Puteiro de Garimpo - Parte 13 - Pau de arara
A ordem de Nestor ainda ecoa quando os homens armados se movem. Não há intervalo, nem há tempo para despedida ou para qualquer palavra a mais. Dois deles agarram Marisa pelos braços, outros dois seguram Jéssica. A força é bruta, impaciente, as mulheres quase não conseguem acompanhar o ritmo; as pernas ainda doem, os corpos ainda carregam a febre e a destruição dos três dias de competição.
— Anda logo cadela.
Elas são arrastadas para fora do salão sob os gritos e risadas dos homens. Alguém cospe perto dos pés de Marisa. Outro comenta alto sobre o mel que vai ser passado nelas. O ar da manhã ainda está fresco, mas o sol já começa a subir, prometendo calor pesado.
O pau de arara fica sob a mesma árvore onde a baixinha ainda pende, quase irreconhecível. O corpo dela está coberto de picadas, sujo, a cabeça caída. Quando veem as duas se aproximando, os homens que cuidam da estrutura soltam a baixinha com indiferença e a jogam de lado na terra, como peso morto. Se ainda respira ou não, ninguém verifica na hora.
Marisa e Jéssica são empurradas para a frente da estrutura. Os homens não falam muito, amarram primeiro os pulsos de Jéssica juntos, com corda grossa. Depois passam a corda por cima da viga horizontal e puxam até o corpo dela subir. Os pés perdem o contato com o chão. Os braços esticam acima da cabeça, o peso inteiro do corpo cai sobre os ombros e os pulsos. Jéssica solta um gemido baixo quando a tensão se instala de verdade. Em seguida fazem o mesmo com Marisa, bem ao lado da filha. As duas ficam penduradas uma ao lado da outra, nuas, os pés balançando a poucos centímetros do chão, os braços já começando a latejar.
Um dos homens se aproxima com um pote de mel grosso e escuro. Sem nenhuma delicadeza, passa a substância grudenta entre as pernas de Jéssica, cobrindo a boceta e o cu ainda marcados. Faz o mesmo com Marisa também. O mel escorre devagar pelas coxas e em minutos as primeiras moscas já começam a aparecer. Depois vêm as formigas, atraídas pelo cheiro doce misturado com o residual de sangue e suor.
Nestor observa de longe, satisfeito.
— Uma semana, só um copo de água duas vezes ao dia. O mel vocês já têm, se aguentarem, aguentam. Se não…
Ele não termina a frase, só se vira e volta para o Barracão, deixando as duas penduradas sob a árvore.
Marisa tenta olhar para a filha, mas o ângulo é ruim. Os braços doem rápido demais. Jéssica já está com os olhos fechados, a respiração curta, tentando encontrar alguma posição que alivie a pressão nos ombros. O mel começa a escorrer com mais força quando o sol esquenta. As primeiras picadas de mosquitos chegam logo em seguida.
O sol sobe devagar e o dia se instala pesado sobre a clareira. Marisa e Jéssica continuam penduradas lado a lado, os braços já não respondem direito, a circulação falha. Os dedos formigam, depois amortecem, depois doem de um jeito surdo e constante. O peso do corpo inteiro desce sobre os ombros e os pulsos amarrados. Cada respiração faz o corpo balançar um pouco, e cada balanço puxa a corda com mais força.
O mel escorre com o calor e atrai tudo que é inseto. Moscas grandes pousam nas coxas, nos buracos, nos seios. Formigas sobem pelas pernas e mordem. De vez em quando uma abelha se aproxima, zumbindo perto demais. Não há como espantar, não há como se mexer de verdade. Só o balanço leve e a dor crescente.
Nenhum homem fica por perto, depois que Nestor foi embora e a baixinha foi jogada de lado, o local ficou praticamente abandonado. De longe se ouve o barulho do garimpo, motores, vozes, o som de terra sendo revolvida. Mas ali, sob a árvore, só existem as duas.
É o primeiro momento em dias em que ninguém está olhando, xingando ou mandando nelas. Jéssica é a primeira a falar., a voz sai rouca de dor, baixa, quase sem força:
— Mãe…
Marisa demora a responder. A garganta está seca, o pescoço dói de tentar manter a cabeça erguida.
— Tô aqui.
