#Lésbica

Entre Quedas e Recomerços 7

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Maluco2

Eu ainda estava no hospital quando recebi aquela notícia.
​O médico entrou no quarto e se aproximou de mim.
​— Olha, Helena. Você teve muita sorte.
​Fiquei olhando para ele.
​— Por cinco milímetros, a bala não perfurou a artéria pulmonar esquerda. Se tivesse acontecido, você provavelmente não teria survived.
​Fiquei em silêncio.
​Ele continuou:
​— A bala que atingiu suas costelas perfurou o seu baço. A que atingiu sua barriga causou danos ao seu intestino, e tivemos que reconstruir parte do seu cólon.
​Olhei para minha perna.
​— E, por último, sua perna sofreu uma fratura no fêmur.
​Ele respirou fundo.
​— Você passou por muita coisa.
​Eu não sabia o que responder.
​— Vai precisar ficar de três a seis meses em acompanhamento intensivo. Como sua família informou que possui uma estrutura adequada em casa, depois dessa primeira fase você poderá continuar parte do tratamento lá.
​Ele fez uma pausa.
​— Sua recuperação completa, porém, pode levar de seis meses a um ano para você começar a recuperar boa parte da sua autonomia. Dependendo da resposta ao tratamento, pode levar até dois anos e meio para uma recuperação mais completa.
​Fiquei olhando para o teto.
​Dois anos e meio.
​Parecia uma eternidade.
​O médico continuou:
​— Também existe a possibilidade de a região atingida pela bala causar problemas cardíacos no futuro, principalmente porque ela passou muito perto de estruturas importantes.
​Ele tentou sorrir.
​— Mas vamos torcer para que isso não aconteça.
​Eu apenas assenti.
​Naquela semana, começaram a observar minha casa.
​Verificaram tudo.
​Adaptaram os cômodos.
​Prepararam o lugar para que eu pudesse continuar meu tratamento quando recebesse alta.
​Mas nada disso tornou as coisas fáceis.
​A recuperação era um inferno.
​A fisioterapia era um inferno.
​As muletas eram um inferno.
​Até respirar parecia mais difícil do que antes.
​Eu não tinha mais o mesmo fôlego.
​Meu corpo parecia não me pertencer.
​Eu precisava reaprender coisas que antes fazia sem pensar.
​Andar.
​Respirar corretamente.
​Mover a perna.
​Fortalecer os músculos.
​Até coisas simples pareciam exigir uma quantidade absurda de esforço.
​E a comida do hospital também não ajudava.
​Era horrível.
​Eu só queria voltar para a minha rotina.
​Queria correr.
​Queria treinar.
​Queria lutar.
​Queria simplesmente conseguir levantar sem sentir dor.
​Mas meu corpo não permitia.
​E agora eu estava ali.
​Mais uma sessão de fisioterapia.
​Mais dor.
​Mais exercícios.
​Mais remédios.
​Mais um dia tentando reconstruir um corpo que havia sido destruído naquela noite.
​Eu estava praticamente vivendo à base de medicamentos fortes para conseguir suportar tudo aquilo.
​Cada movimento doía.
​Cada sessão parecia destruir o pouco de força que eu tinha.
​Mas, depois, eu percebia que estava um pouco mais forte.
​Um pouco melhor.
​Mesmo que quase não desse para perceber.
​Às vezes, durante a fisioterapia, eu fechava os olhos.
​E lembrava daquela noite.
​Meu mestre.
​Os homens.
​Os disparos.
​O sangue.
​A sirene.
​O frio.
​E então vinha aquele pensamento.
​A maldita vontade de ter morrido naquela noite.
​Ou simplesmente de ter ido embora junto com meus pais.
​Mas, logo depois, outro pensamento aparecia.
​Eu ainda estava viva.
​E, se eu estava viva, ainda podia fazer alguma coisa.
​A dor começou a se transformar em raiva.
​A saudade virou combustível.
​Aquela sensação de impotência começou a desaparecer.
​Eu não sabia quanto tempo levaria.
​Não sabia quantos anos seriam necessários.
​Não sabia o que teria que fazer.
​Mas eu sabia de uma coisa.
​Eu iria descobrir a verdade.
​Eu iria descobrir quem realmente matou meus pais.
​E iria descobrir tudo sobre a organização que destruiu a minha vida.
​A "'Ndrangheta" havia tirado meus pais.
​Havia tirado meu passado.
​Havia destruído minha família.
​E, naquela noite, também havia tirado meu mestre.
​Eu não pretendia esquecer nada disso.
