Entre Quedas e Recomerços 2
Já havia se passado uma semana desde que eu tinha chegado àquele orfanato.
As crianças continuavam rindo de mim, mas agora parecia que estavam fazendo isso ainda mais.
Também começaram a esconder minhas coisas.
Naquela manhã, quando fui pegar meu livro de matemática, ele tinha desaparecido.
Procurei embaixo da cama.
Nada.
Olhei dentro da mochila.
Nada.
Procurei na sala.
Nada.
Eu não entendia onde ele poderia estar.
Eu precisava daquele livro para a aula, então continuei procurando.
Até que, depois de algum tempo, encontrei.
Estava no lixo.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
A capa estava suja e algumas páginas estavam amassadas.
Eu não entendia.
Por que alguém faria aquilo?
Eu não tinha feito nada.
Peguei o livro, limpei como consegui e voltei para a sala.
Não falei nada.
Na verdade, eu quase nunca falava.
Eu só ficava no meu canto, prestando atenção nas aulas.
Quando chegou a hora do recreio, fui para o pátio como todas as outras crianças.
Eu não tinha ninguém para brincar.
Então fiquei apenas olhando.
Depois do recreio, voltei para a sala.
Quando cheguei, parei na porta.
Minha mesa estava toda rabiscada.
Havia várias palavras escritas nela.
Esquisita.
Chorona.
Feia.
Menina maluquinha.
Fiquei olhando para aquilo.
Não entendia o motivo.
Eu não fazia nada.
Eu só ficava prestando atenção nas aulas e ficava no meu canto.
Por que elas faziam aquilo comigo?
Passei os dedos sobre uma das palavras.
Eu não sabia o que significava ser esquisita.
Também não sabia por que me chamavam de maluquinha.
E eu sabia que chorava bastante.
Mas eu não gostava de ser chamada de chorona.
Eu sentei na minha cadeira e tentei ignorar.
Era mais fácil assim.
Outro dia, eu estava escutando algumas crianças conversando.
Eu fiquei apenas observando.
Elas estavam falando umas com as outras e rindo.
Eu queria entender como conseguiam conversar daquele jeito.
Como conseguiam ser amigas.
Como conseguiam rir juntas.
Eu apenas observava.
Foi quando uma delas percebeu que eu estava olhando.
— O que você está olhando?
Eu não respondi.
— Ela fica observando a gente o tempo todo.
Outra criança riu.
— Ela é uma psicopata.
Eu fiquei olhando para eles.
Psicopata?
O que era psicopata?
Era doce?
Talvez fosse alguma coisa boa.
Eu não sabia.
Bom...
Tanto faz.
A professora chegou, então parei de prestar atenção neles e fui prestar atenção na aula de Ciências.
Ciências era a minha matéria favorita.
Eu gostava de aprender sobre as coisas.
Gostava de entender como o mundo funcionava.
Quando a professora explicava alguma coisa, eu prestava muita atenção.
Eu gostava quando ela fazia perguntas.
Gostava quando conseguia responder.
Era uma das poucas coisas que me faziam esquecer um pouco o resto.
Na hora do recreio, o sinal tocou.
Eu guardei minhas coisas e fui para o refeitório.
Entrei na fila e esperei minha vez.
Quando chegou a minha vez de pegar comida, estendi o prato.
Foi quando um garoto colocou o garfo em cima da minha carne.
— Isso aqui não é para garota esquisita.
Eu olhei para ele.
Não entendi.
Então ele pegou outra coisa.
— Toma isso aqui. Já vi que você gosta mais disso.
Ele colocou batata-doce no meu prato.
Assim que senti o cheiro, comecei a ficar enjoada.
Eu não gostava daquele cheiro.
Na primeira noite em que estive ali, eu tinha tentado comer batata-doce.
Mas, quando ela encostou na minha garganta, eu acabei vomitando no refeitório.
Eu não gostava de batata-doce.
Olhei para o garoto.
— Eu não gosto de batata-doce. Você deve ter se confundido com outra menina.
Ele me olhou e respondeu:
— Não. Eu vi você comer, menina esquisita.
Eu fiquei confusa.
— Quer ver?
Ele pegou a batata-doce.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele forçou a comida dentro da minha boca.
Na mesma hora, senti meu estômago embrulhar.
Meu corpo reagiu sozinho.
Eu vomitei.
O garoto me bateu.
Eu não entendi nada.
Por que ele tinha feito aquilo?
Eu não tinha feito nada para ele.
Ele me chamou de nojenta.
Algumas crianças começaram a rir.
Eu fiquei parada.
Não sabia o que fazer.
Queria sair dali.
Queria ir embora.
Mas não tinha para onde ir.
Depois daquele dia, as coisas ficaram ainda piores.
Os dias foram passando e as crianças começaram a me chamar de nojenta.
Às vezes, passavam por mim e falavam.
Outras vezes, apenas riam.
Eu tentava ignorar.
Continuava estudando.
Continuava prestando atenção nas aulas.
Continuava ficando no meu canto.
Mas não parava.
Até que, um dia, pegaram o meu ursinho.
Meu ursinho era importante para mim.
Ele tinha sido um presente da minha mamãe.
Eu não sabia por que tinham pegado.
Quando encontrei, ele estava rasgado.
Fiquei olhando para ele.
Meu coração doeu.
Eu tentei consertá-lo.
Mas não consegui.
Não sei exatamente o que aconteceu depois.
