Quando pensa que está no fundo poço, consegue cair mais um pouco!
Recebi uma herança deixada por meus avós paternos.
Quando o testamento foi lido, fiquei surpreso, eu amava aquele lugar e passei boa parte da minha infância lá.
Fiquei tão empolgado, que logo de cara quis morar lá, por ser maior e ter a tranquilidade do campo.
Como eu não tinha, ido lá a alguns anos, pensei que estaria em boas condições, me arrependo dessa decisão estupida.
Deixei meu cantinho, minha casa que eu já possuía a algum tempo, casa herdada de minha mãe, situada na capital.
Então, na empolgação, após receber a herança, eu na minha estupidez, aluguei a casa em que morava e fui morar, na casa herdada de avós, sem saber da real situação da propriedade.
Logo de cara descobri que estava em sérios apuros, a casa estava completamente deteriorada, os encanamentos velhos, com canos enferrujados, a instalação com fios velhos e cheios de problemas, os telhados com vários vazamentos.
E para foder de vez, tinha várias rachaduras, muito grandes nos alicerces, que não pude ver, pois estavam escondidas nos porões da propriedade.
Nos próximos meses, minha vida foi um tormento sem fim, eu arrumava um problema e logo em seguida aparecia outro, minha saúde mental estava acabando e junto minhas economias.
Eu chorava quase todos os dias, com minha falta de sorte, gastei muito tempo e dinheiro, de nada adiantou, pois, o real problema estava oculto, bem debaixo de meus pés e eu não sabia.
Foi em um dia chuvoso que fodeu de vez, a tempestade estava tão intensa, que começou a cair raios por todos os lados, inclusive pelo meu imenso quintal de mais de cinco mil metros quadrados e um desses raios atingiu uma árvore muito grande, com mais de cem anos de idade, que estava colada à minha propriedade.
Parte da árvore desabou sobre minha casa, fazendo um estrago maior do que eu não sabia, pois até aquele momento não sabia da existência das rachaduras dos alicerces.
E então, o verdadeiro pesadelo aconteceu, com a consequência do raio, a defesa Civil foi acionada, chegaram em minutos com o corpo de bombeiros, cortaram a árvore centenária gigante e imediatamente recorreram a uma vistoria geral por toda a propriedade.
Ficou concluído no laudo, que devido a queda da árvore e as várias rachaduras encontras na vistoria, minha casa foi embargada pela defesa civil.
Senti o chão sumir de meus pés, eu deixei a casa herdada de minha mãezinha querida, para morar nesse lixo, herdado de meus avós paternos, eles que me perdoem por chamar de lixo, mas é a pura verdade.
E para cravar a faca mais fundo, eu estava estressado, falido e sem ter onde morar, pois a outra estava alugada com um contrato de dois anos.
O desespero veio com força total, passei semanas recorrendo a parentes próximos e amigos, para uma morada provisória, mas, nem um fdp se compadeceu de minha pessoa.
Minha vida estava totalmente arruinada, perdi minha casa, meus móveis, toda a economia que restará e de quebra os inquilinos não me mandavam dinheiro.
Então, iria recorrer a única pessoa que restará e em que podia confiar, meu irmão mais velho, que morava, no nordeste, em Rio Grande do Norte.
Tentei por semanas, em vão conseguir um emprego, eu um engenheiro elétrico formado, não conseguia, nem um emprego de faxineiro.
Fui em construções, também em agência de empregos, me olhavam com desprezo e escárnio, pois minhas roupas não eram compatíveis, eu estava sujo e mal arrumado, pois perdi, minhas poucas roupas no dia da tempestade cruel.
Sim... Cruel, pois naquele dia eu perdi tudo oque possuía, minha vida é um inferno sem fim.
Estou em uma tempestade, no oceano sem uma tabua de salvação, prestes a me afogar, metaforicamente falando.
A tristeza me abate a toda noite que tento dormir e durante o dia enquanto eu procuro emprego e sou rejeitado por todos.
Algumas vezes, quando consigo atenção nas agências e falo da minha profissão, não acreditam.
E quando eu consigo provar sofro rejeição, pois meu piso salarial é muito alto e não era compatível, com oque tem disponível, mas eu não ligava para o salário mais baixo que poderia receber, muito menos para a função que poderiam me oferecer.
Eu só queria trabalhar, me sentir digno, poder andar de cabeça erguida, eu queria uma fração da minha felicidade roubada.
Passei a juntar latinhas e papelão nas ruas, para conseguir o dinheiro da passagem, pois devido ao meu infortúnio não conseguia emprego algum.
Eu estava a meses fazendo isso, fui muito humilhado, me xingavam de tudo quanto é nome, me batiam e cuspiam em mim.
Eu passava muita fome, não tinha um lugar para tomar um banho,
Nem um balde de água me ofereciam.
Mas, consegui a juntar o dinheiro com muito sacrifício, eu estava eufórico, muito feliz, tão esperançoso, eu finalmente poderia sair daquele tormento sem fim.
Eu estava alegre, pois tinha ajuntado dinheiro suficiente, para a minha viagem.
Finalmente eu iria encontrar o meu irmão querido, minha vida iria mudar, eu poderia, ter alguém para cuidar de mim e enfim ter um pouco de paz.
Cheguei na agência de viagens, logo de cara fui descriminado, zombavam de mim, e não me deixaram aproximar do balcão de atendimento, eu só queria comprar uma passagem, eu queria muito estar com o meu irmão.
