#Lésbica

Entre Quedas e Recomerços

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Maluco2

Já fazia três dias que o rosto corado da Marina não saía da minha cabeça.

Eu não entendia o motivo.

Sempre que fechava os olhos, lembrava dela ficando vermelha depois que eu disse que ela era linda.

E, desde então, Marina parecia ter começado a me provocar ainda mais.

Eu não entendia aquela garota.

Ela definitivamente tinha alguma coisa fora do lugar.

— Helena!

Ela gritou meu nome no meio de todo mundo.

Meu rosto esquentou na mesma hora.

Saí praticamente correndo até ela e tampei sua boca com a mão.

— Garota, você não sabe ser menos escandalosa, não?

Ela tentou falar alguma coisa com a minha mão sobre a boca.

— O quê? O que você está dizendo?

Ela pegou minha mão e tirou da boca.

— Ufa! Você estava me sufocando.

Ela sorriu.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

— Você é doida, garota.

Virei-me e saí dali.

Ela veio para o meu lado e começou a me seguir.

Fomos até a biblioteca.

Eu me sentei e comecei a ler meus livros.

Marina ficou quieta.

Aquilo me deixou desconfiada.

Ela nunca ficava quieta.

Depois de alguns minutos, olhei para o lado.

Ela estava dormindo.

— Só me faltava essa...

Tirei meu casaco e coloquei sobre as costas dela.

Assim que tentei voltar a ler, ela segurou minha mão.

— Te peguei!

Apertei os dedos entre as sobrancelhas.

— Só me faltava essa...

Ela começou a rir.

Eu tentei puxar minha mão, mas ela continuou segurando.

— Você é muito estranha.

— E você gosta.

Olhei para ela.

Não respondi.

Alguns dias depois, Marina apareceu correndo até mim.

— Helena!

— O que foi?

Ela parou na minha frente e perguntou, do nada:

— Você acha os garotos bonitos?

Fiz uma cara de espanto.

— De onde veio isso do nada?

Ela começou a explicar que estava conversando com algumas garotas e uma delas perguntou quem ela achava bonito.

Marina disse que não sabia e que nem se importava.

Mas ficou curiosa.

Então resolveu perguntar para mim para saber a minha opinião.

Eu a olhei com uma cara de paisagem.

— E?

Ela insistiu:

— E? O que você acha, Helena? Quem você acha bonito?

— Nenhum.

— Nenhum?

— Nenhum.

Ela ficou pensando.

— Você nunca ficou horas pensando em uma pessoa?

— Não.

— Nunca ficou encarando alguém pensando que a pessoa tinha uma boca bonita ou alguma coisa assim?

Balancei a cabeça.

— Não.

Fiquei em silêncio por alguns segundos.

Depois acrescentei:

— Se eu fosse pensar em alguém bonito... provavelmente seriam as garotas.

Marina ficou quieta.

Eu também.

Então olhei para ela.

Seus olhos verdes.

Seus cabelos loiro-morango.

Seus lábios.

Meu rosto começou a esquentar.

Ela percebeu.

— Helena?

— Hum?

— O que foi?

— Nada.

Ela estreitou os olhos.

— Você está olhando para mim.

Desviei o olhar.

— Não estou.

Ela sorriu.

— Está sim.

Fiquei em silêncio.

Marina aproximou o rosto.

— Está pensando alguma coisa?

Eu não respondi.

— Helena?

Suspirei.

— Pensando bem...

Ela esperou.

— Você é bonita mesmo.

Marina ficou vermelha.

Muito vermelha.

— Você está falando sério?

— Estou.

Ela sorriu.

A partir daquele momento, alguma coisa mudou entre nós.

Não aconteceu de uma hora para outra.

Foi devagar.

Começamos a passar mais tempo juntas.

Ela me procurava na biblioteca.

Eu procurava por ela no pátio.

Conversávamos durante as aulas quando conseguíamos.

Às vezes, ficávamos apenas sentadas em silêncio.

Era estranho.

Eu tinha passado tantos anos sozinha que não sabia como era ter alguém ao meu lado.

Marina parecia gostar da minha companhia.

E eu comecei a gostar da dela.

Até que um dia ela perguntou:

— Helena... você gosta de mim?

Eu fiquei olhando para ela.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Gosto.

Ela sorriu.

— Eu também gosto de você.

Ficamos em silêncio.

Então nos aproximamos.

Nosso primeiro beijo foi completamente desajeitado.

Batemos os dentes.

