O Sol e a Lua
Gabriel
A primeira vez que vi Lucas, ele estava a discutir com uma velhinha sobre tomates.
— Não, senhora, estes não estão maduros — dizia ele, com uma paciência que eu jamais teria. — Veja, a cor está muito clara. Os maduros são mais vermelhos, quase a explodir.
A velhinha franziu o nariz. Lucas suspirou, tirou os óculos de aro preto e passou a mão pelo cabelo castanho que teimava em cair-lhe nos olhos. Foi nesse momento que me viu.
— Posso ajudar? — perguntou, com um sorriso que iluminou todo o mercado.
Engoli em seco. Não estava ali para comprar tomates. Estava ali porque a minha terapeuta disse que eu precisava "sair mais". Que precisava de "interagir com pessoas reais". Ela não especificou que tipo de interação.
— Estou perdido — menti.
Não estava. Conhecia Lisboa como a palma da minha mão. Mas queria ouvi-lo falar outra vez.
Lucas largou a banca de legumes e aproximou-se. Usava uma camisa de linho azul-claro, a primeira boto aberta a mostrar o início do peito. O suor da manhã fazia a pele brilhar.
— Para onde precisa ir?
— Para qualquer sítio onde esteja mais fresco.
Ele riu. Um som baixo, como se guardasse a alegria para momentos especiais.
— Conheço um café. Mas tenho de terminar o turno primeiro. Espera?
Esperei. Esperei enquanto ele embalava os tomates para a velhinha, enquanto trocava dois euros com um senhor que queria alface, enquanto arrumava as caixas vazias. Esperei como se a minha vida dependesse disso.
O café chamava-se "O Refúgio". Ficava numa rua estreita, escondido entre uma loja de discos e uma papelaria antiga. Lucas pediu dois galões e um pastel de nata para partilhar.
— Não és de Lisboa — disse ele, a olhar-me por cima do copo.
— Como sabes?
— Tens cara de quem fugiu de alguma coisa.
Não era uma pergunta. Era uma constatação. Como se lesse em mim como lia nos tomates. O momento certo, a textura, o ponto exato.
— Fugi de um casamento — ouvi-me dizer.
Lucas não se assustou. Apenas inclinou a cabeça, à espera.
— Três anos. A Rita queria filhos, casa nos arredores, jantares de domingo com a família. Eu queria... — engoli em seco. — Eu queria sentir alguma coisa.
Os olhos de Lucas eram verdes. Mas não um verde qualquer. Eram o verde das oliveiras na primavera, das ondas do mar quando o sol se põe. E estavam a olhar para mim como se eu fosse a única pessoa no mundo.
— E sentes? — perguntou.
— Agora sim.
Não foi romântico. Foi verdade.
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Lucas
Não acredito em amor à primeira vista. Acredito em atração, em química, em momentos que parecem escritos por alguém com melhor sentido de humor do que eu. Mas acreditar que um estranho com olhos castanhos e uma barba mal feita podia mudar tudo? Isso era coisa de filmes.
O Gabriel apareceu no mercado como uma tempestade. Desalinhado, perdido, com um ar de quem carregava o mundo nas costas. Os meus colegas dizem que eu sou bom a ler as pessoas. O Gabriel era um livro aberto. Um livro com páginas rasgadas, mas ainda assim aberto.
— Porque é que olhas para mim assim? — perguntei, depois do café.
Estávamos a caminhar à beira-rio. A luz da tarde pintava tudo de ouro.
— Como assim?
— Como se eu fosse a resposta para uma pergunta que ainda não fizeste.
Ele parou. Olhou para o Tejo, depois para mim.
— Porque talvez sejas.
O beijo foi meu. Inclinei-me e toquei-lhe os lábios como quem toca numa ferida. Devagar. Com medo de o magoar. Mas ele respondeu. As mãos dele encontraram a minha cintura, puxaram-me para perto, e o mundo desapareceu.
Não houve público. Não houve música de fundo. Houve apenas nós dois, o cheiro a sal, e a certeza de que este momento precisava de durar para sempre.
— Vem comigo — sussurrei.