— Dói pra caralho, a filha admite, sem conseguir segurar o tremor na voz. Os braços… eu não sinto mais a mão direita direito. E as formigas… elas estão entrando.
Marisa fecha os olhos por um segundo. Sente o mesmo, as picadas, o ardor do mel misturado com o suor. A dor profunda nos ombros que só aumenta.
— Eu sei.
Silêncio. Só o zumbido dos insetos e a respiração das duas.
Jéssica volta a falar, mais baixo ainda:
— Você escolheu ficar por minha causa.
Não é acusação. É só uma constatação carregada demais.
Marisa engole seco. E fala com a boca está pastosa.
— Eu não ia te deixar sozinha aqui. Não depois de tudo.
— Mas você apontou para outra, a voz de Jéssica falha um pouco. Eu vi o olho dela, ela vai te odiar. E eu… eu fico pensando se não era melhor você ter ido para o garimpo. Pelo menos uma de nós sofria menos.
Marisa demora para responder. Quando fala, a voz sai cansada, sem defesa:
— Eu também fico pensando, toda hora. Desde que falei o nome dela, parece que tem uma coisa quebrada aqui dentro que não vai juntar mais. Mas se eu tivesse te deixado sozinha… eu acho que quebrava de outro jeito.
Jéssica balança a cabeça devagar, o movimento fazendo o corpo dela oscilar na corda.
— Eu tô com medo. Medo de não aguentar a semana. Medo de dormir e não acordar. Medo de acordar e ver que você não está mais respirando do meu lado.
Marisa tenta virar o rosto o suficiente para enxergar a filha. O esforço dói.
— A gente vai aguentando um pouco de cada vez, só isso. Não precisa aguentar a semana inteira agora. Só essa hora, depois a próxima.
O sol fica mais forte. O suor escorre junto com o mel e as picadas continuam. De vez em quando uma das duas solta um gemido baixo quando uma formiga encontra um ponto mais sensível.
Mas, por enquanto, não tem homem perto. Só as duas penduradas conversando baixo porque é a única coisa que ainda conseguem fazer sem pedir permissão a ninguém.
O sol sobe até o meio do céu e o calor vira uma pressão constante sobre a pele. As sombras encolhem, o mel escorre mais rápido. As moscas ficam mais ousadas, pousando direto nas pálpebras, nos lábios, nos buracos. Marisa e Jéssica balançam leve a cada respiração. Os braços já passaram do formigamento, agora é uma dor funda, de tendão e articulação, que sobe pelos ombros e se instala na base do pescoço. Os dedos de ambas estão roxos. De vez em quando um espasmo percorre o braço de uma delas e a corda range.
Jéssica fala de novo. A voz está mais rouca, mais baixa.
— Eu gozei uma vez no segundo dia da competição.
Marisa demora a responder. O suor escorre para dentro do olho e arde.
— O quê?
— Quando a fila tava no meio. Um homem mais novo, ele meteu de um jeito… e meu corpo gozou. Eu não queria, eu tava chorando, mas gozou. Depois eu fiquei com mais nojo de mim do que de todos eles juntos.
O silêncio entre as duas fica pesado. Só se ouve o zumbido e o barulho distante do garimpo.
Marisa respira fundo, o peito subindo com dificuldade.
— Eu também. Não na competição, antes. Uma das noites com os traficantes. Eu tava tão cansada, tão longe da cabeça… que o corpo respondeu. Eu odiei, odiei tanto que depois quis morrer, mas não morri. Só fiquei com isso guardado.
Jéssica fecha os olhos. Uma formiga sobe pelo pescoço dela e ela não consegue espantar.
— Eu achei que só eu tinha… falhado desse jeito.
— Não foi falha, a voz de Marisa sai cansada, sem força para consolar de verdade. Foi o corpo tentando sobreviver do único jeito que ainda sabia. Mas eu também não consigo perdoar.
O tempo passa. O sol vira no céu, a sombra da árvore se move devagar e por um período curto cobre metade do corpo delas. É um alívio mínimo, quase cruel de tão pouco.
Jéssica volta a falar, ainda mais baixo:
— Eu tenho medo de que, quando a gente sair daqui… se a gente sair… eu não consiga mais te olhar no olho sem lembrar que você apontou para outra. E ao mesmo tempo eu tenho medo de que você me olhe e só veja a filha que te obrigou a fazer isso.
