Entre Quedas e Recomerços 6
— Prazer, Sofy. Meu nome é Helena. Venha tomar café da manhã.
Apontei para a mesa.
— Também comprei uma escova de dentes nova para você. Pode pegar uma roupa minha para se vestir.
Ela me olhou por alguns segundos.
— Obrigada.
Depois que ela voltou, tomamos o café da manhã em silêncio.
Eu percebia que ela ficava me encarando.
Depois de alguns minutos, não aguentei mais.
— O que houve? Pode perguntar o que quiser.
Ela ficou um pouco sem jeito.
— Você mora aqui?
— Não.
Ela franziu a testa.
— Então...
— Eu te trouxe para a casa de outra pessoa sem ser a minha.
Ela fez uma expressão de surpresa.
— Que grossa.
E voltou a comer.
Ficamos novamente em silêncio.
Depois de algum tempo, olhei para ela.
— Desculpa se te magoei. É que faz muito tempo que não converso ou passo tempo com uma pessoa.
Ela me olhou.
— Nós somos estranhas.
Fiquei em silêncio.
— Por que você não me conta a sua história?
Olhei para o relógio.
— Olha, garota... eu não te conheço. Eu só te ajudei.
Levantei-me.
— Estou atrasada para o meu trabalho.
Peguei minhas coisas.
— Pode ficar aqui até quando quiser.
E saí para trabalhar.
No dia seguinte, meu treinador me chamou.
— Olha, garota... por que você está nesse mundo clandestino?
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Então contei tudo.
Contei sobre o orfanato.
Sobre ter saído de lá.
Sobre precisar de dinheiro.
Sobre as lutas.
Sobre como havia começado a treinar.
Ele ouviu tudo sem me interromper.
Quando terminei, ele apenas disse:
— Vamos ver a sua casa.
Levei-o até lá.
Quando chegamos, ele olhou ao redor.
Depois de alguns segundos, falou:
— Você não vai mais morar aqui.
Olhei para ele.
— O quê?
— Venha comigo.
E foi assim que comecei a morar com meu treinador.
Com o passar do tempo, deixamos de ser apenas mestre e discípula.
Também nos tornamos amigos.
Nós dois éramos muito calados.
Cada um ficava no seu canto.
Mas sempre conversávamos quando era necessário.
Aquela rotina continuou por bastante tempo.
Tivemos alguns dias tranquilos.
Dias em que nada acontecia.
E, para mim, isso já era suficiente.
Eu só queria paz.
Mas, como sempre, nada fica em paz na minha vida por muito tempo.
No dia 30 de julho de 2018, cheguei em casa por volta das 17h50.
Entrei.
— Mestre?
Tudo estava em silêncio.
Achei estranho.
Fui tomar banho.
Às 18h45 daquela noite, ouvi a porta abrir.
Meu mestre entrou correndo.
Havia sangue e hematomas pelo corpo dele.
— Mestre!
Ele olhou para mim.
— Corre!
Eu não entendi.
Fui até ele para tentar ajudá-lo.
Foi quando três homens apareceram.
Eles estavam armados com facas, facões e armas de fogo.
Meu mestre se colocou na minha frente.
Ele atacou dois deles rapidamente.
Depois olhou para mim.
— Sai daqui!
Eu obedeci.
Comecei a correr para procurar ajuda.
Então ouvi um disparo.
Parei.
Olhei para trás.
Meu mestre estava de joelhos.
Voltei.
Quando cheguei mais perto, vi que ele havia sido baleado.
Um dos homens olhou na minha direção e começou a ir embora.
Corri atrás dele.
Quando tentei atacá-lo, outros dois apareceram e me atingiram.
Eu lutei contra eles.
Consegui escapar e continuei tentando alcançar o homem.
Ele se virou.
— Você quer morrer também?
Continuei correndo em sua direção.
— Então morra também!
Ele disparou.
Senti um impacto no peito.
Mas continuei.
Outro disparo atingiu minha barriga.
Mesmo assim, continuei avançando.
Quando alcancei um dos homens que eu havia derrubado, peguei uma das facas.
Corri na direção daquele que estava fugindo.
Outro disparo atingiu minhas costelas.
Ele começou a ir embora.
Joguei a faca.
Ela atingiu seu ombro.
— Porra, garota! Você não morre, não?
Ele disparou novamente.
Dessa vez, minha perna foi atingida.
Caí.
Minha visão começou a ficar escura.
Tudo ficou distante.
Ouvi uma sirene se aproximando.
Depois outra.
Começou a ficar frio.
Muito frio.
Fechei os olhos.
Minha última lembrança foi pensar:
Mestre...
Depois, tudo ficou escuro.
---
Oito meses depois...
Acordei.
Eu estava entubada.
Tentei me mexer.
Uma dor alucinante percorreu meu corpo.
Uma enfermeira apareceu imediatamente.
— Doutor!
O médico entrou rapidamente.
Eu tentei falar, mas não consegui.
Minha visão ficou escura novamente.
Desmaiei.
Quando acordei outra vez, estava em uma sala completamente branca.
