#Gay #Trans

Enfim Mulher – Parte 2 de 3 – Capítulo: Entre o Desejo e o Espelho

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IIIIIIIIII

Essa é uma história de feminilização, envolvendo fetiches e tabus.

*Peço desculpas por ficar tanto tempo sem escrever. Tive muitos problemas pessoais, além de alguns problemas de saúde que não vem ao caso. Espero que gostem do capítulo intermediário, no próximo teremos uma grande mudança para Luiza.*

Fiz também uma imagem de I.A. para representar a aparência de Luiza. Assim que esse conto for publicado já envio a terceira parte.

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Na manhã seguinte, acordei sozinha no meu quarto, mas fiquei deitada por vários minutos, olhando para o teto e tentando entender por que o apartamento parecia diferente. Nada havia mudado de lugar. A luz entrava pela mesma fresta da cortina, o celular continuava carregando ao lado da cama e, do outro lado da parede, eu conseguia ouvir os ruídos habituais da manhã. Ainda assim, alguma coisa tinha mudado.

Na noite anterior, eu feito um boquete em Gabriel. Um que tinha despertado coisas em mim que pensei que nunca deixaria sair. Assim que ele gozou na minha boca e eu senti seu jatos grossos batendo contra o fundo da minha garganta, o gosto amargo, e a força da sua mão me segurando no lugar. Mas o pior disso tudo? Eu de alguma forma tinha gostado.

Lembro de ter levantado depois que ele me soltou. Ele logo jogou sua cabeça para trás fechando os olhos em direção ao teto enquanto se jogava contra as costas do sofá. Eu levantei com um pouco de esperma ainda escorrendo pelo canto da minha boca, sem nem mesmo perceber que havia engolido quase tudo. Estava consumado, eu era uma putinha.

Na noite anterior, eu havia cruzado uma fronteira que, até pouco tempo antes, parecia existir apenas nas minhas fantasias. Gabriel tinha me tocado e conduzido a uma intimidade que eu nunca experimentei. Havia lembranças que voltavam em fragmentos: o calor do corpo dele perto do meu, a respiração irregular, a sensação de estar sendo observada e o modo como minha própria vulnerabilidade me surpreendeu.

O que mais me confundia não era apenas o que havia acontecido. Era a descoberta de que eu desejava aquela proximidade, de que uma parte de mim ainda queria senti-la novamente, mesmo que existisse tantos conflitos dentro de mim.

Virei de lado e enterrei o rosto no travesseiro.

— Meu Deus, Luiza… — murmurei para mim mesma.

Chamar meu próprio nome, de forma feminina, me fazia parecer ridícula e insuficiente para explicar o turbilhão dentro da minha cabeça.

Eu não sabia se Gabriel também estava pensando na noite anterior. Não sabia se ele se arrependeria, se estava esperando que eu tomasse alguma iniciativa ou se, para ele, aquilo tinha sido apenas mais um passo numa relação que nenhum de nós conseguia definir. E, acima de tudo, não sabia como olhar para ele durante o café da manhã sem sentir que alguma coisa em mim ficaria exposta.
Meu celular vibrou.

Era uma mensagem do grupo da universidade, com lembretes sobre uma atividade e uma alteração no horário de uma aula remota. A normalidade daquela notificação quase me ofendeu. O mundo continuava funcionando, indiferente ao fato de que eu mal conseguia organizar meus pensamentos.
Levantei e sai do quarto de forma silenciosa, fui para o banheiro e tomei um banho quente para tentar clarear meus pensamentos, depois vesti uma camiseta larga com um short confortável. Prendi o cabelo curto atrás das orelhas, examinei meu rosto no espelho e tentei ensaiar uma expressão despreocupada.

Não adiantou muito.

Quando saí do quarto, encontrei Gabriel na cozinha. O cheiro de café recém preparado preenchia meu nariz.

Ele estava de costas para mim, preparando café, usando uma camiseta escura e uma bermuda de moletom. O cabelo estava desalinhado, e ele parecia ter acabado de acordar. Havia algo irritantemente familiar naquela cena: o mesmo homem que eu conhecia havia meses, que reclamava quando perdia no videogame, que deixava copos espalhados pela sala e que implicava comigo por causa das minhas manias.

Por alguns segundos, foi mais fácil fingir que nada tinha acontecido.

— Bom dia — falei.

Gabriel virou o rosto.

— Bom dia, Lu.

Foi só isso. Nenhum comentário, nenhum sorriso malicioso, nenhuma referência à noite anterior.
Ele apontou para a cafeteira.

— Fiz café.

