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Puteiro de Garimpo - Parte 16 - Reencontros

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AnãoJediManco

Quando a semana de castigos termina, as quatro voltam aos fundos em momentos diferentes, mas acabam no mesmo cômodo abafado.
Marisa e Jéssica são as primeiras a serem jogadas de volta. Ainda não andam direito, os braços continuam inchados e fracos. Os cabelos caíram em mechas durante os dias no pau de arara. O corpo das duas carrega picadas infectadas, marcas de corda e a magreza de quem quase não comeu. Elas ficam deitadas num colchão no canto, lado a lado, quase sem falar.
Horas depois trazem Larissa. A marca na parte interna da coxa ainda está vermelha-escura e brilhante de infecção começando. O nariz torto, olhar vazio, e quando a jogam perto das outras, ela só se encolhe e vira o rosto para a parede.
Por último chega Rebeca. ela entra cambaleando, segurando os próprios seios com as duas mãos. Os peitos estão roxos, alongados, com marcas profundas da corda que a segurou a noite inteira na concha da escavadeira. A pele do corpo inteiro está queimada de sol, rachada, suja de lama antiga. Quando seus olhos encontram os de Marisa, o ódio aparece tão claro que várias mulheres no cômodo sentem o peso.
O silêncio que se forma é diferente de todos os outros. Não é o silêncio de cansaço, é o silêncio de quem sabe exatamente o que cada uma fez e o que cada uma sofreu por causa da outra. As mulheres mais antigas observam sem se intrometer. Algumas já viram reencontros parecidos, sabem que certas coisas não se resolvem com palavras.
Jéssica é a primeira a tentar falar. A voz sai fraca, rouca:
— A gente… sobreviveu.
Ninguém responde na hora. Rebeca cospe na cara dela, o movimento fazendo os seios doerem ainda mais. Quando fala, a voz sai baixa e venenosa:
— Você apontou para mim.
Marisa segura o olhar dela, não desvia. O corpo da mãe está destruído, mas os olhos ainda aguentam.
— Eu sei.
— Você escolheu ficar com a sua filha e me mandou para o sol, me mandou para lama, me mandou pra ser fodida no meio do cascalho e chicoteada quando eu caía, me mandou pra ser pendurada pelos peitos enquanto eles comiam churrasco embaixo de mim.
A voz de Rebeca treme, não de medo. De ódio acumulado.
— Eu carreguei o seu castigo, e você ficou do lado da sua filha.
Marisa respira fundo. A costela ainda dói.
— Eu escolhi, e vou carregar isso. Não vou pedir desculpa como se desculpa apagasse o que você passou.
Larissa, do canto, solta uma risada baixa e quebrada, sem humor nenhum.
— Enquanto vocês duas se olhavam com ódio, eu estava com a boca cheia de porra andando pelo salão, depois chupando a boceta de todo mundo. Depois com ferro quente na coxa, no final todas mijaram em cima de mim. Inclusive todas vocês.
O silêncio volta, ainda mais pesado. Uma das mulheres mais antigas, a de cabelo branco, fala baixo, sem tomar partido:
— Aqui dentro ninguém sai limpo, nem quem aponta, nem quem é apontado e nem quem só assiste. O Nestor sabe disso, por isso ele inventa essas coisas que é para gente se odiar entre si e não odiar só ele.
Rebeca ainda segura os seios, a dor latejando. O olhar dela continua cravado em Marisa.
— Eu não vou esquecer.
— Eu também não, responde Marisa.
Jéssica aperta a mão da mãe com o pouco de força que ainda tem. Larissa continua virada para a parede. As outras mulheres se acomodam nos colchões em silêncio. O cômodo dos fundos, naquela noite, está mais pesado do que nunca. Quatro mulheres destruídas de jeitos diferentes, um ódio novo nascendo no meio delas. E a certeza coletiva de que o Barracão das Sombras não só quebra corpos, ele também ensina as vítimas a se ferirem umas às outras. E isso, mais do que o chicote ou o ferro, é o que vai ficar.
A noite nos fundos é longa e abafada, nenhuma delas dorme de verdade. O corpo de cada uma lateja de um jeito diferente. Marisa e Jéssica ainda mal mexem os braços, Larissa mantém a coxa marcada esticada, tentando não encostar a pele queimada em nada. Rebeca segura os seios roxos com cuidado, como se o simples ato de respirar puxasse a carne além do limite. É no meio da madrugada, quando o silêncio fica insuportável, que as vozes começam a sair. Baixas, roucas, com os olhos já molhados antes mesmo da primeira frase.
