Cap 9 - Rayanne em O conflito (spin-off)
Tem uma coisa que ninguém te conta sobre trair: o pior não é o que acontece na hora. O pior é o que sobra depois. O efeito residual. O cheiro que não sai da memória por mais que você lave a pele.
O Cass ficou encrustado na minha cabeça.
Não eram sentimentos românticos, não era amor, não era nada de poético. Era mais cru do que isso: era o pau dele. Era a lembrança física de algo que meu corpo nunca tinha experimentado daquela forma. Homem e mulher têm uma gramática diferente na cama, e eu tinha ficado décadas sem ler aquela língua. Quando aquilo voltou de uma vez só, na beira dos arrecifes molhados no meio da madrugada, meu sistema nervoso entrou em colapso da melhor maneira possível.
A solução mais idiota do mundo seria manter contato.
Então, claro, mantive. Rsrs.
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A troca de mensagens começou casual. Uma pergunta boba sobre um lugar que eu tinha mencionado, ele respondendo com um áudio de voz grave que me fazia pausar o que eu estava fazendo pra escutar duas vezes. Depois foram os nudes.
Eu nunca fui de mandar foto, não era o meu estilo. Mas com o Cass foi diferente. Existia ali uma cumplicidade velha, uma intimidade construída desde os treze anos que tornava aquilo tudo muito menos constrangedor e muito mais excitante. Ele mandava, eu mandava. Ele comentava com uma objetividade masculina que não pedia desculpa pra ninguém, e eu respondia com a mesma falta de vergonha.
Era a nossa versão adulta do jogo de sempre. Eu provocando ele do muro. Ele tentando não perder a pose.
No começo, eu gerenciava aquilo com cirurgia. Celular sempre virado pra baixo quando estava com a Carol. Notificações sem preview. Uma rotina de cuidados tão naturalizada que, às vezes, eu me assustava com a minha própria frieza.
Mas a Carol não era qualquer pessoa. Ela era bioquímica. E bioquímica estuda reações em cadeia.
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Ela não viu mensagem nenhuma. Não vasculhou o meu celular. A Carol nunca foi do tipo que invade privacidade; tinha orgulho demais pra isso.
O que ela percebeu foi o que não estava escrito em lugar nenhum.
Percebeu que eu ficava mais silenciosa depois que o celular vibrava. Percebeu que eu tinha parado de deixar o aparelho em cima da pia quando tomava banho. Percebeu que eu ria de uma forma levemente diferente de alguns áudios, aquele tipo de riso que a mulher dá quando tá com gostinho de segredo.
Ela não disse nada por semanas. Ia absorvendo, catalogando, construindo hipóteses com a meticulosidade de quem passa o dia inteiro em análises laboratoriais. A Carol funcionava assim: não explodia, ela incubava.
Até que numa quinta-feira de julho, depois de um dia longo de trabalho, a bomba detonou.
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Eu tinha chegado em casa um pouco mais tarde do que o normal, porque tinha ficado no corredor da escola finalizando a nota de um aluno que tinha pedido revisão. Entrei pela cozinha, larguei a bolsa no gancho e fui direto à geladeira pegar água.
A Carol estava sentada na bancada, de camiseta do laboratório e bermuda, com um copo de cerveja na mão e os olhos pregados em mim. Não era o olhar sereno de sempre. Era aquele olhar que ela tinha quando identificava uma anomalia no microscópio: concentrado, clínico, sem piscar.
— Como foi? — ela perguntou com uma voz plana.
— Cansativo. Tive revisão com um aluno depois. — Bebi a água devagar, de costas pra ela, sentindo o peso do silêncio crescer atrás da minha nuca.
— Rayanne.
Parei com o copo na boca.
— Ele ainda manda mensagem pra você?
Não precisei perguntar quem era o *ele*. O estômago virou.
Fechei a geladeira devagar, virei pra ela e sustentei o olhar. Quando a Carol me chamava pelo nome completo sem apelido nenhum, era porque a situação já estava séria.
— A gente se fala de vez em quando. É um amigo de infância, Carol.