— Obrigada.

Peguei uma caneca e me sentei à mesa. Gabriel voltou a cuidar do próprio café, e nós dois nos movimentamos pela cozinha como se tivéssemos ensaiado aquela coreografia durante anos. Eu abri a geladeira, ele pegou o pão, eu procurei a manteiga, ele reclamou que alguém tinha terminado o leite sem avisar.

Tudo normal. Normal demais.

Eu me concentrei no pão, evitando olhar diretamente para ele. A cada pequeno silêncio, porém, parecia que a noite anterior se instalava entre nós. Bastava Gabriel se aproximar para pegar alguma coisa no armário, ou passar atrás da minha cadeira, para que eu me lembrasse da proximidade que tínhamos compartilhado. Ele não precisava fazer nada para me deixar nervosa. E o problema era justamente esse.

— Você está quietinha hoje — comentou, enquanto se sentava à minha frente, quebrando o silêncio.

— Estou com sono.

— Sei.

Levantei os olhos.

Gabriel tomou um gole de café, escondendo parte do rosto atrás da caneca. O canto de sua boca se curvou num sorriso discreto.

— O quê? — perguntei.

— Nada.

— Gabriel.

— Só estou tentando entender como alguém consegue ficar tão séria antes das dez da manhã.

— Talvez porque algumas pessoas tenham aula e responsabilidades.

— Ah, claro. A estudante exemplar.

Ele apoiou os cotovelos na mesa e me observou por um instante. Não havia nada ostensivo naquele olhar, mas havia uma atenção que me deixou consciente demais de mim mesma. Da camiseta larga, das pernas descobertas sob a mesa, da maneira como eu segurava a caneca com as duas mãos.

— Dormiu bem? — perguntou.

Quase engasguei com o café.

— Dormi.

— Ótimo.

Ele voltou a comer, aparentemente satisfeito com a resposta.

Eu o odiei um pouquinho por isso.

Não porque tivesse feito alguma coisa errada naquele momento, mas porque parecia muito mais confortável do que eu. Gabriel tinha uma facilidade irritante para deixar uma frase suspensa, um olhar durar um segundo a mais ou fazer uma pergunta inocente parecer carregada de significados. Eu nunca sabia se ele estava apenas brincando ou se queria observar minha reação.

E ele sabia disso.

Depois do café, cada um voltou às próprias tarefas. Abri o computador na sala para assistir à aula, enquanto Gabriel se instalou à outra ponta do sofá com o notebook. Durante quase uma hora, ouvimos apenas as vozes dos professores, o som das teclas e os ruídos ocasionais da rua.

A distância entre nós era pequena. Mesmo assim, parecia enorme.

Em determinado momento, Gabriel se levantou para buscar água. Quando passou atrás de mim, apoiou a mão no encosto do sofá e inclinou-se o suficiente para olhar a tela do meu computador.

— Essa aula parece emocionante — comentou.

— É Farmacologia.

— Retiro o que disse. Deve ser chato pra caralho.

Empurrei o braço dele para longe, sem força.

— Vai estudar.

— Estou estudando.

— Você está me atrapalhando.

— Então está funcionando. Você finalmente está prestando atenção em mim.

Virei para responder, mas ele já estava sorrindo.

O sorriso era familiar, provocador e perigosamente eficaz. Por um instante, senti vontade de perguntar se ele estava fazendo aquilo de propósito. A pergunta chegou à ponta da língua, mas morreu antes de sair. Gabriel voltou para o próprio lugar. Não falamos sobre a noite anterior.

Ao meio-dia, preparamos o almoço juntos. Ele cortou os legumes de maneira irregular, e eu reclamei que aquilo não era cortar, mas cometer um crime culinário. Ele respondeu que, se eu continuasse criticando, ficaria responsável por lavar toda a louça.

— Você é péssimo em negociações — falei.

— E você é péssima em reconhecer meus talentos masculinos.

— Ainda estou procurando algum.

Ele encostou o quadril na bancada e cruzou os braços.

— Posso dar algumas sugestões.

— Prefiro continuar procurando sozinha.

Gabriel riu. Eu também acabei rindo, embora tentasse disfarçar.

Foi a primeira vez naquela manhã que consegui esquecer, por alguns minutos, o peso que carregava desde que acordara. Cozinhar, discutir sobre o tempero e dividir a tarefa de arrumar a mesa eram coisas que já fazíamos antes. Talvez fosse por isso que eu me agarrasse tanto à rotina: ela me oferecia um lugar seguro onde eu não precisava decidir o que significava ser desejada por alguém.

