A nova realidade que mudou o mundo parte 122 - A cor do pecado
Eu me chamo Nádia. E eu era alguém antes de tudo isso.
Tinha vinte e três anos e estava no terceiro ano de medicina. Sonhava em ser cirurgiã pediátrica. Queria operar crianças, salvar vidas, ser a primeira da família a sair da favela e ter um diploma de verdade. Minha mãe lavava roupa para fora, minhas duas irmãs mais novas, Aline, de dezesseis, e Sofia, de catorze, estudavam de noite depois de ajudar em casa. Éramos pobres, mas tínhamos esperança. Eu era a orgulho da casa. “A doutora Nádia”, minha mãe dizia, sorrindo.
Até o dia em que a lei foi aprovada. Eu estava na universidade quando o reitor entrou na sala de aula e desligou o projetor. Ele estava pálido. “A partir de hoje, mulheres não têm mais direitos civis. A Constituição foi alterada. Vocês agora são propriedade legal dos homens da família ou do Estado.”
A sala explodiu em gritos. Eu não gritei. Fiquei paralisada. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Peguei o celular e liguei para minha mãe. Ela atendeu chorando. “Eles estão na porta, Nádia… homens armados… dizendo que vão levar as mulheres negras primeiro porque… porque somos ‘mais perigosas’.”
Eu corri para casa. Quando cheguei, já era tarde. Aline e Sofia estavam abraçadas no sofá, tremendo. Minha mãe estava de joelhos na sala, cercada por quatro homens uniformizados. Um deles segurava uma coleira de metal. Ele olhou para mim e sorriu: “Você é a estudante de medicina? Perfeito. Vamos precisar de quem saiba costurar depois que a gente acabar com vocês.”
Eles nos levaram naquele mesmo dia. Eu, minha mãe, Aline e Sofia. Fomos jogadas num caminhão aberto junto com mais de duzentas mulheres negras da favela. Todas nuas. Eles nos mandaram tirar a roupa ali mesmo, na rua, na frente de todo mundo. Eu tentei resistir. Levei um soco na cara que me fez cair. Quando me levantei, vi minha mãe chorando enquanto tirava a blusa. Aline e Sofia tremiam, tentando cobrir o corpo com as mãos.
Fomos levadas para um galpão sujo nos arredores da cidade. Mais de duzentas pretas amontoadas num espaço que mal cabia cem. O chão era de concreto rachado, o teto de zinco. Cheirava a mijo, suor e medo. Eles nos mandaram ficar nuas o tempo todo. “Vocês não merecem roupa”, disseram. Na primeira noite, veio o ritual de “marcação”.
Eles me escolheram logo. Me amarraram numa mesa de ferro, pernas bem abertas. Um homem segurou uma lâmina afiada. “Clitóris fora. Pretas gozam fácil demais.” Eu gritei antes mesmo de sentir a lâmina. Ele cortou devagar, serrando. A dor foi indescritível. Eu urrei, me contorci, mijei de dor. Depois ele pegou um ferro quente em brasa e cauterizou o corte. O chiado da carne queimando foi o som mais horrível que já ouvi na vida. Eu desmaiei.
Acordei com a marca de gado queimada na parte baixa da barriga, logo acima da buceta. Um “P” grande, de “Propriedade”.
Depois veio o trabalho. Fui acorrentada pelos pés a uma carroça de lixo. Dezesseis horas por dia puxando aquela coisa pela cidade, nua, sob o sol escaldante. As correntes cortavam meus tornozelos. O peso da carroça fazia meus ombros e costas doerem. Homens passavam e cuspiam em mim, ou paravam o carro e me fodiam ali mesmo, na rua, enquanto eu ainda estava acorrentada. Às vezes eles me faziam lamber o chão sujo depois de gozarem. Eu engolia porra, mijo, cuspe. Tudo.
Minha mãe e minhas irmãs foram separadas de mim. Nunca mais as vi. Soube depois que minha mãe foi mandada para uma fábrica de porra e morreu lá. Aline e Sofia… eu prefiro não imaginar.
Depois de meses coletando lixo, me transferiram para o galpão das escravas de fazenda. Lá eu carregava fardos de cana-de-açúcar o dia inteiro, nua, sob o sol que queimava a pele. Dormia quatro horas por noite, no chão, acorrentada. As costas sangravam de tanto carregar peso. Os pés rachavam. O corpo doía tanto que eu chorava enquanto dormia.
E os partos… Eu engravidei três vezes depois de ser estuprada. Tive três filhas, todas sem anestesia. A primeira foi no meio do corte de cana. Eles me deitaram no chão de terra, abriram minhas pernas e puxaram a criança enquanto eu gritava. Nem me deixaram ver o rosto. Cortaram o cordão e levaram o bebê. A segunda e a terceira foram iguais. Eu sentia as contrações enquanto carregava fardos. Paria no chão, suja de terra e sangue, e eles levavam meus filhos antes mesmo de eu poder tocá-los. Eu nunca segurei minhas filhas no colo. Nunca vi seus rostos. Só ouvia o choro distante enquanto me faziam voltar ao trabalho, ainda sangrando.