Larissa é a primeira a falar, enquanto olha para o teto escuro.
— A pior parte… não foi o ferro, ele doeu pra caralho, eu achei que ia desmaiar de verdade. Mas a pior parte foi andar com a boca cheia de porra deles. Mostrando pra todo mundo, e depois cuspir misturado com vômito naquela tigela. Eu ainda sinto o gosto, o pior é saber que eu fiz, eu andei, eu segurei aquilo na boca, eu engoli até não aguentar mais. Parece que tem uma sujeira aqui dentro que não sai mais.
As lágrimas escorrem de lado, sem ela tentar limpar. Rebeca ri baixo, um som seco e amargo. Quando fala, a voz treme de ódio e de dor.
— A pior parte foi a noite na concha, pendurada pelos peitos. O peso do corpo inteiro só naquilo. Parecia que ia rasgar, eu sentia a pele esticando… o sangue parando… a dor subindo até atrás dos olhos. E embaixo eles comendo churrasco, o cheiro subia e eu estava morta de fome e com sede. E odiando aquilo, odiando ela, aponta com o queixo para Marisa sem olhar direto, porque foi ela que me colocou ali. Cada segundo que eu fiquei pendurada, eu pensava no nome dela saindo da boca da mãe da loirinha. Essa culpa… não é minha, é dela, mas eu carrego o corpo estragado.
Marisa fecha os olhos. As lágrimas vêm devagar, pesadas, e quando abre a boca, a voz sai baixa e rachada.
— A pior parte não foi o pau de arara, nem o mel dentro do cu, nem a urina e nem o leite azedo que a gente teve que beber. Foi apontar, foi olhar para fila de mulheres e escolher uma. Foi falar “ela”. Na hora eu só pensava em não deixar minha filha sozinha, agora eu fecho os olhos e vejo o rosto da Rebeca quando eu falei. E sei que eu quebrei alguma coisa que não tem conserto e eu carrego isso. Todos os dias vou carregar, todos os minutos, vou carregar a culpa de ter virado o tipo de pessoa que aponta outra para sofrer no lugar dela.
Jéssica ao lado dela chora mais aberto com a voz sai engasgada.
— A pior parte para mim… foi perceber que eu fiquei aliviada. Quando minha mãe escolheu ficar, eu fiquei aliviada de não ficar sozinha naquele pau de arara. E ao mesmo tempo eu vi a cara da mulher que ela escolheu, eu carrego isso, a culpa de ter sido o motivo de minha mãe ter se sujado por minha causa. E de eu ter sentido alívio enquanto outra era condenada, parece que eu também apontei. Só que com o silêncio.
O cômodo fica em silêncio depois disso.
As quatro choram sem se tocar, cada uma presa dentro da própria dor e da própria culpa. As outras mulheres, nos colchões ao redor, escutam sem interromper. Algumas também têm os olhos molhados, porque todas ali já carregam algum peso parecido, alguma escolha, algum alívio egoísta, alguma vez em que sobreviveram porque outra sofreu no lugar. A noite continua quente e pesada, o choro baixo das quatro se mistura ao som distante do garimpo que nunca dorme de verdade.
Nenhuma delas se absolve. Nenhuma delas consegue odiar só os homens, a culpa, essa, ficou dividida entre elas e nenhuma sabe como carregar.
O silêncio depois das primeiras confissões não dura muito. A escuridão do cômodo e a dor ainda viva no corpo puxam as memórias para lugares mais fundos. As vozes voltam, agora mais baixas, mais carregadas de nojo e de medo antigo.
Larissa aperta a coxa marcada sem querer e solta um gemido baixo. Quando fala de novo, a voz sai embargada:
— O momento em que eu mais senti nojo… foi quando me obrigaram a chupar a boceta de todas. Uma atrás da outra, tinha mulher menstruada, tinha residual de homem de horas antes, tinha cheiro azedo de quem não se lavava há dias. Eu tive que enfiar a língua e tive que engolir o que vinha. E depois beijar cada uma na boca, eu sentia o gosto passando de uma língua para outra. No meio disso eu quase vomitei de novo, mas engoli porque se eu parasse eles iam me bater. Até hoje quando fecho a boca eu sinto um gosto que não é meu. E o medo… o medo maior foi na hora do ferro. Quando eu vi a ponta vermelha e soube exatamente onde ia doer, meu corpo inteiro queria correr, mas não tinha para onde. Eu mijei na hora que queimou, de puro pânico. E eles riram.