Marisa sente a frase entrar como faca. Os olhos ardem, mas não de suor.
— Eu te olho e vejo minha filha. A mesma que chegou aqui virgem e assustada, a mesma que eu não consegui proteger. A escolha que eu fiz… essa vai ficar comigo, não com você. Eu que falei o nome, eu que apontei. Se tiver que odiar alguém por isso, odeia a mim.
— Eu não consigo odiar você, responde Jéssica, a voz quebrando. Eu só tô com medo de a gente nunca mais ser só mãe e filha. De agora em diante ser sempre a mulher que escolheu e a filha que foi escolhida junto.
Marisa tenta mexer os dedos. Quase não consegue.
— A dor nos braços eu aguento. A dor do mel e das picadas eu aguento. Até a fome e a sede eu aguento mais um pouco. O que eu não sei se aguento é sair daqui e descobrir que a gente se perdeu de verdade uma da outra.
O sol volta a bater em cheio, a sombra da árvore se afasta e o calor volta com força. Uma abelha pousa na coxa interna de Marisa e ela solta um gemido baixo quando a ferroada acontece. Ao lado, Jéssica treme com as picadas que já se acumulam.
Mesmo assim, as duas continuam falando. Baixo. Interrompidas pela dor. Revelando coisas que nunca tinham dito em voz alta, o nojo de si mesmas, os momentos em que o corpo traiu, o medo de que o pouco de humanidade que ainda resta esteja escorrendo junto com o mel.
O dia vira tarde e a tarde ameaça virar noite, mas o tormento não diminui. Os braços de Marisa e Jéssica já não parecem mais pertencer aos corpos. Estão inchados, roxos escuros do cotovelo até os dedos. A cada pequeno balanço a dor nos ombros é tão forte que arranca gemidos baixos e involuntários. A respiração fica curta. Falar custa caro, até manter a cabeça erguida vira um esforço consciente.
As picadas se multiplicam. O mel, misturado com suor e residual, escorre pelas coxas e atrai ondas novas de insetos. Há pontos nas pernas e na virilha que já incham. O cu e a boceta de ambas ardem de forma constante, abertos e expostos, sem nenhuma proteção.
Ainda faltam muitos dias. Essa é a pior parte. Não é só a dor de agora, é a certeza de que o sol vai nascer de novo amanhã, e depois de amanhã, e que elas ainda estarão ali.
É no fim da tarde que um homem aparece pela primeira vez desde a manhã. Traz uma garrafa plástica suja e um pote pequeno. Não fala nada, só aproxima-se primeiro de Jéssica, segura a cabeça dela pelo cabelo e encosta a garrafa nos lábios.
— Bebe.
A sede é tanta que Jéssica abre a boca quase por reflexo. A água entra quente, com gosto forte demais, amargo e salgado de um jeito errado. Ela se engasga, tenta virar o rosto, mas o homem segura firme e obriga a engolir alguns goles. O mesmo acontece com Marisa. O gosto é o mesmo, urina misturada com água suja. Não é puro mijo, mas é o suficiente para o estômago revirar e a humilhação se instalar fundo.
O homem ri baixo quando vê a expressão das duas.
— Vocês acharam que ia ser água limpa? No Barracão até a água tem dono.
Depois ele abre o pote. O mel está mais ralo, com uma textura estranha. Ele enfia dois dedos, tira uma quantidade e empurra dentro da boca de Jéssica. O gosto doce vem misturado com algo salgado, espesso, inconfundível, é porra. Velha ou nova, não importa. O sabor invade a boca dela junto com o mel. Jéssica se engasga de novo, tenta cuspir, mas ele segura o queixo e força a engolir.
Marisa recebe o mesmo tratamento. O mel com porra é empurrado para dentro da boca dela. O gosto gruda na língua, na garganta. A náusea sobe, mas a fome e a ordens são mais fortes. Ela engole.
O homem limpa os dedos na coxa de uma delas e comenta, quase casual:
— Mel especial, com proteína de macho para dar força. Comam tudo quando trouxer de novo. Se cuspir, não ganha a próxima.
Ele vai embora.