O sutiã de arame farpado foi o castigo que mais me marcou. Eles me obrigaram a usar por um mês inteiro. O arame cortava os seios, furava a pele, deixava feridas que infeccionavam. Toda vez que eu respirava, o arame cravava mais fundo. O sangue escorria pelos meus seios o dia inteiro. À noite, o pus grudava no arame. Eu chorava de dor, mas eles riam e diziam que “preta aguenta”.
E o nojo… o nojo maior foi quando me forçaram a limpar banheiros com a boca. Eu ficava de quatro, com um funil preso na boca, enquanto os homens mijavam e cagavam dentro. Eu engolia tudo. Fezes moles, quentes, líquidas. Mijo forte. Às vezes vomitava e eles me faziam lamber o vômito misturado com merda. Eu sentia o gosto de esgoto na boca por dias.
Depois de anos assim, me doaram para o hotel. Disseram que eu era “experiente demais para a fazenda”. Aqui me colocaram para ensinar as pretas novas a limpar, a obedecer, a aguentar. E, pior de tudo, me obrigam a surrar as jovens quando elas erram. Eu bato nelas com o chicote, com a palmatória, com as mãos. Contra a minha vontade. Só para fazer os homens brancos rirem. Eu vejo o medo nos olhos delas e me lembro de quando eu era a novata. E choro por dentro enquanto bato.
Eu, que um dia quis salvar vidas, agora ensino outras mulheres a se destruírem. Eu, que um dia sonhei em ser médica, agora sou apenas Nádia. A negra velha do galpão, que carrega o peso de ter perdido tudo. E toda noite, quando fecho os olhos, eu ainda vejo o rosto da minha mãe chorando enquanto me levavam. Ainda ouço o grito das minhas irmãs, ainda sinto a lâmina cortando meu clitóris e ainda sinto o ferro quente marcando minha carne.
E eu me pergunto, em silêncio: Será que um dia alguém vai pagar por tudo isso?
Ou esse mundo vai continuar girando, usando, quebrando, vendendo…
para sempre? Eu não sei.
Eu sei que não deveria estar viva, as pretas não duram muito.
A maioria morre antes dos trinta e cinco. Algumas chegam aos quarenta, mas são raras, e quando chegam, já não são mais gente. São cascas. Corpos quebrados que ainda respiram porque o sistema ainda acha que podem render mais um pouco de suor ou mais uma parição. Eu tenho cinquenta e quatro. Sou azarada.
Azarada por ter sobrevivido a tudo, à lâmina que cortou meu clitóris, ao ferro quente que marcou minha carne, aos partos sem anestesia, ao sutiã de arame farpado que furou meus seios por um mês inteiro, aos anos puxando carroça de lixo acorrentada pelos pés, aos dias carregando fardos de cana sob o sol que queimava a pele negra até rachar. Azarada por ainda acordar todos os dias e sentir o corpo doer, a alma doer, a memória doer. Porque ser negra, nesse mundo, significa ser o fundo do poço.
Nós somos consideradas inferiores até pelas outras escravas. As brancas nos olham com pena ou desprezo. As orientais nos evitam. Até entre nós mesmas existe uma hierarquia cruel, as mais claras tentam se afastar das mais escuras, como se a cor pudesse salvar alguém. Mas não salva. Para os homens, todas as pretas são a mesma coisa, buracos resistentes, feitas para aguentar o que as outras não aguentam.
Desde meninas, as negrinhas são treinadas para o pior. Eu vi isso acontecer muitas vezes. Meninas de catorze, quinze anos chegam ao galpão ainda com olhar de criança. Em poucas semanas já estão de quatro, aprendendo a lamber banheiros com a boca, a engolir mijo sem vomitar, a abrir as pernas sem chorar. Elas são colocadas nos trabalhos mais nojentos desde cedo, limpar fossas com as mãos, carregar baldes de gosma, esfregar o chão com o próprio cabelo. Os castigos também são piores para nós. Chicote conosco, ferro quente, formigueiros, arame farpado nos seios, mãos inteiras enfiadas à força. Os homens dizem que “preta aguenta mais”. Que nossa pele é mais grossa. Que nosso corpo foi feito para sofrer.
Eles mentem. Nossa pele não é mais grossa. Nossa dor não é menor. Só que ninguém se importa quando é uma preta que grita.
Eu vi meninas de quatorze anos serem colocadas no “treinamento de urinol”: amarradas de boca aberta debaixo de uma tábua com buraco, servindo de privada para os peões o dia inteiro. Vi outras serem obrigadas a ficar dentro de tanques de urina velha por dias, até a pele começar a se soltar. Vi meninas serem marcadas com ferro quente na buceta ainda virgem, só para “lembrar o lugar delas”.
E eu sobrevivi a tudo isso. Por isso eu sou azarada.
Porque enquanto a maioria das minhas irmãs de cor já descansam na fábrica de ração ou no terreno atrás do hotel, eu continuo aqui. Respirando. Sentindo. Lembrando. Carregando dentro de mim o peso de todas elas.
