Entre Quedas e Recormeços 4
Eu nunca fui de sair do orfanato.
Tudo o que eu sabia, tudo o que eu conhecia e praticamente tudo o que eu tinha vivido estava naquele lugar.
Eu nunca tinha participado de passeios escolares.
Nunca tinha ido a parques.
Nunca tinha conhecido outras partes da cidade.
Na verdade, eu evitava sair.
O mundo do lado de fora era assustador demais para mim.
Os sons eram muito altos.
As luzes piscavam.
Havia muita gente passando de um lado para o outro.
Carros, vozes, buzinas, músicas, pessoas falando ao mesmo tempo...
Era informação demais.
Eu não conseguia processar tudo aquilo.
Dentro do orfanato, pelo menos, eu sabia o que esperar.
Conhecia os corredores.
Conhecia os horários.
Conhecia os sons.
Sabia quando o sino iria tocar.
Sabia onde ficavam as salas.
Sabia onde poderia ficar sozinha.
Mas agora tudo aquilo tinha ficado para trás.
Depois de quinze anos da minha vida naquele lugar, eu estava do lado de fora dos portões.
Sozinha.
Sem ninguém.
Sem uma casa.
Sem dinheiro.
Sem comida.
Sem roupas para trocar.
Eu só tinha a roupa do meu corpo.
Fiquei alguns segundos parada diante dos portões.
Olhei para trás.
Aquele lugar tinha sido horrível para mim durante boa parte da minha vida.
Mas ainda era o único lugar que eu conhecia.
Agora eu não sabia para onde ir.
Respirei fundo.
— Tudo bem...
Olhei para frente.
Eu tinha uma lista.
Uma lista mental das coisas que precisava conseguir.
Comida.
Lugar para dormir.
Trabalho.
Dinheiro.
Roupas.
Olhei para a rua.
— É tanta coisa...
Passei a mão pelo rosto.
— Enfim... não vou conseguir nada ficando aqui.
Então comecei a andar.
Segui em direção ao centro.
Quanto mais eu caminhava, mais barulho aparecia.
Carros passando.
Pessoas conversando.
Buzinas.
Motores.
Músicas.
Eu apertava os olhos sempre que alguma coisa fazia um barulho muito alto.
Era difícil.
Muito difícil.
Mas eu não tinha escolha.
Continuei andando.
Depois de algumas quadras, encontrei uma casa.
Parei.
Era uma casa aparentemente abandonada.
Tinha um portão de madeira e uma cerca que permitia enxergar parte do quintal.
O mato estava alto.
As janelas estavam fechadas.
Não parecia haver ninguém morando ali.
Olhei ao redor.
O lugar ficava relativamente perto do centro, mas, ao mesmo tempo, parecia afastado o suficiente para que o barulho não chegasse tão forte.
Eu fiquei pensando.
Talvez...
Talvez aquilo servisse.
Não era uma casa de verdade para mim.
Mas era melhor do que dormir na rua.
Aproximei-me do portão e olhei para dentro.
Nada.
Nenhuma pessoa.
Nenhum carro.
Nenhum sinal de alguém morando ali.
— Perfeito.
Pelo menos por enquanto.
Agora eu precisava resolver a questão da comida.
Continuei andando.
Depois de algum tempo, passei por uma lanchonete.
Parei quando vi uma placa.
ESTAMOS CONTRATANDO.
Meu coração acelerou.
Entrei.
Uma mulher que estava atrás do balcão me olhou.
— Posso ajudar?
— Eu vi a placa.
— Ah, sim. Você está procurando trabalho?
Balancei a cabeça.
— Sim.
Ela me olhou por alguns segundos.
— Você tem experiência?
— Não.
Ela pareceu hesitar.
— Nunca trabalhou em uma lanchonete?
— Não.
Pensei um pouco antes de continuar:
— Mas eu aprendo rápido.
Ela ficou em silêncio.
— Quanto tempo você acha que precisa para aprender?
— Um mês.
Ela pareceu surpresa.
— Um mês?
— Sim.
— Bom... talvez possamos conversar melhor sobre isso.
Ela pediu meu contato.
Fiquei olhando para ela.
— Eu não tenho telefone.
— Você não tem celular?
Balancei a cabeça.
— Não.
Ela ficou um pouco sem saber o que dizer.
Então perguntei:
— Quanto tempo leva para eu passar aqui novamente?
Ela me passou uma data.
Eu memorizei.
Não tinha onde anotar.
— Tudo bem. Eu venho nesse dia.
Agradeci e saí.
Depois fui a outras lojas.
Perguntei sobre trabalho.
Algumas disseram que não estavam contratando.
Outras perguntaram sobre experiência.
Quando eu dizia que não tinha, a conversa terminava rapidamente.
Não consegui nada.
Quando percebi, já estava ficando de noite.
Eu estava cansada.
Com fome.
E ainda não tinha conseguido resolver praticamente nada da minha lista.
Voltei para a casa abandonada.