Olhei ao redor.
Vi meu mestre.
E mais duas pessoas.
Um homem e uma mulher.
Eu não conseguia enxergar seus rostos direito.
O casal olhou para mim.
— Ainda não, minha filha.
Fiquei confusa.
Meu mestre se aproximou.
— Volte, minha discípula.
Fechei os olhos.
Quando despertei novamente, estava em uma sala cercada por médicos.
Havia também um policial.
Ele começou a me fazer perguntas.
Eu estava confusa.
Não entendia o que estava acontecendo.
Então ele começou a explicar.
Uma organização criminosa europeia chamada 'Ndrangheta era extremamente poderosa.
Segundo ele, as autoridades estavam tentando prendê-los havia algum tempo.
Depois veio a parte que mudou tudo.
Ele me contou que meus pais haviam sido assassinados.
Eu fiquei em silêncio.
— Seus pais estavam envolvidos em uma empresa de tecnologia militar.
Fiquei olhando para ele.
— Eles estavam atrapalhando os negócios dessa organização.
Ele fez uma pausa.
— Por isso foram mortos.
Meu coração apertou.
Meus pais.
As pessoas que eu passei tantos anos tentando lembrar.
As pessoas que eu pensei que havia perdido em um simples acidente.
A verdade era muito maior.
Eu não sabia o que dizer.
Então ele apresentou um homem vestido de preto.
— Ele é o mordomo da família.
O homem fez uma pequena reverência.
— Farei tudo o que a senhora precisar.
Olhei para ele.
— É mesmo?
Ele assentiu.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então respondi:
— Então vamos destruir essa organização que tirou tudo de mim.
— Como desejar, senhora.
Alguns dias depois, recebi alta.
Quando cheguei ao local onde iria ficar, vi vários carros pretos.
Havia também uma limusine preta.
A porta se abriu.
Uma garota saiu.
Eu a conhecia.
Meu coração parou por um instante.
— Sofy?
Ela sorriu.
— Minha senhora.
Ela fez uma pequena reverência.
— Serei sua assistente. Qualquer coisa que precisar, basta pedir.
Fiquei olhando para ela.
— Quero treinar.
Ela esperou.
— Quero me tornar uma arma secreta.
Fechei os punhos.
— E quero descobrir quem tirou tudo de mim.
Sofy ficou séria.
— Está bem, senhora.
— E não me chame de senhora.
Ela me olhou.
— Como devo chamá-la?
— Apenas Helena.
— Sim, Helena.
Depois de algum tempo, olhei para ela.
— Você é aquela garota... Sofy?
Ela sorriu.
— Sou eu mesma.
Fiquei surpresa.
— Eu estava procurando você desde o seu desaparecimento.
Ela respirou fundo.
— Só consegui encontrá-la naquele dia.
Fiquei em silêncio.
— Depois disso, fiquei observando você.
Olhei para ela.
— Até que, no hospital, fiz um teste de DNA.
Ela fez uma pausa.
— E descobri que você realmente fazia parte daquela família.
Eu fiquei séria.
Então disse:
— Certo, Sofy.
Ela esperou.
— Quero ir para casa.
— Claro.
— A partir da próxima semana, você consegue investigar aquela família?
— Consigo.
— E descobrir o que realmente aconteceu dezessete anos atrás?
Sofy assentiu.
— Sim, Helena.
---
Uma semana depois...
— Helena, eu tenho informações sobre aquela família.
Eu estava sentada quando ela entrou.
Levantei os olhos.
— Pois bem.
Sofy colocou alguns documentos sobre a mesa.
Depois mostrou algumas fotografias.
Olhei para a primeira.
Era um casal.
— Eles são Carlos e Amanda.
Passei para a próxima.
Havia dois filhos.
— O filho mais velho se chama Henrik.
Ela mostrou outra fotografia.
— E esta é Ana Caroline.
Fiquei olhando para as fotos.
Carlos.
Amanda.
Henrik.
Ana Caroline.
Aquela era a família.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Então peguei a fotografia de Ana Caroline.
Olhei para ela.
Uma ideia começou a surgir na minha cabeça.
Eu precisava descobrir o que realmente havia acontecido.
Precisava descobrir a verdade.
E, para isso, precisava chegar perto daquela família.
Olhei novamente para a fotografia.
— Eu vou me aproximar deles.
Sofy ficou em silêncio.
— Vou entrar nessa família.
Olhei para a fotografia de Ana Caroline.
— E vou destruir tudo aos poucos.
Fechei a pasta.
Depois olhei para Sofy.
— Comece a preparar tudo.
Ela assentiu.
— Sim, Helena.
Pela primeira vez, eu tinha um objetivo.
Descobrir a verdade.
Descobrir quem matou meus pais.
E descobrir por que minha vida havia sido destruída antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo.
Eu passei quinze anos presa dentro de um orfanato.
Passei um ano tentando construir minha própria vida.
Agora eu estava pronta para descobrir de onde realmente tinha vindo.
E não pretendia parar até descobrir toda a verdade.
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