A nova realidade que mudou o mundo parte 166 - Liberdade para sempre
Após treze meses no Buraco Negro, como eles chamam o bordel para mendigos e homens pobres, Julie já não era mais a mesma.
Seu corpo, antes jovem e bonito, agora era uma ruína marcada. A pele, outrora clara e macia, estava permanentemente suja, com cicatrizes de tapas, mordidas e chicotadas. Seus seios, antes firmes, pendiam levemente, marcados por hematomas antigos. Sua buceta e seu cu estavam permanentemente alargados, vermelhos e sensíveis, vazando porra mesmo quando não havia ninguém. O rosto, antes delicado, tinha olheiras profundas, lábios rachados e uma expressão vazia, quase morta.
Mas o pior estava dentro, os traumas a consumiam. O pai, o homem que um dia ela amou e temeu, havia sido o catalisador de tudo. Ele a transformou em puta, a fez gozar enquanto a quebrava, a corrompeu até ela quase se tornar um monstro como ele. A lembrança dele, castrado e mudo na rua, ainda queimava. Ela se sentia culpada por ter sentido prazer com ele. Culpada por tê-lo traído, culpada por ainda, em alguns momentos de fraqueza, sentir falta daquele prazer doentio.
A avó, morta de forma tão cruel no tambor de fezes, era uma imagem que nunca saía de sua mente. Ver a mulher que um dia a carregou no colo agonizando lentamente, devorada por vermes, enquanto ela assistia impotente, destruiu algo dentro dela. Julie sonhava com aquilo quase todas as noites.
A mãe, Caroline, foi o golpe final. Ver a mulher que mais amava no mundo ser usada, engravidada, torturada e finalmente morta com requintes de maldade que nem no inferno ela imaginava existir, partiu o que restava de sua alma. A imagem de sua mãe grávida, com a barriga enorme, sendo humilhada até o último suspiro, era uma ferida aberta que nunca cicatrizava.
E o bordel… treze meses servindo mendigos sujos, rudes e desalmados. Homens fedendo a cachaça, lixo e suor azedo. Paus sujos, muitas vezes com restos de merda, enfiados em sua boca, buceta e cu sem qualquer cuidado. Cuspiam, mijavam, batiam e gozavam nela como se fosse um objeto. Ela era usada dezenas de vezes por dia, muitas vezes por homens que mal lavavam o corpo. Seu corpo se tornou um receptáculo constante de porra velha, mijo e humilhação.
Julie não falava mais, seus olhos estavam vazios. Ela obedecia automaticamente, abrindo a boca, empinando a bunda, chupando paus imundos sem resistência. Seu espírito havia sido esmagado. A menina que um dia sonhou com liberdade, que amou a mãe e a avó, que teve uma vida antes de tudo isso, havia desaparecido. Agora existia apenas uma casca, uma puta pública, uma coisa quebrada que ainda respirava.
Treze meses no bordel para mendigos haviam feito o que nem a fazenda, nem as torturas, nem a morte da família conseguiram completamente. Eles haviam matado Julie por dentro, e o pior era que ela ainda estava viva, continuava servindo, continuava aguentando, porque não havia mais nada além disso, apenas o próximo pau sujo, o próximo dia de humilhação, e a certeza de que, no final, ela nunca mais seria a mesma. Nem mesmo um pouco.
Após treze meses no Buraco Negro, Julie havia se tornado irreconhecível. Ela havia ficado feia. Os mendigos, que antes disputavam para usar seu corpo, agora a recusavam com nojo. “Essa loira já está podre”, diziam. “Nem meu pau quer mais essa buceta destruída.” Ela era vista como uma mercadoria vencida, um buraco gasto demais até para os mais miseráveis. Não servia mais para ser estuprada. E também não servia para virar ração, seu corpo estava fraco, doente, contaminado demais para ser aproveitado. Então, veio a decisão final.
Julie foi levada de volta para o último lixão da região, o mesmo campo aberto e desolado onde a rebelião havia sido esmagada meses antes. O lugar onde ela havia visto sua avó morrer de forma tão cruel dentro do tambor de fezes. Ela foi jogada lá, sozinha, sem correntes, sem mordaça, sem plug. Apenas uma corda amarrando suas mãos atrás do corpo, apertada e esmagando o pulso, e uma algema de tornozelos, velha e enferrujada, que não a deixa andar, apenas rastejar pelo chão coberto de restos de rebeldes, e mulheres descartadas depois.
O campo ainda cheirava a morte. Corpos em decomposição ainda jaziam espalhados, agora reduzidos a ossos e carne podre. Urubus voavam em círculos. O tambor onde sua avó agonizou ainda estava lá, enferrujado, com restos de fezes secas e ossos, que ela não sabia se eram de sua avó, ou outra desgraçada que teve o mesmo fim.
Julie se arrastou até perto dele. Sentou-se no chão imundo, encostada no tambor, e olhou para o céu cinzento. Não havia mais lágrimas, não havia mais dor, apenas um vazio profundo. Ela havia perdido tudo, o pai que a corrompeu, a avó que viu morrer, a mãe que sofreu ao seu lado até o fim. E agora, ela própria, descartada como lixo. Enquanto o sol se punha sobre o lixão, Julie fechou os olhos, pela primeira vez em muito tempo, sentiu paz. Não era a paz da liberdade, era a paz de quem finalmente havia chegado ao fim. E ali, no mesmo lugar onde tudo começou a desmoronar para sua família, Julie vai esperar a morte, silenciosa, quebrada. Finalmente em casa.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de um vermelho sangrento que logo deu lugar ao cinza e depois ao breu total, Julie sentiu o peso de tudo cair sobre ela de uma vez. A fome era uma dor surda e constante no estômago, um vazio que corroía por dentro. A sede queimava a garganta, deixando a língua inchada e áspera. Sua pele, queimada pelo sol forte do dia, ardia como se ainda estivesse sob as chamas. Cada movimento provocava fisgadas dolorosas.