— Amigo de infância. — Ela repetiu as palavras devagar, saboreando o absurdo delas. — Você some quarenta minutos na praia de madrugada com ele, e eu sou para ficar feliz com *amigo de infância*.
— Nós fomos colocar o papo em dia. — Já estava entrando no modo automático de contenção de dano e odeio quando percebo isso em mim mesma.
A Carol pousou o copo na bancada com um estalido seco.
— Para. — A voz dela ficou baixa, mas com uma dureza que cortava. — Não me trate feito idiota, Rayanne. Eu processo fórmula molecular, eu processo você muito mais rápido do que você pensa.
O silêncio entre a gente ocupou a cozinha inteira.
Ela se levantou, foi até o corredor sem dar as costas pra mim — daquele jeito de quem sabe que você pode tentar alcançar o braço dela —, parou no batente e falou sem me olhar:
— Eu não vou te pedir pra você parar de falar com ele. Você é adulta. Mas eu vou te pedir pra você ser honesta comigo, porque o que eu odeio não é o que aconteceu na praia. É você achar que eu sou boba.
E foi pro quarto.
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Fiquei parada na cozinha por uns cinco minutos, ouvindo o barulho do chuveiro ligar no banheiro.
A Carol nunca gritava. Nunca batia porta. Nunca jogava prato. O silêncio calculado dela era mil vezes mais devastador do que qualquer cena de novela. Ela tinha uma capacidade assombrosa de me fazer sentir culpada sem precisar me acusar de nada.
E eu me sentia culpada, porra. Que ódio.
Larguei a bolsa no sofá, tirei o tênis e fui até o quarto. Ela tinha saído do banho e estava de toalha na beira da cama, de costas pra mim, passando hidratante nas pernas com aquela postura tensa de quem ainda está processando raiva em silêncio.
Fechei a porta. Avancei até ela.
— Carol.
— Não tô afim de conversa agora.
— Tá bom. Então não conversamos.
Botei as duas mãos nos ombros dela por trás. Ela enrijeceu um segundo. Desci as mãos pelas costas dela devagarzinho, abrindo a toalha que cedia com facilidade. Passei os dedos pela cintura fina dela, pelos quadris estreitos, até a lateral das coxas. A pele dela estava quente do banho e cheirava ao hidratante de baunilha que eu amava nela.
— Ray... — a voz dela saiu diferente. Menos cortante. Ela ainda estava puta comigo, mas o corpo dela tinha uma memória própria da minha mão.
— Eu sei — disse baixinho no ouvido dela. — Eu sei que te magoei.
Ela ficou quieta. Dei um beijo na curva do pescoço dela, devagarzinho. Outro. E mais um, descendo pela coluna, até a omoplata. Senti ela soltando o ar que estava segurando.
— Isso não resolve — ela murmurou. Mas já estava amolecendo, deixando minha boca percorrer as costas dela.
— Eu sei disso também — respondi. — Mas não precisa resolver agora.
Empurrei ela de leve pra frente, e ela deitou de bruços na cama, a toalha escorregando de vez e deixando todo o corpo dela exposto. A Carol tinha um corpo magro e firme, de linhas retas, com uma bunda não muito grande mas bem definida que eu adorava de um jeito completamente desproporcional ao tamanho dela. Rsrs.
Me joguei por cima dela, continuei descendo a boca pelas vértebras, pelo cóccix, até a beira superior das nádegas. Ela já estava com a respiração diferente.
— Você é muito safada — ela falou com a voz abafada no travesseiro.
— Você gosta — respondi, sorrindo contra a pele dela.
Abri as pernas dela devagarzinho e me posicionei entre elas. Comecei pelos lábios: desci a língua devagarzinho pela fenda dela, lambendo de baixo pra cima com uma calma que sabia que deixava ela completamente louca. A Carol gemeu fundo, apertando o lençol com os dedos. Ela era extremamente sensível assim, de bruços, totalmente entregue, sem ter pra onde correr.
Trabalhei ela com a língua até sentir ela toda encharcada, tremendo levemente. Só então me levantei um pouco, abri a gaveta do criado-mudo e peguei o dildo de silicone que a gente guardava ali — firme, tamanho médio, com aquela textura aveludada. Um dos nossos brinquedos favoritos.