Ele seguiu-me. Seguiu-me pelas ruas de Alfama, pelas escadas íngremes, até ao meu apartamento. As paredes eram amarelas, as janelas pequenas, mas a luz entrava como se tivesse sido feita para aquela hora.
Fechámos a porta e o resto foi silêncio.
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Gabriel
O quarto de Lucas cheirava a alfazema e a papel velho. Havia livros empilhados no chão, uma guitarra encostada à parede, e uma cama desfeita que parecia convidar ao caos.
— Não sou bom a fazer isto — admiti, enquanto ele me desabotoava a camisa.
— Fazer o quê?
— Isto. Sentir. Deixar-me sentir.
Lucas parou. Olhou-me nos olhos e sorriu. Não era um sorriso de gozo. Era um sorriso de quem compreende.
— Então deixa-me ensinar-te.
As mãos dele eram quentes. Exploraram o meu peito como se lessem braille, como se cada cm de pele contasse uma história. Eu fechei os olhos. Apenas senti.
Ele beijou-me o pescoço, a clavícula, o meio do peito. Cada toque era uma pergunta. Cada movimento, uma promessa.
— Diz-me o que queres — murmurou.
— Tudo. Quero tudo.
E ele deu-me tudo. Devagar. Como quem saboreia cada instante. As mãos dele deslizaram pelas minhas costas, os dedos traçaram a minha coluna, e eu senti-me despir não só de roupa, mas de tudo o que me pesava.
Quando finalmente estivemos nus, ele pousou a testa na minha.
— Vês? — disse. — Não é preciso ter pressa.
— Como sabes o que fazer? — perguntei, a voz embargada.
— Porque te estou a ouvir. Sempre te ouvi.
Depois, ele desceu. Beijou-me o estômago, os quadris, as coxas. Cada beijo era um incêndio. E quando a boca dele me envolveu, eu perdi a capacidade de pensar. Apenas senti. O calor, a humidade, a forma como ele me levava ao limite e recuava, brincando comigo como um gato com um novelo.
— Lucas — ofeguei.
Ele ergueu os olhos. Verdes. Sempre verdes.
— Ainda não acabámos.
Subiu devagar, os corpos a roçarem-se. E quando ele se colocou sobre mim, a perguntar com o olhar se eu queria, a minha resposta foi um beijo.
Entrou em mim com uma lentidão que doía de tão boa. Senti cada centímetro, cada hesitação, cada ajuste dos corpos a aprenderem-se. As mãos dele entrelaçaram-se nas minhas, os dedos a apertarem enquanto o ritmo acelerava.
— Olha para mim — pediu.
E eu olhei. Através do suor, do cansaço, do prazer que ameaçava explodir. Olhei para ele como se fosse a única coisa real naquele mundo.
O clímax chegou como uma onda. Primeiro nele, depois em mim. Os corpos colapsaram, as respirações ofegantes, os nomes murmurados como preces.
Ficámos assim. Enlaçados. O suor a secar na pele.
— E agora? — perguntei.
Lucas beijou-me o ombro.
— Agora ficas.
Não era uma pergunta. Não precisava de ser.
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Três meses depois
— Não acredito que te vou obrigar a ver os tomates — disse Lucas, a abrir a porta do mercado.
— Não acredito que ainda trabalhas aqui.
— É o meu refúgio. E agora é o teu.
Olhei para ele. O cabelo continuava a cair-lhe nos olhos. O sorriso continuava a iluminar tudo. Mas agora havia mais. Havia nós.
— Sabes que te amo? — perguntei, como quem conta um segredo.
— Sei. Apercebi-me quando me pediste para te ensinar a escolher tomates.
Ri. Era verdade.
— E tu?
Lucas aproximou-se. Beijou-me com a calma de quem tem tempo. Com a certeza de quem já não foge.
— Amei-te desde o momento em que mentiste que estavas perdido.
A velhinha dos tomates passou por nós, a sorrir. O mundo continuava a girar. Mas, naquele instante, só existíamos nós. O sol e a lua. O antes e o depois. O medo que se tornou coragem.
Era só o início. Mas já parecia eternidade.
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