O silêncio do lixão, que no início parecia quase pacífico, aos poucos foi sendo preenchido por outros sons. O zumbido baixo dos insetos. O farfalhar de ratos correndo entre os corpos em decomposição. O vento leve trazendo o cheiro doce e podre da morte.
Julie estava sentada encostada no tambor enferrujado onde sua avó havia morrido. Olhou para o céu nublado, sem lua, sem estrelas, um breu absoluto que parecia engolir o mundo inteiro. Uma brisa suave passou por seu rosto sujo, quase como um afago. Ela fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, sua mente vagou para longe da dor.
Imaginou como tudo poderia ter sido diferente, se o avião nunca tivesse aterrissado, se o pai nunca tivesse traído a família, se a rebelião tivesse vencido, se ela, a mãe e a avó tivessem conseguido fugir juntas, se as gêmeas nunca tivessem sido compradas, se ela nunca tivesse se tornado o monstro que se tornou por um tempo. Imaginou uma vida simples, numa casa pequena, risadas com a mãe e a avó contando histórias antigas. Ela e as gêmeas crescendo como irmãs normais. Um futuro em que não existisse dor, correntes, humilhação ou morte. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Não era de tristeza, era de saudade de algo que nunca existiu.
O vento soprou novamente, mais forte, como se o universo estivesse lhe dando um último carinho antes do fim. Julie sorriu fracamente, os olhos ainda fechados. E ali, no meio do lixão de corpos, cercada pelo cheiro de podridão e o barulho dos ratos, ela finalmente encontrou um pouco de paz.
De madrugada, quando a escuridão era absoluta e o frio da noite se instalava sobre o lixão, os ratos vieram. Eram grandes, ousados, atraídos pelo cheiro de carne viva enfraquecida. Julie estava deitada de lado, encolhida contra o tambor enferrujado, o corpo tão fraco que mal conseguia se mover. Seus braços tremiam quando tentava afastá-los. Eles começaram pelas pernas.
Dentes afiados morderam a pele das coxas, rasgando pequenos pedaços de carne. Julie sentiu a dor aguda, mas não teve forças para gritar. Apenas gemeu baixo, um som rouco e quebrado. Os ratos subiam por suas pernas, atraídos pelo calor do corpo.
Um deles, mais ousado, enfiou o focinho entre suas coxas abertas. Tentou entrar na buceta inchada e destruída. Julie sentiu o focinho frio e úmido pressionando contra sua carne sensível, os bigodes roçando, os dentes pequenos mordiscando os lábios vaginais. Ela tentou fechar as pernas, mas os músculos não obedeciam. O rato mordeu mais fundo, rasgando a pele delicada. Sangue quente escorreu pela coxa. Ela não conseguia impedir.
Seu corpo estava destruído demais, a fraqueza era total. A mente, ainda mais quebrada. Vozes ecoavam dentro da cabeça dela. A voz da mãe, chamando seu nome. A avó sussurrando histórias antigas. O pai rindo, dizendo que ela sempre seria dele. Outras vozes, distorcidas, rindo dela, chamando-a de puta inútil, de lixo, de nada.
A fome era uma dor profunda, constante. Cólicas violentas apertavam seu estômago vazio, fazendo seu corpo se contorcer fracamente. Ela sentia o estômago se contraindo, como se tentasse digerir a si mesmo. A sede queimava a garganta, a língua inchada colada no céu da boca. Julie ficou ali, imóvel, sentindo os ratos morderem suas pernas, tentarem invadir sua buceta, subirem pelo seu corpo.
Não lutava mais, não chorava mais. Apenas olhava para o breu do céu nublado, ouvindo as vozes em sua cabeça. E, pela primeira vez, desejou que os ratos terminassem logo. Que a devorassem, que acabassem com o que restava dela.
Na escuridão profunda do lixão, Julie sentiu, pela última vez, um lampejo de tesão. Era um desejo fraco, doentio, nascido do delírio e da exaustão total. Seu corpo, mesmo destruído, ainda reagiu. Uma onda quente subiu entre suas pernas, um latejar distante na buceta inchada e ferida. Com o pouco de força que restava, ela tentou se esfregar. Apertou as coxas uma contra a outra, movendo o quadril devagar, desesperadamente, buscando um último orgasmo. O plug anal fez falta, os ratos mordiscavam suas pernas, mas ela continuou gemendo baixinho, o corpo tremendo com o esforço.
Não conseguiu. Suas forças se esgotaram completamente, os movimentos ficaram mais lentos, mais fracos, até pararem. Julie fechou os olhos, respirou fundo, uma última vez. O ar estava carregado do cheiro da morte, podridão, carne em decomposição, fezes secas, sangue velho. Era o cheiro de sua avó, de sua mãe, de todas as que morreram ali. Era o cheiro de sua própria vida se desfazendo.
E, com esse último suspiro, tudo acabou. Seu corpo relaxou. O coração, que bateu por tanto tempo em meio à dor, ao medo e à humilhação, deu suas últimas batidas fracas.
Julie morreu ali, sozinha. No mesmo lugar onde viu sua avó morrer, no mesmo lixão onde sua família foi destruída. Sem glória, sem redenção, sem ninguém para chorar por ela. Apenas os ratos, os insetos e a noite silenciosa como testemunhas.
Acabou para ela.
Finalmente.
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