Rebeca respira pela boca, os seios ainda latejando. Os olhos estão vermelhos, mas o ódio não diminuiu.
— O meu nojo mais forte foi o cheiro do churrasco subindo enquanto eu estava pendurada. A carne assando. A gordura pingando no fogo. Meu estômago revirava de fome e de náusea ao mesmo tempo. Eu sentia saliva na boca e odiava isso, odiava meu corpo por ainda querer comer enquanto a pele dos meus peitos estava sendo arrancada pelo peso. E o medo… o medo foi quando a corda esticou demais e eu senti um estalo interno. Achei que tinha rasgado de verdade. Achei que ia olhar pra baixo e ver carne aberta. Fiquei minutos sem conseguir respirar direito só de pavor. Cada balanço depois disso era terror puro, e eu pedia baixinho para morrer. Mas não morri, só fiquei lá, cheirando comida e sentindo a carne esticar.
Marisa demora mais para falar. Quando a voz sai, está rouca e molhada de choro contido:
— O meu nojo… foi o mel com porra e aquela água com mijo. Mas principalmente o mel, a textura, o gosto doce misturado com algo salgado e velho. Eu engoli porque a alternativa era pior, mas na hora que desceu, eu senti uma náusea tão funda que achei que ia desmaiar na corda. O medo maior não foi a dor dos braços, foi perceber, no segundo ou terceiro dia, que eu já não conseguia odiar só os homens. Eu comecei a odiar minha filha por me fazer escolher, me odiei por odiar ela. Esse medo… de estar perdendo a última coisa boa que ainda restava dentro de mim… foi pior que qualquer chicote.
Jéssica chora mais aberto agora. As lágrimas escorrem pelo rosto magro e caem no colchão.
— Eu tive nojo de mim mesma quando gozei no segundo dia da competição. No meio da fila, eu estava sendo estuprada por um atrás do outro, chorando, com dor, e meu corpo gozou. Eu senti a onda e odiei cada segundo, depois fiquei com tanto nojo que queria arrancar a pele. E o medo… o medo mais forte foi durante a noite no pau de arara, quando a floresta fazia barulho e eu tinha certeza de que alguma coisa ia subir na árvore e comer a gente viva. Mas o pior medo foi olhar para minha mãe e pensar, mesmo por um segundo, que preferia que ela tivesse me abandonado e ido pro garimpo. Porque aí a culpa da escolha não existiria. Ter pensado isso… me deixou com um nojo de mim que ainda não passou.
O cômodo inteiro parece menor depois dessas palavras. Nenhuma das quatro se olha direito. Os olhos lacrimejados fixam o teto, a parede, o próprio corpo estragado. A culpa e o nojo se misturam no ar quente junto com o cheiro de pele queimada, suor antigo e infecção começando. As outras mulheres escutam em silêncio absoluto, porque cada relato não é só memória, é mais uma camada de peso que agora todas vão carregar juntas.
Os primeiros raios de sol ainda estão fracos quando a porta dos fundos se abre com violência. Dois homens empurram uma mulher para dentro e trancam de novo sem explicar nada. Ela tropeça, quase cai de joelhos, e fica parada no meio do cômodo, ofegante, o cabelo despenteado grudado no rosto suado.
Nenhuma das outras se mexe na hora. A mulher parece ter perto dos cinquenta. O corpo é de uma madureza pesada e ainda desejável de um jeito carnal. Os seios são grandes, pesados, caídos pelo peso dos anos, mas ainda volumosos, com aréolas largas e escuras, mamilos grossos que apontam um pouco para baixo. A barriga não é chapada, tem aquela maciez de mulher que já viveu, uma dobra suave acima do umbigo, a pele um pouco flácida, mas ainda firme o bastante para tremer quando ela respira fundo. A cintura engrossou com o tempo, as ancas são largas, de mulher feita, e as nádegas são grandes, redondas, pesadas, com aquela carne generosa que se move quando ela tenta se equilibrar. Entre as pernas, a boceta é carnuda, os lábios grossos e escuros, já um pouco abertos, com pelos grisalhos e cacheados que não foram depilados há tempo. As coxas são grossas, macias, com algumas veias aparentes e a marca de quem já carregou peso e idade. Os braços têm a flacidez leve da maturidade, mas ainda guardam força. O rosto, mesmo assustado e sujo, revela traços bonitos de mulher que já foi muito cobiçada, boca carnuda, olhos grandes, pescoço ainda elegante apesar das linhas finas.