Caprichei no lubrificante.
Primeiro, preparei o terreno. Desci os dedos até o cu dela com bastante lubrificante, massageando a entrada em círculos lentos, sentindo a pele quente relaxar aos poucos. A Carol deu um sobressalto involuntário, aquele reflexo que ela sempre tinha, mas eu conhecia o corpo dela de ponta a ponta.
— Fica quieta — murmurei perto da orelha dela. — Confia em mim.
Ela soltou o ar devagarzinho. Cedeu.
Fui com calma, deslizando o indicador bem besuntado pra dentro, milímetro por milímetro, sem forçar nada. Quando o primeiro dedo entrou inteiro, ela deu uma fungada baixa e cravou as unhas no travesseiro. Não reclamou; empurrou o quadril de leve pra trás, me dando passagem. Botei o segundo dedo, abrindo espaço devagarzinho, enquanto a outra mão escorregava pela frente pra tocar o clitóris dela.
Quando senti que o cu dela estava bem relaxado e dilatado, retirei os dedos e posicionei a ponta do dildo na entrada.
A Carol sentiu a pressão do silicone e travou de novo, arfando.
— Ray...
— Relaxa, amor. Deixa eu te cuidar.
Fui empurrando com firmeza e paciência. A cabeça do dildo foi vencendo a resistência apertada, entrando devagarzinho no cu dela, e a Carol soltou um gemido longo, rouco, meio sufocado contra o travesseiro. A sensação daquele silicone frio ganhando a temperatura do corpo dela, alargando ela por dentro, fez a bunda dela empinar ainda mais, oferecida, sem conseguir sustentar um pingo da postura brava de minutos atrás.
Enfiei até quase a base e comecei a bombear num ritmo lento e profundo.
Ao mesmo tempo, desci a outra mão pela fenda dela, enfiando dois dedos na buceta ensopada, apertando o ponto G por dentro enquanto o dildo se movia no cu. A pressão combinada — o dildo esticando a parede anal e meus dedos curvando por dentro da buceta — fez a Carol literalmente esquecer quem era.
Ela jogou a cabeça pra trás, rebolando contra o dildo com um desespero lindo de assistir. O orgulho, o ciúme, a raiva... tudo evaporou no atrito do silicone.
— Não para... por favor, não para... — ela implorava com a voz quase sumindo.
Acelerei as estocadas do dildo e o vaivém dos dedos na buceta. A Carol gozou com as coxas travadas e o corpo inteiro em espasmo, um orgasmo violento que fez o cu dela sugar o dildo com força enquanto ela gemia sem fôlego.
Quando ela amoleceu de vez, retirei o dildo com cuidado, deixei o brinquedo em cima da toalha e me deitei do lado dela, passando o braço pela cintura enquanto ela tentava voltar a respirar.
Ficamos assim por uns dois minutos, em silêncio.
Então ela virou o rosto pra mim. Olhos molhados, não de choro — de intensidade. Me encarou por um longo segundo e falou com aquela voz grave e rouca dela:
— Ainda tô puta com você.
— Eu sei — respondi.
— Mas você tem as mãos mais perversas dessa cidade — ela completou, fechando os olhos.
Dei um beijo na testa dela e não disse nada.
Porque honestidade tem hora certa, e aquela noite não era a hora.
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A discussão nunca foi retomada daquela forma. A gente não resolveu, a gente contornou. Eu era especialista nisso.
Mas a suspeita da Carol ficou ali, quieta, como uma variável não resolvida numa equação que ela ia carregar por meses. Ela sabia que eu havia mentido pelo menos em parte. E eu sabia que ela sabia.
Esse tipo de silêncio entre duas mulheres inteligentes é uma faca de dois gumes: mantém a paz e vai aprofundando o corte por baixo, devagarzinho, sem que ninguém perceba a ferida crescer.
Naquela noite, com a Carol dormindo encostada no meu ombro, eu fechei os olhos e fiquei escutando o barulho da ventilação do quarto.
O celular estava em cima do criado-mudo, tela pra baixo, em silêncio.
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