Eu carrego minha mãe, que morreu na fábrica de porra, Carrego minhas irmãs, que nunca mais vi. Carrego as meninas que vi serem quebradas antes mesmo de terem seios. Carrego as que foram comidas por ratos dentro da cisterna de esgoto. Carrego as que tiveram o clitóris cortado e cauterizado enquanto ainda eram virgens.
Eu carrego tudo.
E o pior é que, mesmo sabendo que sou azarada por ainda estar viva, uma parte pequena e teimosa de mim ainda não quer morrer. Ainda quer ver o sol nascer mais uma vez. Ainda quer abraçar outra negra velha e dizer “eu sei o que você passou”.
Porque, no fundo, ser preta nesse mundo significa isso, ser a última escolha, o pior trabalho, o castigo mais pesado, o buraco que aguenta mais. E mesmo assim… ainda respirar.
Eu olho para as negrinhas novas que chegam ao galpão, olhos grandes, corpo ainda sem marcas, e sinto um aperto no peito. Eu sei o que vem. Sei que em poucas semanas elas vão estar de quatro, lambendo o chão, engolindo porra e merda, aprendendo que seu corpo não vale nada. E eu, a velha azarada, vou ter que ensinar algumas delas a aguentar.
Porque esse é o meu lugar agora. A negra que sobreviveu demais. A que carrega o peso de todas as que não sobreviveram. E que, mesmo sabendo que é azarada, ainda não conseguiu morrer. Talvez um dia eu consiga.
Eu vejo as negrinhas novas chegarem e meu peito aperta tanto que parece que vai se partir. Elas vêm de caminhão, ainda com o cheiro do galpão orfanato delas, olhos grandes, corpo ainda sem marcas. Algumas têm catorze anos, outras já completaram quinze. Todas nuas, tremendo, tentando cobrir o corpo com as mãos pequenas. Quando o caminhão para e elas são jogadas no pátio do galpão, eu já sei o que vai acontecer. Eu já vi isso dezenas de vezes. E toda vez dói como se fosse a primeira.
O treinamento começa no mesmo dia. Não há acolhida, não há explicação. Só ordens.
Primeiro, elas são alinhadas de quatro no chão de concreto rachado. Um peão passa com uma mangueira de pressão e joga água gelada nelas, esfregando com uma vassoura de cerdas duras entre as pernas, nas costas, nos peitos que mal começaram a crescer. Elas gritam, se contorcem, mas não podem se levantar. Depois vêm as marcas.
Elas são marcadas como gado logo na primeira semana. Um ferro quente com a letra “P” (de Propriedade) é pressionado na pele logo acima da buceta, ou na parte baixa da barriga. O cheiro de carne queimada enche o galpão. As meninas urinam de dor, soluçam, imploram. Algumas desmaiam. Eu já segurei muitas delas enquanto o ferro queimava. Sinto o corpo pequeno convulsionando contra o meu, ouço o grito que fica rouco até virar um gemido quebrado.
Depois vem o “treinamento de boca”. Elas são colocadas de joelhos, com um funil de metal preso na boca por correias. Os peões fazem fila. Mijam direto no funil. As meninas engolem ou sufocam. As que vomitam são obrigadas a lamber o próprio vômito misturado com mijo do chão. “Aprendam a engolir sem reclamar”, eles dizem. “Boca de preta serve pra isso.”
Em menos de uma semana elas já sabem abrir a boca antes mesmo de o homem mandar. Depois vem o treinamento de buceta e cu.
Elas são amarradas de pernas abertas em mesas baixas. Os peões e hóspedes pagam extra para “iniciar as novatas”. Paus grossos, secos, entram sem piedade. Muitas sangram na primeira vez. Elas gritam, choram, imploram. Mas quanto mais choram, mais os homens riem e metem mais fundo. Eu vejo meninas de quatorze anos com a bucetinha virgem sendo rasgada por paus de homens adultos. Vejo o sangue escorrendo pelas coxas magras. Vejo o olhar delas mudar depois da quinta ou sexta foda, de terror puro para um vazio assustador.
E há o treinamento de dor. Elas aprendem desde cedo que preto aguenta mais. Por isso os castigos são piores. Chicote de couro cru nas costas até a pele abrir. Formigueiros colocados direto na buceta ainda sensível. Arame farpado enrolado nos peitos pequenos. Elas são obrigadas a trabalhar com o arame cortando a carne, o sangue escorrendo enquanto carregam peso ou limpam o chão.
Eu já vi meninas de quinze anos serem colocadas no “treinamento de urinol fixo”. Amarradas de boca aberta debaixo de uma tábua com buraco. Passam o dia inteiro servindo de privada para os peões. Engolem mijo, engolem merda, engolem vômito. As que não conseguem são surradas até aprenderem.
E o pior de tudo é o treinamento de prazer forçado. Elas recebem remédios que deixam a buceta sensível demais. Vibradores são enfiados nelas e ligados por horas. Elas são obrigadas a gozar várias vezes seguidas, mesmo chorando, mesmo implorando para parar. O corpo trai. Elas gozam soluçando, o prazer misturado com dor e vergonha. Depois são obrigadas a agradecer. “Obrigada por me fazer gozar, senhor.”
Eu vejo tudo isso.
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