a abortar aqui dentro. Com garrafa enfiada para romper o colo do útero. Quebraram o fundo e enfiaram. Mexeram até sair tudo. Sangrou igual porco quando mata. Depois me fizeram atender no mesmo dia. O primeiro cliente reclamou que tava “molhada demais”. Era sangue e coisas do meu útero. Ele gozou assim mesmo, e eu falei que era menstruação. Ele meteu mais forte e me machucou mais ainda.
Marisa escuta tudo sem piscar. Jéssica tem o rosto molhado, mas já não faz barulho. As histórias entram nelas como faca sem cabo, cada uma deixa um pedaço dentro.
A mulher da cicatriz na boca se inclina para frente e fala olhando direto nos olhos de Jéssica:
— A sua boceta ainda tá inchada de ontem. Ainda sangra um pouco, né? Daqui a pouco vão te chamar de novo. E o próximo pode ser pior, tá, porque se ele te achar larga, vai te bater. Pode ser um que goste de ouvir osso estalando. Pode ser um que queira te ver chupando a boceta da sua mãe enquanto outro te fode o cu com cabo de ferramenta. Pode ser um que te faça engolir porra misturada com mijo e terra. E você vai fazer. Porque se não fizer, eles fazem pior. E a gente fica aqui, ouvindo, sabendo que amanhã pode ser a gente de novo.
Houve um silêncio longo, e que acabou sendo rompido por mais histórias.
A primeira a falar é uma mulher de corpo marcando uns trinta e cinco anos, magra, com os ossos do quadril saltados e uma cicatriz circular feia em volta do pescoço, como se alguém tivesse tentado enforcá-la com arame. Ela puxa o ar com dificuldade antes de começar.
— Teve uma noite que um grupo de traficantes venezuelanos me comprou só para “brincar”. Me levaram para o mato, longe do barracão. Me amarraram de joelhos numa raiz grossa. Um deles tirou uma corda de aço fina, daquelas de estender roupa. Enrola no meu pescoço e vai puxando devagar enquanto os outros me fodem a boca, a boceta e o cu ao mesmo tempo. Cada vez que eu quase desmaio, ele afrouxa. Cada vez que eu volto, ele aperta de novo. Eu sentia a porra escorrendo do cu e da boceta enquanto a visão ficava preta. Quando cansaram de me foder, um deles mijou na minha boca aberta e me fez engolir. Outro cagou na minha frente e esfregou a merda nos meus peitos e no meu rosto. Depois me soltaram e mandaram eu voltar sozinha. Cheguei no Barracão engatinhando, coberta de merda, porra e mijo, com a marca da corda queimada no pescoço. O Nestor só mandou me jogar água e me colocou de volta no salão no mesmo dia. Até hoje eu sinto o gosto da merda quando fecho a boca com força.
A segunda mulher está sentada num canto, com as pernas abertas porque não consegue fechá-las direito. A boceta dela é um buraco destroçado, lábios rasgados, entrada escancarada, pele interna visível mesmo quando ela tenta se cobrir. Ela fala sem olhar para ninguém.
— Um dono de balsa me comprou por dois dias. Levou para cima da balsa, no meio do rio. Me amarrou de quatro numa viga. Fodeu meu cu até sangrar, depois enfiou uma garrafa de cachaça inteira. A garrafa quebrou dentro, os pedaços de vidro me cortaram e o resto de cachaça me entorpeceu, ele riu. Continuou me fodendo com os cacos ainda dentro. Eu sentia o vidro cortando. Sangue escorria junto com a porra. Quando ele tirou o pau, saiu caco junto. Ele pegou um alicate de pesca e foi tirando os pedaços de vidro da minha boceta e do meu cu enquanto me obrigava a chupar ele. Cada vez que eu gritava, ele empurrava o alicate mais fundo. No segundo dia ele chamou mais três homens. Me foderam com o cabo de um motor de popa. Grosso, cheio de graxa, rasgou tudo dentro do meu cu. Hoje eu não seguro xixi direito. Não seguro merda direito. Qualquer pau que entra só empurra carne morta. E todo mundo que me pega fala a mesma coisa, essa daí já tá boa de tão folgada.
A terceira é a mais quieta do cômodo. Moça ainda jovem, mas com os olhos de quem já morreu por dentro. Tem os dois pulsos marcados de cicatriz antiga, como se tivesse sido amarrada por meses. Quando abre a boca, a voz sai baixa e monótona, quase sem emoção.
— Um foragido de Roraima me comprou e me levou para uma cabana no meio da floresta. Fiquei lá onze dias. Ele me acorrentou pelo pescoço e pelos pulsos. Me fodia de manhã. Me fazia chupar a porra do chão à tarde. À noite me fodia de novo e me obrigava a dormir com o pau dele ainda dentro da boceta. No quarto dia ele trouxe um cachorro maior. Segurou minha cabeça no chão e fez o animal me montar. Eu senti o pau do cachorro inchando dentro de mim, travando. Ele gozou e ficou preso, foi horrível, eu gritei até a voz sumir. O homem riu e me deixou ali, presa no cachorro, por quase uma hora. Depois me fez lamber a porra que escorria misturada com o gozo do animal. Nos dias seguintes ele começou a me foder com objetos, cabo de faca, galho de árvore, uma lata de sardinha amassada. No décimo dia ele trouxe outro homem. Os dois me usaram juntos, um no cu e outro na boceta, enquanto me faziam engolir o mijo dos dois. Quando me trouxeram de volta, eu não conseguia andar, não conseguia falar. Fiquei três dias no canto desse cômodo sem conseguir comer. Até hoje eu acordo no meio da noite sentindo o pau do cachorro inchando dentro de mim. E o pior, parte de mim já não liga mais. É como se a mente tivesse desistido antes do corpo.
O silêncio que se segue é pesado, quase sólido. Nenhuma das mulheres chora. Já passaram da fase do choro. Só restam os corpos marcados e as histórias que ninguém lá fora jamais vai acreditar.
Jéssica está com as unhas cravadas no braço da mãe. Marisa mantém o rosto impassível, mas o maxilar está travado com tanta força que os dentes doem.
Do lado de fora, a porta é batida de novo, mais forte.
— Mãe e filha. Agora.
O cômodo inteiro parece respirar junto. O cheiro de sexo velho, sangue seco e resignação fica mais forte. Nenhuma das mulheres ali tem mais ilusão. Todas já foram abertas, queimadas, cortadas, humilhadas, usadas por homens, por objetos, por animais. Todas carregam no corpo as marcas que não saem. E todas sabem que o próximo homem que pagar o preço vai querer deixar a marca dele também.
Marisa aperta a filha contra si. Mas o gesto já não significa proteção. Significa só que as duas ainda estão juntas. Por enquanto.
Do lado de fora, alguém bate na porta com força.
— Duas aí. A mãe e a loirinha, já para fora. Não vou chamar outra vez!
As mulheres do cômodo baixam os olhos. Algumas fazem o sinal da cruz sem acreditar em deus nenhum. Outras simplesmente viram o rosto.
Porque todo mundo ali já sabe: a noite ainda não acabou.
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