Entre Quedas e Recomerços
Bom dia, boa tarde e boa noite!
Meu nome é Maluco e estou aqui porque o autor Forrest_Gump, junto com o casal mais famoso aqui do site, Lore e Jubs, me incentivaram, sem querer, a escrever este conto.
Então... vamos começar?
Eu não lembro de muita coisa daquela época.
Só lembro que meus papais sofreram um acidente e morreram.
Depois disso, fui levada para um orfanato no Rio de Janeiro.
Eu era muito pequena naquela época, então algumas lembranças são confusas. Às vezes, lembro de alguma coisa e não sei dizer se aconteceu exatamente daquele jeito ou se minha cabeça acabou misturando as coisas com o passar do tempo.
Mesmo assim, algumas lembranças ficaram.
Eu lembro do rosto da minha mamãe.
Lembro da voz do meu papai.
E lembro do meu ursinho.
O resto parece estar escondido em algum lugar da minha memória.
O orfanato era uma mansão velha e muito grande. Ela parecia estar caindo aos pedaços. As paredes tinham marcas e algumas partes da pintura estavam descascadas. As janelas eram grandes, mas algumas pareciam velhas demais.
No quintal tinha uma árvore enorme com um balanço, e dava para ouvir as crianças brincando e os adultos andando de um lado para o outro.
Eu fiquei olhando para aquele lugar por alguns segundos.
Era tudo muito grande.
Grande demais para mim.
Eu não conhecia ninguém.
Não conhecia aquele lugar.
Não sabia onde estava.
E, principalmente, não sabia onde meus papais estavam.
Quando entrei, uma luz muito forte fez meus olhos apertarem sozinhos. O cheiro de mofo fez minha cabeça doer e eu não gostei nem um pouquinho daquele cheiro.
Eu queria voltar para casa.
Queria minha mamãe.
Queria meu papai.
Mas ninguém me levou de volta.
Eu apenas continuei andando.
De repente...
DONG!
Um sino tocou.
Meus ouvidos começaram a doer, meu corpo tremeu e eu comecei a chorar.
Eu não sabia de onde aquele barulho tinha vindo.
Era alto.
Muito alto.
Pelo menos para mim.
Eu tampei os ouvidos com as duas mãos, mas ainda conseguia escutar o som.
Foi quando um garoto passou por mim e falou:
— Chorona.
Eu não sabia o que aquilo queria dizer. Só fiquei olhando para ele, sem entender nada.
Ele continuou andando e nem olhou para trás.
Eu fiquei parada por alguns segundos.
Depois continuei andando.
Quando entrei no quarto, descobri que não iria dormir sozinha.
Tinha mais duas camas de beliche.
A minha ficava do lado esquerdo da porta, bem perto da janela.
Eu olhei para a cama.
Depois olhei para as outras.
Não conhecia nenhuma das crianças que estavam ali.
O quarto tinha cheiro de poeira, e os lençóis também.
Meu nariz começou a coçar e eu espirrei algumas vezes.
— Atchim!
Uma das meninas que estava no quarto olhou para mim.
Eu olhei de volta.
Ela não falou nada.
Então eu também não falei.
Fiquei olhando para a minha cama.
Ela era pequena.
Pelo menos parecia pequena para mim.
Eu coloquei minhas mãos sobre o lençol e senti o tecido.
Não era igual ao que eu tinha em casa.
Eu lembrava da minha cama.
Lembrava do cheiro do meu quarto.
Lembrava de dormir perto dos meus papais.
Agora tudo era diferente.
Quando me deram uma roupa para vestir, eu não gostei.
Ela pinicava minha pele e eu queria tirar, mas me lembrei de que meus papais não deixavam que eu ficasse sem roupa.
Então eu coloquei mesmo assim.
Eu não gostava daquela roupa.
Ela era desconfortável.
Fiquei mexendo nela, tentando encontrar uma posição em que não pinicasse tanto.
Não consegui.
Mesmo assim, fiquei quieta.
Eu não queria que brigassem comigo.
Depois disso, voltei para o quarto.
Eu não sabia o que deveria fazer.
Então sentei na cama.
Fiquei olhando para a janela.
Lá fora, o céu estava começando a ficar escuro.
Algumas crianças ainda estavam no quintal.
Eu conseguia ouvir as vozes delas.
Algumas riam.
Outras gritavam.
Eu não entendia sobre o que estavam falando.
