A nova realidade que mudou o mundo parte 94 - Andanças
Com medo e frio, envergonhada de estar nua, e triste por ver minha queria filha descalça, pelada e assustada, tendo que caminhar a noite toda, sem descanso, sem água e sem nenhum respeito, passamos por estradas de asfalto áspero, cascalho, e barro, sempre cabisbaixas, sempre com frio e medo, de forma que nossos corpos estavam com febre, pelo esforço e adrenalina.
A noite era um manto úmido e sem estrelas. A chuva fina, daquelas que não caem, mas tecem uma teia gelada sobre a pele, começara assim que nossos pés nus tocaram a lama do caminho. Minha querida Julie sentiu o primeiro choque frio subir pelas pernas trêmulas, um calafrio que não era só do tempo, mas do peso do metal frio contra os pulsos e o pescoço. As algemas mordiam a carne a cada passo desajeitado; a coleira, justa demais, lembrava a respiração contida de quem já não ousa inspirar fundo.
Julie caminhava à minha frente, puxada pela mesma corrente que nos unia como elos de uma dor compartilhada. eu não podia mais chamá-la de minha menina, não depois do que já havia visto, eu tremia inteira, os ombros nus encolhidos numa tentativa vã de se proteger do mundo. A chuva escorria por sua espinha, formando pequenos rios que se perdiam na curva das costelas tão visíveis. Eu queria alcançá-la, cobri-la com seu corpo, mas as correntes eram curtas demais para o abraço, e os passos tinham que ser ritmados, um após o outro, para não cair na escuridão lamacenta.
A lama sugava seus pés. A cada passada, o som úmido e obsceno do atrito, como se a própria terra quisesse engoli-las. Eu já não sentia os dedos dos pés, apenas a memória dolorosa de ter pisado em algo cortante alguns metros atrás. Não sabia se era vidro, osso ou apenas uma pedra cruel. Não importava, nada importava além de continuar andando, porque parar significava ouvir com mais clareza. Duras palavras vinham de trás, de lado, de todos os cantos da noite. Não tinham rostos, apenas vozes na escuridão algumas ásperas como cascalho, outras azedas como bile. Perguntavam sobre os nossos corpos como quem examina gado. "Essa pele macia já foi tocada por alguém? Essa magrela vai durar quanto tempo?" As perguntas não buscavam respostas, apenas o eco do próprio poder. Percebemos, nas poucas horas desde que chegaram, que a humilhação tinha um ritmo próprio. Não era um grito, era uma melodia arrastada, repetida, que se infiltrava nos poros como a chuva.
Julie tropeçou e eu vi a silhueta da filha desabar de joelhos na lama, o som pequeno de sua respiração arfante, mas não ouvi um choro, nunca o choro, porque Julie já sabia que o choro era um luxo que se pagava caro. A corrente puxou o meu pescoço, mesmo na escuridão, sabia que estava complicado, obrigando-me a dar um passo à frente, quase caindo sobre minha filha. Por um segundo, minhas mãos algemadas tocaram os cabelos molhados da minha filha, mas a corrente esticou de novo, e Julie teve que se levantar sozinha.
Eu me lembrava de outra noite, muito tempo atrás, quando Julie era pequena de verdade e tinha medo de trovões. Eu a embalava no colo e cantava uma canção sem nome, apenas uma melodia inventada na hora, até que a menina adormecia com o rosto enterrado em seu pescoço. Agora, não havia colo, não havia canção. Havia apenas o som da chuva batendo nas folhas de alguma árvore desconhecida e os ecos das ofensas que se grudavam na pele molhada como sanguessugas.
O frio não era mais uma sensação. Tornara-se uma coisa viva, um animal que nos roía os ossos de dentro para fora. Eu já não distinguia o tremor do medo do tremor do gelo. As duas coisas se fundiam num mesmo espasmo contínuo que sacudia meus quadris, meus seios expostos, as coxas cobertas de lama e arranhões, e machucadas pelo atrito nu da pele. Olhei para o meu próprio corpo por um instante, pálido, salpicado de água, irreconhecível, e senti vergonha. Não do que via, mas do que aquelas vozes diziam ver. A vergonha era um segundo par de algemas, mais apertadas que as de ferro.