Eu me afastei na mesma hora.

— Ai! Esse é o seu dente!

Marina colocou a mão na boca.

— E o seu também não é exatamente macio!

Começamos a rir.

Depois tentamos novamente.

Dessa vez foi melhor.

Muito melhor.

Com o passar dos dias, fomos aprendendo a ficar juntas.

Eu já não me importava quando ela falava demais.

Na verdade, comecei a gostar.

Ela conseguia me fazer rir.

Algo que eu quase nunca fazia naquele lugar.

E, pela primeira vez, eu tinha alguém.

Marina.

Minha primeira amiga.

Meu primeiro amor.

A pessoa que conseguiu chegar perto de mim quando ninguém mais conseguia.

Os meses passaram.

Quando percebi, meu aniversário de dezoito anos estava se aproximando.

Eu já tinha dezoito anos quando nosso relacionamento ficou mais sério.

Mesmo assim, Marina ainda conseguia me deixar nervosa com um simples olhar.

Uma noite, ficamos conversando por muito tempo.

Falamos sobre nossos sonhos.

Sobre o que faríamos quando saíssemos daquele lugar.

Sobre como seria nossa vida.

Naquela noite, ficamos juntas de uma maneira mais íntima, mas isso é algo que prefiro deixar apenas entre nós.

Na manhã seguinte, acordei ao lado dela.

Fiquei olhando para o rosto de Marina.

Ela ainda estava dormindo.

Sorri.

Por alguns minutos, esqueci completamente onde estávamos.

Esqueci o orfanato.

Esqueci as crianças.

Esqueci tudo.

Até que ouvi passos no corredor.

Voltei à realidade.

Pouco tempo depois, aconteceu algo que mudou tudo.

Faltavam quatro meses para o meu aniversário de dezenove anos.

Havia uma feira no orfanato.

As crianças estavam espalhadas pelo lugar.

Eu e Marina estávamos juntas.

Em determinado momento, alguém nos viu.

Era uma das responsáveis.

Ela ficou parada por alguns segundos.

Eu percebi imediatamente que alguma coisa estava errada.

Marina também.

Depois disso, começaram os problemas.

Disseram que Marina teria que ir embora.

Eu não podia aceitar.

Não depois de tudo.

Não depois de finalmente ter encontrado alguém.

Eu sabia que ela não tinha culpa.

Então tomei uma decisão.

Uma decisão que eu sabia que mudaria minha vida.

Secretamente, troquei de lugar com ela.

Na minha última noite naquele lugar, fui até o quarto de Marina.

Ela estava confusa.

— Helena, o que você está fazendo?

Eu apenas a abracei.

— Não pergunta.

Ela percebeu que havia alguma coisa errada.

Ficamos juntas por alguns minutos.

Eu queria guardar aquele momento para sempre.

Depois me afastei.

Coloquei uma carta sobre a cama.

— O que é isso?

— Leia depois.

Ela olhou para mim.

Eu sorri.

— Promete que vai ficar bem?

Ela não respondeu.

Apenas me abraçou.

Eu saí do quarto.

Antes de ir embora, olhei uma última vez para aquele lugar.

Passei anos ali.

Tinha chegado ainda criança.

Agora estava indo embora como uma pessoa completamente diferente.

Eu tinha perdido meus pais.

Tinha passado anos sozinha.

Tinha sofrido.

Tinha chorado.

Mas também tinha encontrado Marina.

E isso era algo que ninguém poderia tirar de mim.

Na carta, deixei apenas algumas palavras.

Queria que ela soubesse que quem estava saindo dali era eu.

Que ela não deveria se culpar.

E que eu desejava, de todo o meu coração, que ela ficasse bem e fosse feliz.

Também sabia que havia um casal interessado em cuidar dela.

Talvez aquilo fosse o começo de uma vida melhor para Marina.

Eu queria acreditar nisso.

Então fui embora.

Sem olhar para trás.

Pela primeira vez em muitos anos, eu estava saindo daquele lugar.

Eu não sabia para onde iria.

Não sabia o que aconteceria comigo.

Mas, enquanto caminhava para longe do orfanato, uma coisa eu tinha certeza:

Eu não era mais aquela menina assustada que tinha chegado ali tantos anos atrás.

E, pela primeira vez, eu estava livre.

Comentários (1)

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  • Maluco2: Oque vcs tem achado do conto? Alguma dica, algum erro esto a disposto ouvir e concertar

    Responder↴ • uid:gy0ixpk6qni