#Assédio #Estupro #Gay

A cidade dos machos

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Pedrorick12

Esse conto é fictício e é como eu queria que fosse o mundo

Era uma cidade esquecida por Deus e pela higiene, cravada entre morros e mato, e nela só viviam homens. Nenhuma mulher. Nunca. O ar daquele lugar tinha cheiro próprio: suor de macho, mijo nas paredes, cu mal lavado, maconha queimando o dia inteiro, cachaça derramada no chão de terra. E o cheiro mais forte de todos, o que grudava na roupa e na alma: cheiro de rola. Um bafo grosso, salgado, animal, que subia das virilhas quando o sol esquentava o calçamento.

E os homens daquela cidade transavam. Transavam em tudo quanto era canto. Na praça, na fila do pão, no meio da rua, em cima de caçamba de entulho, encostado no muro do cemitério. Não tinha cerimônia, não tinha frescura, não tinha "vamos pro quarto". Era ali mesmo, na hora que dava vontade.

Na esquina da rua da igreja morava um bando de mendigos. Barba por fazer, unha preta, pente e pelugem descendo até a virilha como capim. Um deles, o Zé Coxo, tinha a rola mais grossa da cidade — meio suja, com aquele sebo branco na cabeça, aquela nata de dias sem lavar que deixava o pau com gosto de sal e mijo. Bastava um trabalhador passar vindo da obra, todo suado, cueca encharcada, pra o Zé esticar a mão e agarrar. O outro nem parava de andar direito. Encostava no muro, abaixava a calça, e ali ficava, com a bunda empinada pro mendigo comer no meio do fedor de lixo e de mijo.

Os noiados da boca ficavam na calçada de baixo, olho vermelho, queixo mole, mascando a língua. Um deles tinha um vício diferente: gostava de chupar pau enquanto fumava. Ficava de joelhos com o beck apagando na mão e a boca cheia, subindo e descendo, babando, sem pressa nenhuma, os olhos perdidos no nada. O trabalhador de macacão e bota segurava a cabeça dele e empurrava até o fundo, até o noiado engasgar e gostar do engasgo.

Os maconheiros se ajuntavam no fim da tarde, na pracinha de terra, numa roda de fumaça. Aí começava o revezamento. Um acendia, o outro abaixava. Ninguém era de ninguém. Um fumava, o outro metia. Um tossia, o outro gemia. Tinha um gordinho de barba rala que era o preferido de todos — bunda grande, cabelo no meio do peito, cheiro forte de sovaco e de mato seco. Faziam fila nele. Um atrás do outro, sem parar, enquanto o baseado ia de mão em mão e o sol caía.

Os pedreiros, então, eram os piores. Voltavam da obra com o corpo branco de pó de cimento, o braço grosso, a camisa molhada de suor. Eles chegavam na venda, tomavam uma cachaça, e escolhiam. Escolhiam qualquer um. Escolhiam o velho sentado no banco. Escolhiam o menino que vendia bala. Escolhiam o cachaceiro que já estava caído no chão. E comiam ali mesmo, atrás da venda, com o pau ainda encardido de cal e a boca com gosto de pinga.

O velho da barbearia, que também era só homem, atendia de avental e nada mais. Avental aberto na frente. Quando chegava cliente, ele já se abaixava por trás da cadeira e ia chupando enquanto cortava. Tinha a boca treinada de quarenta anos de vício. Os peludos enchiam aquela barbearia — peito cabeludo, costas cabeludas, a virilha descendo em cachos negros e grossos. Cheiravam a talco, a água de colônia barata, a suor velho. E ali se fodiam em cima da cadeira giratória, que rangia e girava.

À noite, a cidade inteira parecia um único corpo. Na praça central, iluminada por dois postes amarelos, os homens se deitavam de qualquer jeito. Em cima do banco, em cima da grama, em cima um do outro. Os mendigos dormiam abraçados aos trabalhadores, o cheiro de mijo e o cheiro de cimento se misturando. Os noiados dormiam com a rola pra fora. Os maconheiros dormiam com a boca aberta e o beck apagado na mão.

E de madrugada, quando alguém acordava com vontade, não precisava procurar muito. Era só esticar o braço e agarrar o primeiro pau peludo que encontrasse ali perto. O outro acordava, resmungava, abria as pernas. E transavam de novo, no escuro, no sereno, no meio do cheiro de mato molhado, de mijo, de suor e de porra seca. Sem nome. Sem palavra. Só corpo de macho contra corpo de macho, peludo e pentelhudo, até o dia raiar de novo sobre aquela cidade de homem só.

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