As duas ficam penduradas em silêncio por um longo tempo. O gosto continua na boca, a água com urina pesa no estômago. O mel com porra gruda na garganta.
Jéssica é a primeira a conseguir falar. A voz sai destruída:
— Eles… eles misturaram…
Marisa não responde na hora com os olhos estão fechados. Uma lágrima escorre, mas pode ser só o suor.
— Eu sei.
— A água… e o mel… — a voz da filha quebra de vez. Eu tô com isso na boca. Eu engoli.
— Eu também filha.
O silêncio volta, mais pesado que o calor. O tormento do pau de arara já não é só físico. Agora tem gosto, tem a certeza de que até o mínimo aliviamento que recebem vem envenenado de propósito. Até beber e comer virou outra forma de estupro.
E ainda faltam dias, muitos dias.
O sol começa a descer. As sombras crescem. As duas continuam balançando leve na corda, com o gosto da urina e da porra ainda presos na boca, e a certeza cruel de que amanhã o homem volta… e vai ser a mesma coisa. Ou pior.
A noite cai sobre a clareira como uma tampa pesada.
O último resto de luz some atrás das árvores e o mundo ao redor muda de natureza. O que durante o dia era só calor, insetos e dor, agora vira outra coisa. A floresta desperta de um jeito diferente, os sons se multiplicam. Galhos estalam sem vento aparente. Algo grande se move no mato baixo, longe demais para ver, perto o suficiente para o corpo reagir. Um grito animal corta a escuridão, alto, estridente, nem humano nem completamente animal e depois some. O silêncio que fica depois é pior.
Marisa e Jéssica continuam penduradas.
A temperatura cai. O suor esfria na pele e vira um frio úmido que penetra nos ossos. Os braços, já destruídos pelo dia inteiro, agora latejam com uma dor profunda, de circulação parada e músculo se desfazendo. Os dedos não respondem. De vez em quando um espasmo involuntário percorre o corpo de uma delas e a corda range. O mel, misturado com suor e sujeira, continua atraindo insetos noturnos. Mosquitos grandes, algo que rasteja. Picadas novas em cima das antigas.
Mas o pior não é o corpo, é a escuridão.
Sem nenhum homem por perto, sem nenhuma lanterna, sem nenhum barulho humano próximo, as duas ficam sozinhas com a floresta. Cada som parece mais perto do que realmente está. Um assovio baixo, bater de asas grandes. O farfalhar de folhas que não tem vento para explicar. Jéssica começa a tremer de um jeito diferente, não só de dor ou frio, mas de medo primitivo.
— Mãe… a voz dela sai pequena, quase infantil. Tem alguma coisa andando ali.
Marisa tenta olhar na direção que a filha indica, mas a escuridão é quase total. Só enxerga vultos. A cabeça pesa. O pescoço dói de tanto tentar manter erguida durante o dia.
— É a floresta, responde, mesmo sem certeza. Só a floresta.
Outro grito animal ecoa, mais longe dessa vez. Depois um som de algo sendo arrastado entre os arbustos. Jéssica solta um soluço baixo, abafado, tentando não fazer barulho demais.
— Eu não consigo ficar assim até de manhã… eu não consigo…
— Consegue, a voz de Marisa sai rouca, sem força real para confortar. A gente já ficou. Só mais algumas horas. O sol volta logo.
Mas as horas não passam com piedade. A dor nos ombros fica tão forte que em certos momentos Marisa sente o mundo girar mesmo de olhos fechados. A sede volta, misturada com o gosto residual da urina e da porra do mel, o estômago revira. De vez em quando uma das duas urina sem conseguir controlar, o líquido escorrendo pelas pernas já sujas, aumentando o cheiro e a vergonha mesmo no escuro.
A floresta continua viva ao redor. Algo pia de forma repetitiva, alta e irritante. Outro animal responde mais longe. Há um momento em que os dois escutam passos, ou o que parecem passos se aproximando e depois se afastando, ninguém vem, nenhum homem do Barracão aparece com lanterna ou água. Só a noite, o mato, e as duas mulheres penduradas como oferendas esquecidas.
Jéssica fala de novo, a voz quase sem som:
— Se eu morrer aqui… não me deixa sozinha até de manhã.
