Convento de putas no interior do Paraná - A balada em Maringá
Pela primeira vez em muitos meses, o sino não tocou para o trabalho braçal nem para o treinamento matinal. Em vez disso, Irmã Laura apareceu no alojamento coletivo com uma expressão quase serena e anunciou:
— Hoje é dia de saída supervisionada. Cecília e Maria Eduarda, preparem-se.
As duas se entreolharam, incrédulas. Saída, vamos para a cidade? Com roupas?
No banheiro coletivo, sob supervisão discreta, elas puderam se lavar com mais calma. Depois, pela primeira vez desde a chegada, receberam roupas de verdade.
Não eram uniformes. Eram vestidos leves de verão, tecidos fluidos, claros, de algodão fino e sedinha mista. O de Cecília era em tom creme com pequenas flores discretas, decote moderado, mangas curtas e saia que caía solta até um pouco abaixo do joelho. O de Maria Eduarda era azul-claro, quase celeste, com o mesmo corte amplo e elegante. Por baixo, calcinhas e sutiãs simples, de algodão macio, nada de lingerie provocante ou acessórios de treinamento. Nos pés, sapatilhas baixas e confortáveis, sem salto.
Quando o tecido tocou a pele, as duas quase soltaram um suspiro audível. Depois de meses de nudez obrigatória, de cascalho nos pés, de plugs e grampos, a sensação de estar coberta era quase embriagante. O tecido deslizava suave sobre os seios, sobre a barriga, sobre as coxas. Não apertava. Não marcava. Não lembrava, a cada movimento, que o corpo pertencia a outra pessoa.
As mãos livres, boca livre, sem mordaça, sem orelhas de cavalo, sem sinos nos bicos. Apenas duas jovens, vestidas como qualquer moça de boa família. O carro preto as esperava na portaria. Irmã Beatriz ia junto, elegantemente vestida, como uma tia discreta. O portão de ferro se abriu com o mesmo ranger pesado de sempre, mas desta vez para deixá-las sair.
A estrada de terra deu lugar ao asfalto. Campos de soja e café foram ficando para trás. E então, a cidade.
Maringá se abria diante delas com suas avenidas largas, árvores, prédios baixos e o movimento constante de gente. Cecília encostou o rosto quase no vidro, olhos grandes absorvendo tudo. Pessoas andando nas calçadas, mulheres de vestido. Homens de camisa, crianças, um cachorro sendo passeado. O som de carros, de conversas distantes, de uma música tocando em alguma loja.
Quando desceram do carro no centro, o chão firme e plano sob os pés foi uma revelação. Nada de cascalho irregular. Nada de salto fino esmagando os dedos. As sapatilhas macias permitiam caminhar de verdade, com o peso bem distribuído, sem dor.
Maria Eduarda apertou de leve a mão de Cecília. As duas sorriam, um sorriso pequeno, quase tímido, mas real. O vento brincava com as saias largas. O tecido leve se movia a cada passo, tocando a pele sem exigir nada. Pela primeira vez em muito tempo, o corpo não estava em exposição constante. Ninguém olhava para seus seios ou para a virilha marcada pelo trevo. Eram apenas duas moças bem-vestidas andando pela rua.
Entraram numa confeitaria. O cheiro de café fresco, de bolo de chocolate e de pão quente as envolveu. Sentaram-se em cadeiras de verdade, com as costas apoiadas, as pernas cruzadas sob a mesa como qualquer outra cliente. Irmã Beatriz pediu café com leite e fatias de bolo. Quando o garçom se afastou, Cecília levou a xícara aos lábios e sentiu o calor do líquido sem pressa, sem ordem de engolir rápido ou de comer de joelhos.
Maria Eduarda olhava pela vitrine para a rua. Pessoas passavam. Uma moça da idade delas ria ao telefone. Um casal de mãos dadas. O mundo continuava existindo do lado de fora dos muros, indiferente ao que acontecia dentro do convento.
— Está… estranho, sussurrou Cecília, quase sem voz. Bom. Mas estranho.
Maria Eduarda assentiu, os olhos brilhando.
— Eu tinha esquecido como é… só andar. Só existir sem estar sendo olhada o tempo todo.
Elas caminharam pela praça principal. O sol batia suave nos vestidos claros. O tecido largo balançava com o movimento das pernas, sem revelar nada, sem exigir postura de apresentação. As mãos livres podiam se tocar, se apertar, se esconder nos bolsos inventados pela própria saia. O rosto descoberto podia sorrir sem medo de reprimenda imediata.
Por algumas horas, foram apenas Cecília e Maria Eduarda, duas jovens de roupas leves e discretas, andando pelas ruas de uma cidade qualquer, sentindo o gosto da normalidade como quem bebe água depois de dias de sede.
Irmã Beatriz caminhava alguns passos atrás, silenciosa, vigilante. O dia ainda pertencia ao convento. Mas, naquele momento, sob o tecido macio e o céu aberto, as duas sentiam algo que quase haviam esquecido. Alegria simples, de estar vestida, poder andar, ver gente. De existir, por algumas horas, como se o mundo lá fora ainda pudesse ser delas.
O final da tarde já caía quando Irmã Beatriz as levou para um canto mais discreto da praça, longe do movimento. O sorriso sereno de antes havia desaparecido. No lugar, estava a expressão fria e calculista que as duas conheciam bem demais.
— Vocês se divertiram, disse ela, voz baixa e clara. Agora vem a parte que importa.
Ela abriu a bolsa e retirou duas pequenas sacolas de tecido escuro. Dentro de cada uma havia exatamente dez camisinhas ainda na embalagem, lubrificadas, de tamanho padrão.