​Cada sessão de fisioterapia.
​Cada dor.
​Cada cicatriz.
​Cada noite sem conseguir dormir.
​Tudo aquilo seria uma lembrança.
​Uma lembrança do motivo pelo qual eu precisava continuar.
​Olhei para minhas mãos.
​Ainda tremiam um pouco.
​Fechei os punhos.
​— Eu vou sobreviver.
​Minha voz saiu baixa.
​Mas eu repeti:
​— Eu vou sobreviver.
​Porque, se eu sobrevivesse, poderia descobrir a verdade.
​E, quando finalmente estivesse forte novamente, eu iria atrás daqueles responsáveis.
​Eu ainda não sabia como.
​Ainda não sabia quando.
​Mas uma coisa estava decided.
​Eu não iria desistir.
​Não depois de tudo que havia perdido.
​Não depois de tudo que havia suportado.
​Eu sobrevivi naquela noite por poucos centímetros.
​Agora eu faria esses poucos centímetros valerem a pena.
​Os meses foram se passando lentamente.
​Aos poucos, o chão firme voltou a estar sob meus pés sem a necessidade das muletas. As cicatrizes no meu peito, barriga e perna continuavam ali — marcas profundas que nunca sumiriam —, mas a fraqueza do coma começou a dar lugar a uma nova estrutura.
​Sofy garantiu que eu não dependesse mais apenas da sorte ou do instinto de rua.
​Ela trouxe instrutores de elite para a propriedade.
​— Esqueça as lutas de galpão clandestino — disse o novo treinador de táticas e combate, um ex-agente de operações especiais de poucas palavras. — Você não está mais treinando para aguentar pancada. Está treinando para neutralizar o inimigo no primeiro movimento.
​Sob o comando dele, aprendi manuseio avançado de armas de fogo, desarme rápido de lâminas, técnicas de combate corpo a corpo militar e leitura de linguagem corporal. Eu já não lutava apenas com raiva; lutava com técnica, precisão e cálculo.
​Porém, o desafio mais complexo não foi o esforço físico. Foi aprender a dominar o comportamento humano.
​— Você é uma garota atraente, Helena, mas sua postura é de quem quer matar qualquer um que se aproxime a menos de dois metros — disse Sofy certo dia, colocando uma pasta pesada sobre a mesa de centro. — Para derrubar a 'Ndrangheta, você não vai entrar atirando pela porta da frente. Você precisa infiltrar. E o seu alvo principal não vai ser vencido com soco.
​Ela abriu a pasta. No topo estava a fotografia de Ana Caroline.
​— Ana Caroline é bissexual, frequenta os eventos mais exclusivos da alta sociedade e é atraída por pessoas enigmáticas, elegantes e dominantes — explicou a especialista em inteligência interpessoal que Sofy contratou para me treinar. — Você não vai se aproximar como uma estranha qualquer. Você vai usar o desejo, a atenção calculada e o poder como uma armadilha.
​Para mim, que passei a vida fechada para o mundo e fugindo do toque das pessoas desde a infância, aquilo exigiu uma mudança extrema. Aprendi a controlar meu olhar, o tom de voz, a postura física e a criar uma aura intocável. Aprendi a transformar minha sexualidade em uma ferramenta de manipulação e controle psicológico.
​Por fim, veio o pilar que me daria entrada ao topo do mundo corporativo: a criação da nossa empresa fachada.
​Utilizando os recursos e o patrimônio recuperado que meus pais haviam deixado, Sofy e eu fundamos a Vanguard Tech — uma holding de investimento e tecnologia de ponta.
​No dia em que vesti meu primeiro terno sob medida para assumir a presidência da empresa, parei diante do espelho.
​Olhei para a garota de cabelos negros com pontas cacheadas e olhos azul-escuros. A menininha assustada do orfanato, que chorava com as roupas que pinicavam e tentava buscar o rosto dos pais nas nuvens, finalmente havia ficado no passado.
​Aos vinte anos, eu tinha o treinamento, a empresa, a fachada bilionária e a determinação de uma arma pronta para ser disparada.
​Peguei a foto de Ana Caroline sobre a mesa.
​— Está tudo pronto — falei para Sofy.
​— Então é hora de fazer o primeiro contato — respondeu Sofy.
​Olhei para o espelho uma última vez. A caça estava prestes a começar.

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