Ela está nua, completamente nua, como todas as outras. Por longos segundos ninguém fala. Marisa, Jéssica, Larissa e Rebeca olham sem entender, e não conseguem distinguir nada além da silhueta da fêmea. As demais mulheres do cômodo também se entreolham, confusas. Não é dia de chegada de novata, ninguém avisou de leilão, ninguém falou em dívida nova.
A mulher madura aperta os seios pesados com as mãos, tentando se cobrir, e a voz sai rouca, assustada, com sotaque de quem veio de longe:
— Cadê… onde eu tô? Eles falaram que era trabalho de cozinha… eu não… eu não entendo…
O silêncio continua, nenhuma das putas responde ainda. Porque todas já viram esse tipo de confusão antes. E todas sabem que, em poucos minutos ou poucas horas, a mulher de seios pesados, boceta carnuda e corpo maduro vai entender exatamente para que foi trazida.
Larissa ainda está encolhida no canto quando os primeiros raios mais fortes atravessam as frestas da madeira. A luz corta o cômodo em faixas estreitas e empoeiradas. Por um momento ela só observa a mulher madura do outro lado, ainda confusa, ainda tentando cobrir os seios pesados com as mãos. Depois a faísca de reconhecimento acontece, queixo, a boca carnuda, o formato dos olhos, a maneira como a mulher franze a testa quando está com medo. Larissa sente o estômago despencar, o ar some dos pulmões, o coração dispara tão forte que ela ouve o batimento no ouvido, a marca na coxa lateja de repente, como se tivesse sido queimada de novo. Ela se ergue devagar, as pernas tremendo, e dá dois passos na direção da mulher. A voz sai baixa, rouca, quase sem força, mas carregada de um horror absoluto:
— Mãe…?
A mulher madura vira o rosto na hora, os olhos se encontram. Por um segundo o mundo inteiro parece parar dentro daquele cômodo quente e fedido. A mulher abre a boca, mas nenhum som sai, os olhos se arregalam, as mãos caem dos seios pesados. O reconhecimento é mútuo, brutal e impossível de negar.
— Larissa…?
A voz da mãe sai quebrada, incrédula, já molhada de lágrimas. Ela dá um passo à frente, depois outro, e as duas se olham como se cada uma tivesse acabado de ver um fantasma. Larissa sente as pernas fraquejarem, o chão parece balançar, tudo o que ela sofreu, a semana gratuita, a boca cheia de porra, a língua nas bocetas das outras, o ferro quente, o mijo de todas sobre o corpo, volta de uma vez só, só que agora com um peso novo e insuportável. A mulher que está na frente dela, nua, com os seios pesados expostos, a boceta carnuda à mostra, a pele marcada pela viagem, é a mesma que ela deixou em Minas, a mesma que fazia comida, a mesma que a colocava para dormir quando ela era pequena. E agora as duas estão no mesmo inferno.
A mãe levanta a mão como se fosse tocar o rosto da filha, mas para no meio do caminho, os olhos descendo pelo corpo de Larissa, o nariz torto, as marcas, a letra “N” ainda vermelha na coxa interna. O horror no rosto da mulher madura é tão grande que ela solta um som baixo, quase um gemido de dor.
— Meu Deus… o que fizeram com você…?
Larissa não consegue responder, só balança a cabeça, as lágrimas escorrendo sem controle. Em volta, as outras mulheres observam em silêncio absoluto. Marisa, Jéssica e Rebeca entendem na hora, o peso da cena é grande demais até para quem já viu de tudo.
A mãe de Larissa dá mais um passo e puxa a filha para um abraço desesperado. Os seios pesados se apertam contra o corpo magro e marcado da filha. As duas choram sem conseguir falar, num choro abafado, rasgado, de quem acabou de entender que o pior lugar do mundo agora contém as duas.
No Barracão das Sombras, até o reencontro de mãe e filha vem sem piedade. E as duas já sabem, sem precisar de palavras, que a partir daquele momento o sofrimento de uma vai ser usado para destruir a outra.

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