Marisa sente a frase entrar fundo.
— Você não vai morrer. E eu não vou a lugar nenhum. Tô logo aqui.
As duas ficam em silêncio depois disso. Só a respiração ofegante, o range ocasional da corda e os barulhos da floresta que não dorme. A noite se arrasta, cada minuto parece mais longo que o anterior. O medo não diminui, só muda de forma, às vezes é pânico agudo, às vezes é uma resignação gelada que pesa mais que o próprio corpo.
E o pau de arara continua firme. Com as duas ainda balançando leve na escuridão, esperando um amanhecer que parece nunca mais chegar.
O amanhecer chega cinzento e úmido. O orvalho cobriu tudo durante a madrugada. As folhas, a corda, a pele das duas. Marisa e Jéssica estão molhadas, com frio nos ossos, os corpos cobertos de pequenas gotas que escorrem devagar junto com o suor frio e o residual do mel antigo. Os braços parecem de outra pessoa, inchados, pesados, quase sem sensibilidade nos dedos. A dor nos ombros virou uma presença constante, surda e profunda.
O homem aparece quando o sol ainda não esquentou de verdade.
Traz a mesma garrafa suja e um copo pequeno. Não fala bom dia, não pergunta nada. Segura a cabeça de Jéssica pelo cabelo, força a boca dela a abrir e despeja um gole. O gosto é o mesmo da véspera, água misturada com urina. Quente demais, salgada demais, errada demais. Jéssica se engasga, mas engole. O homem faz o mesmo com Marisa. O líquido desce queimando de humilhação.
Depois ele ergue o copo. Dentro há um líquido esbranquiçado, grosso, com cheiro azedo forte.
— Hoje não tem mel. Tem isso.
É leite azedo já virado. Ele enfia dois dedos, tira uma quantidade e empurra dentro da boca de Jéssica. O gosto é pesado, cortado, nauseante. A filha se engasga de novo, tenta virar o rosto, mas ele segura e obriga a engolir. Marisa recebe a mesma porção. O leite azedo gruda na língua e na garganta, misturando com o gosto residual de urina.
O homem limpa os dedos na própria calça e vai embora sem olhar para trás.
As duas ficam sozinhas outra vez. Molhadas de orvalho. Com o gosto azedo e salgado ainda na boca. O sol começa a subir devagar entre as árvores.
Jéssica é a primeira a falar. A voz está destruída, quase sem força:
— A gente vai sair daqui um dia? De verdade?
Marisa demora para responder. A língua ainda carrega o gosto do leite virado.
— Eu não sei.
— Não é o pau de arara, continua a filha. É esse mundo, esse lugar. Esse jeito que eles fazem a gente viver. Tem saída? Ou a gente só vai mudando de dor até um dia não acordar mais?
Marisa sente o peso da pergunta. Os olhos ardem.
— Eu fico pensando nisso desde que a gente chegou. No começo eu ainda acreditava que tinha um caminho de volta. Que alguém ia aparecer, que a gente ia correr. Agora… eu olho pra corda, pro mel, pra urina que eles fazem a gente beber… e parece que a saída foi fechando sem a gente perceber.
Jéssica balança a cabeça fraca, o movimento fazendo o corpo oscilar.
— É humilhante demais. Não é só a dor, é o jeito. Fazer a gente beber mijo, fazer a gente engolir leite azedo como se fosse favor. Passar mel no cu pra inseto comer. Me fazer limpar a Larissa com a boca. Te obrigar a apontar outra mulher. Parece que eles não se contentam em usar o corpo. Eles querem que a gente sinta nojo de existir.
Marisa fecha os olhos. Uma gota de orvalho escorre pela testa.
— Eles querem e estão conseguindo. Tem hora que eu sinto mais vergonha do que dor. Vergonha de ter engolido. Vergonha de ter gozado quando não queria, vergonha de ter escolhido. Vergonha de ainda estar viva e continuar aguentando.
— Eu também, admite Jéssica. Ontem de madrugada eu pensei que preferia ter morrido no primeiro dia. Pelo menos acabava. Agora a gente fica aqui, pendurada, bebendo mijo e comendo leite estragado… e ainda tem que agradecer por não estar apanhando.
