#Lésbica

Entre Quedas e Recomerços

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Maluco2

Cheguei às 3h01 da manhã.

Assim que passei pelo portão, ouvi a voz dele vindo das sombras.

— Você está atrasada.

Parei.

Olhei para o relógio.

— Mas eu cheguei apenas um minuto atrasada.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Se você me responder novamente, serão vinte voltas. Comece agora.

Eu fiquei quieta.

— Okay. Já estou indo.

Comecei a correr.

Dei as dez voltas no quarteirão.

No começo, achei que conseguiria.

Mas, depois de algumas voltas, minhas pernas começaram a doer.

Minha respiração ficou pesada.

Meu peito começou a queimar.

Quando terminei, estava quase desmaiando.

Ele estava encostado no portão, observando tudo.

Quando cheguei perto, ele disse:

— Correu lento demais.

Olhei para ele, tentando recuperar o fôlego.

— Você precisa de mais resistência e mais velocidade.

Ele apontou para o chão.

— Agora faça sessenta flexões.

Olhei para ele.

Depois para o chão.

— Sessenta?

Ele não respondeu.

— Sessenta agachamentos.

Eu respirei fundo.

— Sessenta abdominais.

Ele fez uma pausa.

— E trinta barras fixas.

Eu ia dizer que não aguentava.

Mas lembrei do que ele tinha dito.

Se eu respondesse, seriam vinte voltas.

Então fiquei quieta.

Comecei.

Uma flexão.

Duas.

Três.

Meus braços começaram a tremer.

Continuei.

Quando terminei as flexões, comecei os agachamentos.

Depois os abdominais.

Por último, as barras.

Eu não conseguia fazer todas.

Mas continuei tentando.

Quando finalmente terminei, minhas pernas estavam tremendo.

Meu corpo inteiro doía.

Então senti meu estômago embrulhar.

Me afastei rapidamente e vomitei.

Ele ficou me olhando.

— Você está muito fraca.

Limpei a boca.

— Volte aqui quando conseguir fazer um esforço mínimo.

Ele virou as costas e foi embora.

Eu fiquei parada por alguns segundos.

Estava exausta.

Mas não iria desistir.

No dia seguinte, era o dia de saber o resultado da entrevista.

Fui até a lanchonete.

Meu coração estava acelerado.

Quando entrei, a mulher que havia falado comigo anteriormente me reconheceu.

— Você voltou.

— Sim.

Ela sorriu.

— Pode começar amanhã.

Eu fiquei parada.

— Eu consegui?

— Conseguiu.

Meu rosto se iluminou.

— Obrigada.

Finalmente eu tinha um trabalho.

Não era o trabalho dos meus sonhos.

Mas era um começo.

Comecei a trabalhar.

Durante o dia, ficava na lanchonete.

À noite, treinava.

Na primeira semana, quase sempre vomitava depois dos exercícios.

Na segunda semana, eu já não vomitava tanto.

Ficava apenas tonta e enjoada.

Na quarta semana, ainda ficava cansada como se fosse morrer.

Mas continuava.

Na oitava semana, algo mudou.

Eu conseguia terminar os exercícios sem ficar completamente destruída.

Ainda ficava cansada.

Ainda doía.

Mas eu conseguia.

Eu estava melhorando.

Naquela noite, resolvi chegar mais cedo.

Cheguei às 2h40.

Não queria cometer o mesmo erro novamente.

Fiquei esperando.

Pouco depois, ele apareceu.

Olhou para o relógio.

Depois para mim.

— Você chegou na hora certa.

Ele se aproximou.

— Vamos ver como você está indo.

Começamos.

Corri.

Fiz os exercícios.

Treinei os movimentos.

Ele observava cada coisa que eu fazia.

Quando terminei, ele ficou em silêncio.

Depois disse:

— Ainda tem muita coisa para melhorar.

Eu quase caí no chão.

— Muita?

Ele ignorou minha expressão.

E começou a passar novos exercícios.

Continuamos.

E continuamos.

Quando percebi, já eram sete da manhã.

Eu tinha que ir trabalhar.

Fui direto para a lanchonete.

Trabalhei o dia inteiro.

Saí às cinco da tarde.

Voltei para casa.

Minha casa ainda era simples.

Eu chegava, tomava um banho de balde, comia alguns pães e dormia.

Dormia até chegar a hora de treinar novamente.

Era cansativo.

Muito cansativo.

Mas eu estava conseguindo sobreviver.

Então recebi meu primeiro salário.

Fiquei olhando para o dinheiro por alguns segundos.

Era a primeira vez que aquele dinheiro era realmente meu.

Eu tinha conseguido.

Peguei parte dele e fui fazer compras para a casa.

Comprei comida.

Algumas roupas.

Coisas básicas que eu precisava.

Depois guardei o restante.

E continuei trabalhando.

Continuei treinando.

Continuei economizando.

Assim foram passando os meses.

Um mês.

Dois.

Três.

Quatro.

Cinco.

Seis.

Sete.