Depois do almoço, lavei a louça enquanto Gabriel continuava a implicar comigo. Em certo momento, ele estendeu a mão para pegar um copo e nossos dedos se tocaram. Foi um contato breve, insignificante para qualquer outra pessoa.

Mas eu retirei a mão depressa demais, como se fosse um choque.

Gabriel não comentou. Apenas recuou sem pegar o copo e deu uma risada.

— Relaxa, Lu. Eu não mordo.

Olhei para ele, incrédula.

— Você é insuportável.

— Já me disseram.

— Imagino que com frequência.

— Principalmente por garotas bonitas.

Ele disse aquilo com uma naturalidade tão descarada que fiquei sem resposta. Gabriel se afastou antes que eu encontrasse alguma coisa para retrucar. Passei o resto da tarde tentando me convencer de que não havia nada de extraordinário naquela troca. Era apenas o jeito dele. Gabriel provocava, eu reclamava, e os dois seguiam em frente.

Só que, agora, algumas palavras pareciam ter adquirido um significado novo. E eu não sabia como voltar a ouvi-las sem pensar nisso.

Naquele mesmo final de tarde, comecei a organizar os próximos passos para cuidar de mim. Além de ter que me preocupar com seja lá o que estivesse acontecendo entre eu e Gabriel, eu também precisa me preocupar com a minha transição e com o fato que eventualmente eu teria que revelar isso para meu pai e minha mãe.

Depois da internação, eu tinha entendido que não poderia continuar tomando decisões importantes sobre meu corpo no impulso, muito menos tentando resolver tudo sozinha. A ideia de procurar ajuda profissional ainda me assustava. Eu tinha medo de não conseguir explicar o que sentia, de ser julgada ou de descobrir que não sabia responder às perguntas que me fariam.

Mesmo assim, marquei uma consulta para conversar sobre identidade de gênero, saúde mental e as possibilidades de uma transição acompanhada. Na manhã seguinte, fiz uma vídeo chamada com a psiquiatra, passei todo o tempo da manhã conversando com ela, ouvindo e sendo ouvida, com dinâmicas diante do espelho e contando a ela sobre a minha infância.

Meu cabelo estava curto, meu rosto ainda parecia diferente depois de tudo o que acontecera e meu corpo continuava despertando sentimentos contraditórios. Havia dias em que eu conseguia me reconhecer na imagem refletida. Em outros, evitava olhar por mais de alguns segundos.

Para dentro de casa eu escolhia roupas masculinas e andrógenas, mas por baixo delas e trancado no meu quarto eu usava roupas femininas. Eu queria me sentir feminina, mas também queria passar despercebida. Era uma contradição que me acompanhava em quase tudo.

A consulta não resolveu todas as minhas dúvidas. Nem poderia. Mas, pela primeira vez, consegui falar sobre o que sentia sem precisar transformar cada frase numa confissão desesperada. Conversei sobre minhas expectativas, meus receios e o desejo de viver de maneira mais coerente com a pessoa que estava começando a reconhecer em mim.

Também falei sobre o uso de hormônios sem acompanhamento e sobre a crise que me levara ao hospital. Não foi uma conversa fácil, mas saí com orientações para dar os próximos passos de forma segura, sem tentar acelerar mudanças que exigiam tempo e avaliação.

Perto do meio-dia finalmente sai do quarto, encontrando Gabriel jogado no sofá.

— E aí? Como foi a consulta? — perguntou, sem tirar os olhos da televisão. Eu havia falado com ele no dia anterior que faria o atendimento online.

— Foi bom. Difícil, mas bom.

Ele pausou o jogo e olhou para mim.

— Quer conversar?

Pensei por um instante.

— Talvez depois.

— Beleza.

Ele retomou a partida, sem insistir. A ausência de pressão me fez sentir mais vontade de falar do que qualquer pergunta teria provocado.

Fui até a cozinha buscar água. Quando voltei, Gabriel tinha perdido a partida.

— Culpa sua — declarou.

— Eu nem estava aqui!

— Sua influência é poderosa.

Sentei na outra ponta do sofá.

— Você perdeu porque é ruim.

— Essa acusação vai custar caro.

— Estou tremendo de medo.

Gabriel virou o rosto para mim, com aquele sorriso lento que parecia sempre esconder alguma provocação.

— Deveria estar.

Senti o rosto esquentar, mas sustentei o olhar por um segundo antes de voltar para a televisão.
Ele não se aproximou. Eu não me afastei. Fiquei ali por alguns minutos vendo ele jogar. E depois fui fazer o almoço.

E, por aquela manhã, isso pareceu suficiente.