Aos poucos, o lugar foi ficando mais silencioso.
As crianças começaram a voltar para dentro.
Algumas passaram pelo quarto.
Outras entraram.
Eu continuei sentada na minha cama.
Ninguém veio falar comigo.
Eu também não sabia o que dizer.
Então fiquei quietinha.
Foi assim que passei minha primeira noite naquele lugar.
Eu me deitei e fiquei olhando para o teto.
O teto era diferente do meu.
Tudo era diferente.
Eu tentei dormir.
Mas não consegui logo.
Escutei passos no corredor.
Depois uma porta fechando.
Depois outra.
Alguma criança começou a chorar em algum quarto.
Eu fiquei olhando para a janela.
Apertei os olhos.
Queria que, quando eu abrisse, estivesse em casa.
Mas quando abri novamente, eu ainda estava ali.
Então abracei meu ursinho.
Ele tinha sido um presente da minha mamãe.
Apertei ele contra o meu peito.
— Mamãe...
Foi a única coisa que consegui dizer.
Depois fechei os olhos.
No dia seguinte...
DONG!
O sino tocou de novo.
As portas começaram a abrir e fazer barulho.
Eu fiquei com medo e me escondi debaixo da coberta.
Eu não queria levantar.
Queria continuar dormindo.
Talvez, se eu dormisse bastante, quando acordasse meus papais estariam ali.
Mas não adiantou.
Uma freira entrou no quarto e puxou minha coberta.
— O que você está fazendo aí ainda, Helena? Vamos levantar, arrumar esse quarto e tomar café da manhã.
Eu saí da cama.
Ainda estava com sono.
Olhei para a freira e depois para a cama.
Eu não queria sair dali.
Mas saí.
Fui para o banheiro.
A luz branca ainda incomodava meus olhos, mas, depois de um tempinho, comecei a me acostumar.
Foi então que olhei para o espelho.
Eu vi uma menina de cabelos negros, lisos e cacheados nas pontinhas, que iam até o meio das costas.
Meus olhos estavam vermelhos porque eu tinha chorado muito durante a noite.
Eles eram de um azul bem escuro.
Meu rosto tinha algumas pintinhas.
Eu também tinha algumas pelo resto do corpo.
Fiquei olhando para o espelho por um tempinho.
Não sabia se aquela menina no espelho era bonita ou feia.
Eu só sabia que era eu.
Toquei meu rosto.
Depois olhei para meus cabelos.
Mexi em algumas mechas e fiquei observando como elas caíam.
Depois tomei banho, escovei os dentes e fui tomar café da manhã.
Quando cheguei lá, percebi que ia ser difícil.
Tinha frango e batata-doce, mas eu não gostava.
Então procurei outra coisa.
Ovos?
Não.
Arroz?
Não.
Macarrão?
Também não.
As opções eram poucas, mas eu consegui encontrar alguma coisa para comer.
Segurei meu prato e olhei ao redor.
As crianças estavam sentadas em grupos.
Algumas conversavam.
Outras riam.
Algumas pareciam estar ali há muito tempo.
Eu não conhecia nenhuma delas.
Quando vi uma mesa com algumas crianças, fui até lá.
— Posso sentar aqui?
As crianças olharam para mim.
Uma delas respondeu:
— Não. Aqui não.
Eu não entendi.
Olhei para a cadeira vazia.
Depois olhei novamente para eles.
Não falei nada.
Então fui para outra mesa.
— Posso sentar aqui?
— Não.
Eu fiquei parada por um instante.
Depois fui para outra.
— E aqui?
— Também não.
Eu fiquei triste.
Não sabia por que ninguém queria que eu sentasse com eles.
Eu tinha feito alguma coisa?
Olhei para minha roupa.
Não tinha nada de errado.
Olhei para minhas mãos.
Também não tinha nada.
Então saí de lá e fui me sentar na escada.
Comi sozinha.
Enquanto comia, fiquei olhando para as outras crianças.
Elas conversavam umas com as outras.
Eu queria conversar também.
Mas não sabia como.
Então fiquei quietinha.
Depois do café, era hora de estudar.
Fui para a sala de aula.
O caminho até lá parecia grande.
Eu ainda não conhecia direito o lugar.
Havia corredores, portas e salas.
Eu tentava prestar atenção para não me perder.
Quando entrei na sala de aula, algumas crianças começaram a rir e cochichar.