Me chamaram de mendigo, que eu estava sujo e fedendo, não iriam me vender a passagem e se vendessem, o passageiros iriam reclamar e me expulsar do ônibus.
Senti uma angústia muito grande, depois de me esforçar tanto, de passar fome, ser humilhado de tudo quanto é jeito, para ter aquele dinheirinho suado e agora não me deixavam embarcar.
Pedi pelo amor de Deus, me deixam eu me lavar em um dos banheiros, para poder embarcar com um cheiro menos repulsivo.
Eu reconhecia que eu estava fedendo, sujo e maltrapilho.
Mas, oque eu poderia fazer para mudar minha situação.
Não quiseram conversa, os seguranças me expulsaram aos berros e ainda me chutaram.
Meu desespero voltou com tudo, agora eu realmente estava triste, me sentei em um banco em uma praça e chorei por horas.
Eu estava desolado e me sentindo um lixo completo, quando senti uma forte pancada na cabeça, eu estava inconsciente, me arrastaram para um canto, roubaram todo o dinheirinho que eu tinha ajuntado, tiraram a minha roupa e então o real tormento se abateu sobre mim.
Me estupraram, me humilharam e me espancaram tanto, que naquela hora, eu desejava com todas as minhas forças morrer de verdade.
Uns drogados que fizeram isso comigo, eles zombavam, urinavam em meu rosto e cuspiam em mim, me chamavam de mendigo maldito e insatisfeitos me deram um chute muito forte em minha cabeça.
Acordei no outro dia, pelado e com um monte de estranhos em volta de mim.
Sabe oque é o mais absurdo, eu estava com muita dor, estava com uma fome terrível, pelado com frio e ninguém se importava comigo, só queriam fotografar e me humilhar.
Então, comecei a chorar compulsivamente, eu estava destruído por dentro e por fora.
A polícia chegou e me levou para a cadeia, por atentado ao pudor.
Me puseram em uma cela suja e depois me deram um banho de mangueira, com a água muito gelada, me deram uma roupa de presidiário, me ficharam e mesmo eu tentando explicar toda a minha situação, não me quiseram ouvir.
Então, chorei novamente e os guardas zombaram de mim.
Quando, me levaram para as celas, os guardas gritaram, esse é o chorão azarado.
Os próximos dias a vida piorou ainda mais...
Uns três detentos, começam a me humilhar, não satisfeitos começam a me espancar.
Comecei a ir em um psicólogo disponível no presídio e minha vida começa a mudar.
Seus conselhos, surtiram efeito, e uma luz no final do túnel se acendeu.
Contei todos os infortúnios que ocorreu em minha vida, ele acreditou e me ajudou a ter um escape.
Me indicou um promotor público, que me visitou no presídio, contei para ele agora, não escondendo nenhum detalhe.
E conseguiu apurar a verdade, sobre o dia do estupro, em um bar os drogados, ficaram contando vantagens e contou em detalhes, como me surpreenderam.
Falaram que me deram a pancada, tiraram minha roupa, me estupraram e roubaram meu dinheiro e por fim, acertaram minha cabeça e fiquei desmaiado.
Naquele dia, tinham vídeos espalhados nas redes sociais.
O promotor falou com o barman e ele contou oque ouviu dos drogados e juntando com os vídeos, conseguiu montar um caso.
As histórias contadas pelos drogados, batiam com o meu depoimento, para o promotor.
Ele acionou a polícia e como tinham câmeras no bar, conseguiu identificar os verdadeiros culpados, por eu ter estado nu em público.
Logo consegui a soltura, sendo inocentado, mas o meu tormento ainda não tinha acabado.
Voltei a morar nas ruas e sofri mais um pouco, eu estava protegido dentro da cadeia e agora estava sofrendo nas ruas outra vez.
Um dia de cada vez, eu falei para mim mesmo, passei fome mas um pouco.
Estava acontecendo tudo outra vez, não tinha onde me banhar, não tinha roupas limpas, me acostumei a passar fome novamente e as humilhações recomeçaram com toda a força.
As vezes, eu chegava nas portas dos bares, não para pedir, dinheiro ou comida, tão pouco, para pedir ajuda, pois sabia que o ser humano é a espécie mais cruel da face da terra.
Eu simplesmente pedia apenas um copo d'água, mas me era negado.
Então, eu bebia água da sarjeta, comia resto do lixo, eu abria os sacos, que as pessoas punham para os coletores de lixo recolherem.
Eu sei, a impressão de quem via de fora, achava que eu tinha caído mais ainda, pois antes eu passava fome, era humilhado, desprezado, e ouvia insultos terríveis, que não era digno de um ser humano.
Mas, agora eu já não implorava a mais ninguém, bebia água suja, comia restos do lixo, as vezes a fome era tanta que comia restos podres do lixo.
Mas, nunca mais implorei a ninguém, minha vida é minha e meu sofrimento também.
Não devo nada a ninguém, também não faço favores, e a vida continua.
Se for da vontade de Deus, um dia meu sofrimento e meus infortúnios acabam.
Até lá eu espero, confiante e esperançoso.
E essa é a minha história de vida.
Obs, esse relato, foi um sonho que tive e escrevi para não esquecer.
Mas, acontecem, coisas semelhantes, com as pessoas que vivem nas ruas.
devemos ter o mínimo de compaixão humana
Por Fazedor de Cornos.
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