Só sei que, quando me dei conta, minha mão estava doendo.
Muito.
Eu olhei para frente.
O garoto que tinha pegado meu ursinho estava no chão.
Junto dele estavam outros três colegas.
Os quatro estavam com os narizes sangrando.
Eu olhei para minhas mãos.
Não sabia o que tinha acontecido.
Eu não lembrava direito.
Só sabia que estava com muita raiva.
A diretora apareceu.
Ela olhou para os garotos.
Depois olhou para mim.
Eu não consegui explicar.
Não sabia o que dizer.
Ela me levou para outro lugar e me colocou de joelhos no milho.
Fiquei ali durante quatro horas.
Doeu muito.
Minhas pernas doíam.
Meus joelhos doíam.
Eu queria sair dali.
Mas não podia.
Então fiquei quieta.
E assim os dias foram passando.
Depois os meses.
Depois os anos.
Quando eu tinha onze anos, aconteceu uma coisa que me assustou muito.
Acordei e vi sangue na cama.
Fiquei olhando para aquilo sem entender.
Meu coração começou a bater muito rápido.
Eu chorei.
Achei que ia morrer.
Eu estava doente.
Não sabia o que estava acontecendo comigo.
Eu só sabia que havia sangue.
As outras garotas do dormitório descobriram.
A partir daquele dia, começaram a me chamar de doente.
Eu não gostava.
Mas já estava acostumada.
As palavras delas começaram a parecer apenas mais uma parte da minha rotina.
Até que aconteceu um dia que eu nunca vou esquecer.
Era uma quinta-feira.
Depois de uma década naquele orfanato, eu estava sentada no balanço.
Eu gostava daquele lugar.
Era um dos poucos lugares onde conseguia ficar sozinha.
O balanço se mexia devagar.
Para frente.
Para trás.
Para frente.
Para trás.
Eu olhava para o chão enquanto balançava.
Foi quando uma garota nova chegou.
Ela parou perto de mim.
— Por que você está aqui sozinha?
Eu a olhei.
Não disse nada.
Ela esperou alguns segundos.
Depois continuou:
— Você não fala?
Continuei em silêncio.
— Você é tímida?
Não respondi.
Ela parecia não se importar com o meu silêncio.
Continuou falando.
Falava muito.
Eu apenas ficava olhando para ela.
Os dias foram passando.
Até que, em algum momento, eu finalmente me irritei.
Olhei para ela e perguntei:
— O que você quer comigo, garota?
Ela sorriu.
— Ah! Você fala!
Eu fiquei olhando para ela.
Ela estendeu a mão.
— Vamos ser amigas? Meu nome é Marina. Muito prazer.
Olhei para a mão dela.
Depois para o rosto.
Eu não queria aquilo.
Não queria que outra pessoa se aproximasse de mim.
Então respondi:
— Não, obrigada.
Ela ficou surpresa.
Eu continuei:
— E deixa eu te dar um conselho: não fala comigo ou você vai sofrer.
Depois saí.
Eu não queria que ela tivesse os mesmos problemas que eu.
Não queria que as outras crianças começassem a implicar com ela por minha causa.
Na manhã seguinte, Marina apareceu na sala de aula.
Assim que me viu, abriu um sorriso.
— Te achei, miga!
Eu a ignorei.
Fingi que não tinha escutado.
Mas os garotos foram falar com ela.
Começaram a contar coisas sobre mim.
Eu não conseguia ouvir tudo.
Estava perto da janela, olhando para as plantas do lado de fora.
Foi então que ouvi Marina responder:
— Ela não é nada disso.
Os garotos riram.
Então ela continuou:
— Ela é muito bonita, para a informação de vocês.
Depois deu um tapa na cara de um deles.
Eu fiquei olhando pela janela.
Eles não perceberam que eu estava ouvindo.
Marina saiu.
Eu continuei olhando para as plantas.
Não sabia por que ela tinha feito aquilo.
Ela nem me conhecia.
Nos outros dias, ela continuava aparecendo.
Ela sempre me encontrava.
Às vezes no corredor.
Às vezes na sala.
Às vezes no pátio.
Ela falava comigo mesmo quando eu não respondia.
Era irritante.
Muito irritante.
Até que desisti de ignorá-la.
Comecei a prestar atenção nela.
Ela tinha olhos verdes.
A boca era carnuda e vermelha como morango.
Os cílios eram grandes.
Seus cabelos eram loiro-morango e caíam pelas laterais do rosto, chegando até as bochechas.
Ela falava muito.
Muito mesmo.
Eu ficava apenas observando.
Até que, sem perceber, falei:
— Você é muito linda.
Marina parou de tagarelar.
Ela ficou me olhando.
— Oi?
Eu percebi o que tinha falado.
Fiquei sem saber o que fazer.
— Nada.
Ela continuou olhando para mim.
Então suas bochechas começaram a ficar vermelhas.
Eu nunca tinha visto alguém ficar daquele jeito.
Fiquei olhando.
E achei ela ainda mais linda.
Naquele momento, eu ainda não sabia.
Não fazia ideia do que estava acontecendo.
Não sabia o quanto aquela garota mudaria minha vida.
Não sabia quantas coisas ainda aconteceriam.
Só sabia que, depois de tantos anos naquele lugar, alguém finalmente tinha conseguido atravessar a barreira que eu tinha criado ao meu redor.
E eu mal sabia que Marina seria a primeira pessoa a se tornar realmente importante na minha vida.
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