Oito meses.

Minha vida já estava completamente diferente.

Eu tinha comida.

Tinha roupas.

Tinha trabalho.

Tinha uma casa.

Tinha algum dinheiro guardado.

E ainda treinava todas as noites.

Até que, certo dia, depois de terminar uma sequência de exercícios, ele me chamou.

— Agora você vai me atacar.

Eu fiquei olhando para ele.

— O quê?

— Se você conseguir encostar um dedo em mim, começamos a treinar de verdade.

Fiquei indignada.

— Porra...

Respirei fundo.

— Eu quase morro treinando e você fala que eu ainda não estou treinando de verdade?

Ele não respondeu.

Olhei para ele.

— Eu vou morrer mesmo.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

— Mas quer saber? Dane-se.

Apertei os punhos.

— Já sofri coisa pior.

Parti para cima dele.

Ele desviou.

Tentei novamente.

Desviou outra vez.

Tentei acertá-lo.

Nada.

Eu estava ficando irritada.

Quanto mais eu tentava, mais ele desviava.

Mas continuei.

Até que, em determinado momento, consegui tocar nele.

Parei.

Ele olhou para o lugar onde minha mão havia encostado.

Depois olhou para mim.

— Finalmente.

Foi assim que começamos a treinar de verdade.

Eu aprendi a atacar.

Aprendi a me defender.

Aprendi a observar os movimentos.

Aprendi a usar meu corpo.

E, principalmente, aprendi a não desistir quando estava cansada.

Depois de algum tempo, chegou o dia da minha primeira luta de verdade.

Ele olhou para mim antes de eu entrar.

— Lembre-se do que eu ensinei.

Respirei fundo.

Entrei.

A luta começou.

No começo, fiquei nervosa.

Mas então lembrei dos treinamentos.

Respiração.

Movimento.

Defesa.

Ataque.

Não pensei em mais nada.

Quando a luta terminou, eu tinha vencido.

Eu não conseguia acreditar.

Eu tinha ganhado.

E, dessa vez, recebi três mil reais.

Olhei para o dinheiro.

Três mil.

Era mais dinheiro do que eu já tinha conseguido de uma vez.

Aquilo me permitiu comprar mais algumas coisas para minha casa.

Também guardei uma parte.

E continuei.

Luta após luta.

Treino após treino.

Eu estava melhorando.

Um ano depois de sair do orfanato, minha vida já era completamente diferente.

Eu tinha uma casa.

Tinha dinheiro guardado.

Tinha meu trabalho na padaria.

E também tinha o dinheiro das lutas.

Eu ainda não tinha uma vida luxuosa.

Mas era minha.

Tudo o que eu tinha conseguido tinha sido com meu próprio esforço.

Naquela madrugada, fui novamente fazer meu treinamento.

Comecei com uma corrida de quinze quilômetros.

Eu já estava acostumada com aquilo.

Corria pelas ruas ainda silenciosas.

A cidade parecia diferente naquele horário.

Poucas pessoas.

Poucos carros.

Era muito mais tranquilo.

Até que, no meio do caminho, ouvi alguma coisa.

Parei.

Olhei para uma rua mais afastada.

Havia algumas pessoas.

Uma garota estava caída.

Ela parecia bêbada e havia quatro homens ao redor dela.

Parei imediatamente.

Não pensei.

Apenas fui até lá.

— Ei!

Os quatro olharam para mim.

Um deles deu um passo na minha direção.

Eu não esperei.

Ataquei.

Foi rápido.

Um caiu.

Outro tentou me acertar.

Desviei.

A luta começou.

Eram quatro contra uma.

Eu sabia que estava em desvantagem.

Mas não iria deixar aquela garota ali.

Consegui derrubar dois.

Os outros tentaram me cercar.

Levei alguns golpes.

Por pouco não caí.

Mas continuei.

Depois de alguns segundos, consegui afastá-los.

Eles desistiram.

Eu respirei fundo.

Olhei para a garota.

Ela estava desacordada.

Não podia deixá-la ali.

Então a coloquei nos braços e a levei para minha casa.

Coloquei-a na cama.

Ela continuava dormindo.

Eu precisava terminar meu treinamento.

Então voltei para a rua.

Continuei correndo.

Quando terminei, voltei para casa.

A garota ainda estava dormindo.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

Depois pensei que provavelmente estaria com fome quando acordasse.

Então fui preparar o café da manhã.

Preparei alguma coisa simples.

Enquanto estava terminando, ouvi um barulho.

Olhei para trás.

Ela estava acordando.

A garota se sentou lentamente.

Olhou ao redor.

Parecia confusa.

— Onde eu estou?

— Na minha casa.

Ela me olhou.

— Por quê?

— Você estava em perigo.

Ela ficou em silêncio.

Expliquei o que tinha acontecido.

Ela ouviu tudo.

Depois ficou alguns segundos sem dizer nada.

Então sorriu vemente.

— Prazer.

Ela estendeu a mão.

— Meu nome é Sofy

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