O restante da tarde passou devagar. Gabriel parecia ter decidido que sua missão pessoal era me distrair de qualquer pensamento sério, e eu começava a suspeitar que ele fazia isso de propósito.
Sempre que eu atravessava a sala, ele encontrava uma desculpa para falar comigo. Às vezes, era uma provocação sobre
a minha aula; em outras, um comentário sobre o meu cabelo curto ou uma pergunta completamente desnecessária sobre o que eu pretendia preparar para o jantar.

— Você está me seguindo? — perguntei quando o encontrei outra vez na cozinha.

Gabriel estava encostado à bancada, bebendo água.

— No meu próprio apartamento?

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Sei. Só gosto de ouvir você tentando me acusar de alguma coisa.

Revirei os olhos e fui pegar o escorredor de arroz no armário. Quando me virei, ele ainda estava me observando.

— O que foi agora?

— Nada, Lu.

— Você tem uma definição muito estranha de nada.

Ele sorriu, inclinando ligeiramente a cabeça.

— Talvez eu só esteja gostando de olhar para você.

A resposta me pegou desprevenida. Por um instante, esqueci o que tinha ido buscar. Gabriel percebeu e seu sorriso se alargou, satisfeito demais com o próprio efeito.

— Não começa — murmurei.

— Eu não fiz nada.

Passei por ele com o escorredor na mão, tentando ignorar o calor que subia pelo meu pescoço. Ao chegar à porta, ouvi sua risada baixa.

— Você fica bonita quando tenta fingir que não está nervosa.

— E você fica insuportável quando abre a boca.

— Então estamos os dois errados.

Dessa vez, não consegui evitar o sorriso.

À noite, depois do jantar, tomei um banho e voltei ao quarto para trocar de roupa. As provocações de Gabriel mexiam comigo de uma forma que eu não sabia explicar. Não eram explicitas, mas eu percebia que ele não estava agindo como era de costume. Conscientemente ou inconscientemente, eu também desejei retribuir essas provocações. Escolhi um conjuntinho de pijama de algodão macio, com uma blusinha de caimento solto e um shortinho do Mickey confortável. Não havia nada de especial naquelas peças, mas, quando me olhei no espelho, percebi que já não as escolhia apenas para me esconder.
Havia uma delicadeza na maneira como o tecido acompanhava meus movimentos, uma sensação discreta de familiaridade que eu não sabia explicar. Meu cabelo curto deixava o rosto mais exposto, destacando o contorno das bochechas e a linha do pescoço. Meu sutiã aparecia levemente por baixo da blusa. E o meu pintinho engaiolado na castidade ficava completamente escondido enquanto o shortinho entrava entre o meu bumbum. Inclinei a cabeça de um lado para o outro, observando meu reflexo.

A imagem ainda me parecia incompleta. Em alguns dias, eu procurava sinais de uma transformação que desejava ver depressa; em outros, tinha medo de estar inventando mudanças porque precisava acreditar que estava avançando.

Passei os dedos pela lateral do rosto e depois pelo pescoço. Minha pele parecia mais macia do que eu lembrava, embora eu soubesse que não podia atribuir essa impressão apenas aos hormônios. O sono, a hidratação, a iluminação e até meu próprio olhar podiam alterar a maneira como eu me enxergava. Meus seios pareciam mais doloridos e sensíveis, com pequenas pedrinhas neles.

Meu corpo, porém, continuava sendo um lugar cheio de perguntas.

Eu havia usado hormônios e bloqueadores de testosterona de maneira irregular, sem acompanhamento, e depois interrompido tudo após a internação. Não sabia exatamente o que ainda poderia estar produzindo efeitos, o que já havia mudado antes da crise ou o que era apenas uma expectativa ou ilusão minha. Não tinha como separar tudo diante do espelho.

Ainda assim, quando ajeitei a camiseta sobre o peito e observei a silhueta refletida, senti uma mistura de esperança e impaciência. Eu queria mudanças. Queria que meu corpo acompanhasse aquilo que começava a reconhecer dentro de mim. Ao mesmo tempo, já tinha aprendido, da pior maneira, que tentar forçar o próprio corpo a obedecer à pressa podia me machucar.

Soltei o ar e afastei os olhos do espelho. Me preparando para ir em direção a sala.

Quarto-aconchegante-com-vista-para-o-Rio

Comentários (1)

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  • Gatinha Sertaneja: Amei a imagem. Fica muito mais fácil de visualizar a história assim. Espero que você e Gabriel transem muito logo.

    Responder↴ • uid:mt95p9gzm