Eu olhei para elas, mas não sabia por que estavam rindo.
Será que tinha alguma coisa no meu rosto?
Olhei para minhas mãos.
Não tinha nada.
Passei a mão no rosto.
Também não senti nada.
Então fiquei quietinha e fui sentar.
A professora começou a falar.
Eu tentei prestar atenção.
Mas minha cabeça estava longe.
Eu pensava nos meus papais.
Pensava na minha casa.
Pensava no meu quarto.
Pensava em como tudo tinha mudado tão rápido.
Eu não entendia por que precisava ficar naquele lugar.
Não entendia por que meus papais não estavam comigo.
Eu queria perguntar.
Mas não sabia para quem.
Então fiquei quieta.
E foi assim por muitos dias.
Depois vieram as semanas.
E os meses.
Eu comecei a aprender a rotina daquele lugar.
Acordar.
Arrumar a cama.
Tomar café.
Estudar.
Almoçar.
Estudar novamente.
Tomar banho.
Jantar.
Dormir.
Todos os dias pareciam iguais.
Eu aprendi o horário do sino.
Aprendi os sons das portas.
Aprendi os passos das freiras.
Aprendi até quais partes do corredor faziam mais barulho quando alguém passava.
Mas eu ainda não tinha aprendido a gostar daquele lugar.
Eu sempre perguntava pelos meus papais.
— Quando eles vão voltar?
Mas ninguém respondia direito.
Às vezes, diziam:
— Seus papais estão no céu.
Mas...
Onde ficava o céu?
Eu queria ir para lá.
Queria encontrar meus papais.
Eu imaginava que o céu fosse um lugar muito grande.
Talvez fosse uma casa enorme.
Talvez meus papais estivessem esperando por mim.
Eu não entendia por que não podia ir até lá.
Então, algumas vezes, ficava olhando pela janela.
Olhava para o céu.
As nuvens passavam devagar.
Eu procurava alguma coisa nelas.
Talvez um lugar.
Talvez meus papais.
Mas nunca encontrava.
Mesmo assim, continuava olhando.
Talvez um dia eu encontrasse.
As outras crianças continuavam não falando muito comigo.
Algumas me ignoravam.
Outras riam.
Eu não entendia o motivo.
Às vezes, eu ficava perto delas apenas para ouvir suas conversas.
Não participava.
Só escutava.
Eu queria aprender como elas conseguiam fazer amigos.
Queria saber o que deveria dizer.
Mas não conseguia.
Então ficava quietinha.
Com o tempo, comecei a me acostumar a ficar sozinha.
Não porque gostava.
Mas porque era mais fácil.
Quando ninguém queria que eu sentasse junto, eu procurava um canto.
Quando ninguém queria conversar, eu ficava quieta.
Quando alguém ria, eu fingia que não tinha percebido.
E quando sentia saudade, abraçava meu ursinho.
Ele era a única coisa que ainda me fazia lembrar de casa.
Às vezes, eu segurava o ursinho e tentava lembrar exatamente da minha mamãe.
Eu lembrava do cabelo dela.
Lembrava da voz.
Lembrava de algumas coisas que ela dizia.
Mas algumas lembranças começaram a ficar fracas.
Eu tinha medo de esquecer.
Então tentava pensar nela todos os dias.
Meu papai também.
Eu não queria esquecer nenhum dos dois.
No fim de mais um dia, peguei meu ursinho.
O quarto estava silencioso.
Algumas crianças já estavam dormindo.
Outras ainda conversavam baixinho.
Eu fui para minha cama.
Deitei.
Coloquei o ursinho ao meu lado.
Depois o abracei bem forte.
Fiquei olhando para a janela.
O céu estava escuro.
Não dava para ver muita coisa.
Mesmo assim, fiquei olhando.
Talvez meus papais estivessem olhando para mim também.
Eu queria acreditar nisso.
Abracei meu ursinho ainda mais forte.
— Boa noite, mamãe...
Fiz uma pequena pausa.
— Boa noite, papai...
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, imaginei que estava em casa.
Imaginei minha cama.
Imaginei meus papais perto de mim.
Imaginei que nada tinha acontecido.
Mas quando abri os olhos, ainda estava no orfanato.
Então fechei novamente.
Dessa vez, não abri mais.
E dormi.
Aquela era apenas a minha primeira noite de muitas naquele lugar.
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