No caminho, porém, vi um galpão.
Ele ficava a alguns bairros de distância.
Havia várias pessoas na frente.
Algumas conversavam.
Outras pareciam esperar alguma coisa.
Fiquei curiosa.
Aproximei-me.
Foi então que percebi que não era um lugar comum.
Era um lugar de apostas.
Lutas clandestinas.
Olhei para dentro.
Dois homens estavam lutando.
As pessoas ao redor gritavam.
Um deles recebeu um golpe muito forte.
O movimento do braço e o barulho não foram nada agradáveis de ver ou ouvir.
Eu desviei o olhar por alguns segundos.
Mas continuei ali.
Um homem apareceu falando com algumas pessoas.
— O próximo lutador desistiu.
Algumas pessoas começaram a reclamar.
Ele falou o valor da aposta.
Fiquei assustada.
Depois pensei.
Eu precisava de dinheiro.
Olhei para o ringue.
Olhei para o homem.
E falei:
— Está precisando de alguém?
Os homens olharam para mim.
Depois olharam uns para os outros.
Começaram a rir.
— Você?
Olhei para eles.
— Eu participo.
Um deles me olhou de cima a baixo.
— Isso não é lugar para mulher.
— Você precisa de um lutador.
Apontei para mim.
— Eu preciso de dinheiro.
Fiz uma pausa.
— Os dois ganham.
O homem ficou olhando para mim.
Depois deu uma risada.
— Está bom, então, gracinha. Vou apostar que você vai perder.
— Okay.
Entrei.
Não durou nem dez segundos.
A primeira coisa que senti foi um impacto.
Depois tudo ficou escuro.
Quando abri os olhos, estava do lado de fora do ringue.
Um balde de água tinha acabado de ser jogado no meu rosto.
Cuspi o sangue que estava na minha boca.
O homem que tinha falado comigo estava perto.
Ele parecia surpreso.
— Garota... você me deu uma boa grana.
Ele pegou uma nota e jogou na minha direção.
— Toma.
Peguei o dinheiro.
Olhei para a nota.
Cem reais.
Era pouco.
Mas, para mim, naquele momento, parecia muito.
Eu precisava comer.
Precisava de um lugar para ficar.
Precisava sobreviver.
Então peguei o dinheiro e fui embora.
Voltei para a casa abandonada.
Naquela noite, dormi no chão.
Não era confortável.
Mas eu tinha um teto.
E, naquele momento, isso já era alguma coisa.
Na noite seguinte, voltei para o galpão.
E na noite seguinte também.
E na outra.
Durante o mês seguinte, continuei indo.
E continuei perdendo.
Sempre acontecia a mesma coisa.
Eu entrava.
Apanhava.
Caía.
Acordava do lado de fora.
Recebia algum dinheiro.
E ia embora.
Até que, certa noite, o homem me viu chegando novamente.
Ele balançou a cabeça.
— Lá vem você de novo, garota.
Eu continuei andando.
— Você não cansa de apanhar, não?
Olhei para ele.
— Eu preciso de grana.
Apontei para o ringue.
— E você precisa de luta.
Cruzei os braços.
— Então cala essa boca.
Ele soltou uma risada.
— Ah, é?
— É.
Ele ficou sério.
— Mas, se continuar assim, não vai ganhar mais grana.
Fiquei quieta.
Ele continuou:
— Você devia aprender a lutar.
Olhei para o ringue.
Depois para minhas mãos.
Eu sabia que não conseguiria continuar daquele jeito para sempre.
Então perguntei:
— E você vai, por acaso, me ensinar?
Ele abriu a boca para responder.
Mas não conseguiu.
Uma pessoa saiu das sombras atrás dele.
Eu olhei.
Era um homem.
Ele ficou parado por alguns segundos.
Então disse:
— Eu vou te ensinar a lutar.
Fiquei olhando para ele.
Ele continuou:
— Mas esteja preparada para também conhecer o inferno.
Olhei diretamente para os olhos dele.
Não desviei.
— Eu já o conheço.
Ele ficou em silêncio.
Nós nos encaramos por alguns segundos.
Então ele disse:
— Esteja aqui às três da manhã.
E saiu novamente pelas sombras.
Fiquei parada.
Olhei para o homem que estava ao meu lado.
Depois olhei para o lugar por onde aquele estranho tinha desaparecido.
Talvez fosse perigoso.
Provavelmente era.
Mas eu precisava de uma oportunidade.
Finalmente tinha encontrado uma.
Uma oportunidade de aprender.
Uma oportunidade de ganhar dinheiro.
Uma oportunidade de deixar de ser apenas a garota que entrava naquele ringue para apanhar.
Olhei para o relógio.
Ainda faltavam algumas horas.
Respirei fundo.
— Três da manhã...
Pela primeira vez desde que saí do orfanato, senti que talvez eu tivesse encontrado um caminho.
Mesmo que esse caminho me levasse direto para o inferno.
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