O sol sobe mais um pouco. O orvalho começa a secar na pele. As primeiras moscas do dia aparecem. As duas ficam em silêncio por um tempo, só existindo uma ao lado da outra, com o gosto azedo ainda na boca e a pergunta sem resposta pairando entre elas: Tem saída? Ou esse mundo já engoliu as duas de vez?
O sétimo dia chega sem nenhuma diferença de luz ou de alívio. Marisa e Jéssica já não parecem as mesmas mulheres que foram penduradas ali. Os rostos estão magros, fundidos, os olhos fundos e opacos. Os cabelos começaram a cair em mechas finas; ficam grudados no suor e no residual de mel antigo, e quando o vento mexe, fios soltos caem no chão. Os braços são dois volumes roxos e inchados, quase sem forma humana. As unhas de ambas estão escuras. A pele do corpo inteiro está coberta de picadas infectadas, algumas abertas, outras com pus. O cheiro que sobe delas é pesado, azedo, de carne que está perdendo a luta.
A dor já não tem picos, é uma linha contínua, insuportável, que ocupa cada pensamento.
O homem aparece pela última vez com um sorriso torto.
— Último dia, vai ter comemoração.
Na mão ele traz uma garrafa de cachaça barata e um pote pequeno. Não tem água, não tem leite. Só isso, só a cachaça.
Ele segura a cabeça de Jéssica e despeja o líquido queimando direto na boca. Para um corpo desidratado, faminto e fraco, a cachaça é um veneno. Queima a garganta, revira o estômago, faz a cabeça girar na hora. Jéssica se engasga, tosse, o líquido escorre pelo queixo, mas ele obriga a engolir mais um pouco. Depois faz o mesmo com Marisa. A ardência desce como fogo. Em minutos as duas estão ainda mais tontas, a dor nos braços misturada com a embriaguez cruel de quem não tem comida no estômago.
Depois vem o pote. O conteúdo é amarelado, grosso, com cheiro insuportável. Porra velha misturada com vômito. O homem vira o pote e empurra a mistura dentro da boca de cada uma. O gosto é tão hediondo que Jéssica vomita na hora, um líquido amargo e escasso, porque quase não tem mais nada dentro dela. Ele ri e empurra de novo.
— Come, que é a última refeição no pau de arara, vadia.
As duas engolem o que conseguem. O resto escorre pelo queixo e pelo pescoço.
É nesse momento que a voz de Jéssica sai, rouca, quebrada, quase sem força:
— Me mata… pelo amor de Deus… me mata…
Marisa ao lado não tem mais lágrimas. Só a mesma súplica, baixa, vazia:
— Acaba com a gente. Já chega. A gente não aguenta mais.
O homem só ri e guarda o pote.
— Amanhã vocês descem. Se ainda estiverem vivas.
Ele vai embora.
As duas ficam penduradas o resto do dia em silêncio. Já não conversam direito, já não se consolam. O ódio que sentem de si mesmas é tão grande que sobrou pouco espaço para qualquer outro sentimento. Se odeiam por terem engolido, se odeiam por terem pedido a morte e não terem sido atendidas, se odeiam por ainda estarem respirando. A ligação de mãe e filha continua ali, mas está esticada, fina, quase sem vida.
No fim da tarde os homens voltam, cortam as cordas. Os corpos caem como peso morto. Marisa e Jéssica não conseguem ficar de pé, nem engatinhar. Os braços não respondem. As pernas tremem e falham. Elas são arrastadas pelo chão até um canto atrás do Barracão, perto dos fundos, e simplesmente jogadas na terra. Ali ficam.
Deitadas, nuas, irreconhecíveis, cobertas de picadas, sujeira, residual de mel, cachaça e a mistura que foram obrigadas a engolir. Não andam, quase não falam, só respiram.
Nas horas e dias seguintes, são as outras mulheres dos fundos que cuidam do mínimo. Limpam o que conseguem com panos sujos. Tentam dar água limpa quando roubam um pouco. Espantam moscas, nenhuma delas é levada de volta para o trabalho imediatamente. O corpo não permite.
Marisa e Jéssica permanecem no chão, lado a lado, como dois pedaços de carne que ainda não terminaram de morrer. A semana no pau de arara acabou, o que restou delas ainda não se sabe.
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