— Cada uma de vocês vai voltar para o convento com dez camisinhas cheias de sêmen. Cheias. Sem mentiras, sem água, sem truques. Dez de verdade.
Cecília sentiu o sangue gelar. Maria Eduarda abriu a boca, mas nenhum som saiu.
— Vocês continuam virgens da boceta, continuou a irmã, sem alterar o tom. Isso não se negocia. O hímen continua intacto. Mas a criatividade é permitida. Mãos, boca, coxas. O que for necessário. Vocês aprenderam a provocar, a olhar, a rebolar, a usar a voz. Agora vão usar tudo isso.
Ela entregou uma sacola para cada uma.
— Se voltarem com menos de dez, ou com camisinhas vazias, a semana de correção no porão será longa. E dolorosa. Vocês sabem o que isso significa.
As duas assentiram, pálidas. O vestido leve, que horas antes parecia uma bênção, agora parecia ridiculamente inadequado para o que teriam de fazer.
À noite, o carro as deixou em frente a uma balada movimentada da cidade. Luzes coloridas, batida forte da música vazando para a calçada, fila de jovens bem-vestidos. Irmã Beatriz parou o veículo a meia quadra de distância.
— Vocês têm até as duas da manhã. Eu estarei esperando exatamente aqui. Não se atrasem.
As portas se fecharam e o carro se afastou.
Cecília e Maria Eduarda ficaram paradas na calçada, o coração batendo forte demais. O vento mexia nas saias leves. O cheiro de perfume, álcool e cigarro vinha da entrada da balada.
— A gente… precisa fazer isso, sussurrou Maria Eduarda, a voz trêmula.
— Eu sei, respondeu Cecília, apertando a sacolinha contra o corpo. A gente sabe como. Eles nos treinaram para isso.
Elas entraram.
A música era alta, o ar quente e carregado de corpos. Luzes piscavam sobre a pista. Rapazes e moças dançavam, bebiam, riam. Pela primeira vez em meses, Cecília e Maria Eduarda não estavam nuas, não estavam de joelhos, não estavam sendo inspecionadas. Estavam vestidas como qualquer outra jovem da cidade. E isso, ironicamente, as tornava mais perigosas.
Elas começaram devagar. Primeiro o olhar. Aquele olhar de puta que haviam ensaiado tantas noites no convento, olhos semicerrados, lábios entreabertos, um sorriso pequeno e convidativo. Depois o corpo. O vestido leve balançava com o movimento dos quadris. Elas haviam aprendido a rebolar com precisão. Agora usavam essa habilidade de forma discreta, quase inocente, mas eficaz.
Cecília se aproximou de um grupo de três rapazes perto do bar. Sorriu. Aceitou o drink que ofereceram. Em poucos minutos estava dançando colada a um deles, o quadril se movendo no ritmo certo, a mão dele já descendo para sua cintura. Quando a música ficou mais lenta, ela se afastou só o suficiente para falar no ouvido dele:
— Tem um lugar mais quieto por aqui?
Minutos depois estavam no banheiro dos fundos, a porta trancada. Cecília ajoelhou-se sem precisar de ordem. Abriu a calça dele com dedos firmes, tirou o pau já duro e colocou a camisinha. A mão se moveu com a técnica que haviam ensinado, firme, ritmada, polegar pressionando a cabeça nos momentos certos. Ela olhava para cima, exatamente como as instrutoras mandavam. Quando ele gozou, o sêmen encheu o reservatório da camisinha. Cecília tirou com cuidado, deu um nó apertado e guardou na sacolinha.
Maria Eduarda, do outro lado da pista, já estava em um canto mais escuro com um rapaz mais alto. Usou a boca. Ajoelhou-se entre as pernas dele, chupou com a dedicação desajeitada e ao mesmo tempo eficiente que o convento havia forçado nela. Quando ele gozou, ela segurou a camisinha com a mão, esperou o último jato, fechou o nó e se levantou, limpando o canto da boca com o dorso da mão.
O padrão se repetiu. Uma após a outra. Alguns no banheiro. Outros no estacionamento atrás da balada. Outros ainda em um carro emprestado de algum amigo. Sempre a mesma regra, camisinha, mão ou boca, nunca a boceta. Elas provocavam, sorriam, rebolavam, usavam a voz baixa e os olhos treinados. Os rapazes, embriagados e excitados, mal questionavam a pressa ou a estranha exigência da camisinha.
A sacolinha de Cecília foi ficando mais pesada. A de Maria Eduarda também.
Às vezes o nojo subia na garganta. Às vezes o corpo respondia com uma excitação confusa e indesejada, o reflexo condicionado de meses de treinamento. Às vezes elas se entreolhavam de longe, no meio da pista, e trocavam um olhar rápido de solidariedade assustada.
Quando o relógio marcou uma e meia da manhã, as duas se encontraram perto da saída. Cecília abriu a sacola. Contou só nove. Maria Eduarda tinha oito.
— A gente precisa de mais, sussurrou Cecília.
Mais trinta minutos. Mais dois rapazes. Mais três camisinhas cheias.
Às duas em ponto, o carro preto estava exatamente no mesmo lugar. Irmã Beatriz abriu a porta de trás sem dizer nada. As duas entraram, as sacolas apertadas contra o colo, o cheiro de sexo e álcool impregnado nos vestidos leves.
A irmã estendeu a mão. Contou, uma a uma, as camisinhas cheias e amarradas.
Vinte no total.
— Bom trabalho, disse apenas. Vocês cumpriram.
O carro arrancou em direção aos portões de ferro do convento. O dia festivo havia terminado. E as duas sabiam que, do lado de dentro dos muros, o preço daquela liberdade ainda estava longe de ser totalmente pago.
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