Julie caminhava agora com os braços cruzados sobre o peito, um gesto tão pequeno, tão frágil, que senti meus os olhos arderem. Mas as lágrimas não vieram. Talvez já tivessem secado dentro de mim nas primeiras horas, ou talvez o corpo estivesse economizando até a última gota de água para sobreviver àquela noite sem fim. A escuridão era absoluta, não havia lua, não havia estrelas, apenas o preto denso que engolia os contornos das coisas. Já não sabia se estavam andando em círculos, se a estrada levava a algum lugar, se havia um lugar para chegar. Os meus pés continuavam se movendo por instinto, como animais cegos que seguem o rastro do próprio desespero. Às vezes, uma das vozes ria com um riso seco, cortante como navalha, e eu sentia a pele se arrepiar, não de frio, mas de um nojo antigo, ancestral, que nem o tempo nem a distância haviam conseguido apagar.
Eu pensei em minha mãe, em uma história que me contara sobre fugas e noites escuras, sobre mulheres que caminhavam com correntes nos pés. Nunca imaginara que seria uma delas. Nunca imaginara que Julie estaria ao seu lado, tão perto e tão inalcançável, separadas por alguns elos de ferro e um abismo que já não tinha nome.
A chuva começou a engrossar. As gotas caíam mais pesadas, batendo em suas cabeças, em suas costas, fazendo um barulho surdo no metal das correntes. Ergui o rosto para o céu, se é que aquilo era céu, e senti a água escorrer por minhas bochechas, pelos cantos da boca, confundindo-se com o gosto de sal que eu teimava em não reconhecer. Não, não eram lágrimas, não podiam ser.
À frente, Julie desviou de uma poça maior. Seu pé escorregou na borda lamacenta, mas ela se equilibrou e continuou. Eu vi a pequena coluna reta, a nuca molhada, a coleira brilhando sob o pouco reflexo de algum lugar, talvez uma janela distante, talvez um relâmpago qualquer. E, naquele movimento mínimo, naquela recusa em cair de novo, senti algo se contrair dentro do peito. Não era esperança, era algo mais bruto, mais simples, eu tive a certeza de que enquanto Julie estivesse de pé, ela também estaria.
E continuamos, passo após passo, na lama, no frio, no silêncio interrompido apenas pelos insultos que a noite cuspia sobre a gente como mais uma forma de chuva. Até que o tempo deixasse de fazer sentido. Até que o corpo deixasse de doer. Até que a escuridão, finalmente, começasse a nos entorpecer.
Foi quando vimos ao longe algumas luzes opacas e amareladas, que foram chegando cada vez mais perto. Aos poucos começamos a ouvir o barulho da cidade, já estava quase amanhecendo, e bem longe no horizonte, já estava aparecendo umas luzes alaranjadas, bem sutis, mostrando que o Sol chegaria, mesmo com a chuva. E numa mistura espanto e ódio, percebi que meu marido, enquanto eu a nossa filha, caminhamos descalças, pisando em pedras e lama, nuas e envergonhadas, sendo chamadas de vadias, e com homens rindo de nossos corpos, e falando ofensas sobre minha cor e minhas curvas. Ele estava em uma charrete coberta, livre da chuva, arrastado por várias mulheres que puxam essa charrete como cavalos puxam carroças, elas têm um corpo magro e torneado, e todas tem marcas de cicatrizes. Seus olhos são vazios, e o corpo está tão sujo que parece ter uma casca contra a chuva.
A luz que vimos ao longe, chegamos ao começo de uma rua de pedras lisas, e as luzes, para meu espanto, são moças penduradas de cabeça para baixo, com uma vela imensa na buceta, que por algum motivo, mesmo com tanta chuva fria, não se apagou, e escorre pela bunda delas, criando um cenário surreal. Olho para Julie, e vejo o medo refletindo em seus olhos, e não me contenho mais, me derreto em lágrimas. E nosso choro foi tão humilhante, porque ele foi motivo de risos e piadas de mal gosto sobre nossa condição.
Andamos mais um pouco, até que chegamos a uma praça enorme, e fomos colocadas de joelhos no chão, e acorrentadas em um bloco de concreto para não escaparmos. E meu marido pela primeira vez falou comigo, e disse que eu vou adorar a cerimônia de Páscoa que eu vou assistir.
Meu corpo arrepia, pois eu sei que será algo terrível.
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