Puteiro de Garimpo - Parte 12 - Premios
No fim da madrugada, antes mesmo do sol nascer de verdade, a porta dos fundos se abre. Dois homens armados entram com baldes e panos sujos. Não falam alto, só apontam para as três.
— Mãe, filha e novata. Levanta-se. Vão se limpar agora, para tirar essa carniça de vocês.
Marisa, Jéssica e Larissa mal conseguem se mexer. A febre ainda queima, os cus destroçados latejam a cada movimento. Mesmo assim são puxadas para fora, nuas, cambaleando, as pernas abertas demais para andarem direito. O ar da madrugada é úmido e fresco demais contra a pele quente de febre, elas tremem. A limpeza não acontece em nenhum lugar privado.
É feita no mesmo pátio aberto onde a competição ocorreu, sob a luz fraca que começa a nascer. Os homens jogam água dos baldes em cima delas sem aviso, água é fria. Larissa solta um grito baixo quando o jato acerta as costas e escorre entre as nádegas abertas. Jéssica estremece inteira, e Marisa apenas fecha os olhos e suporta.
— Abre a perna, ordena um deles. Tá suja de sangue e porra velha. Limpa direito esse cu arrombado.
Não entregam o pano. Elas mesmas são obrigadas a se agachar e esfregar o próprio corpo na frente dos homens que fumam e observam. A água fria arde nos rasgos, o pano áspero raspa a carne inflamada, e cada movimento faz a dor subir. E, pior que a dor, é a vergonha. Estarem ali, ao relento, esfregando os buracos destruídos enquanto homens riem baixo e comentam.
— Olha o estado do cu da novata. Ainda não fechou.
— A loirinha tá com a coxa toda manchada.
— A mãe limpa com mais jeito. Já tá acostumada a se lavar depois de ser arrombada.
A água escorre suja, vermelha e turva, formando poças na terra. Elas continuam esfregando porque mandaram. O frio da madrugada mistura com a febre e faz os dentes baterem. O medo cresce junto com a vergonha, porque sabem que essa limpeza não é cuidado. É mais uma forma de mostrar que o corpo delas pode ser exposto, lavado e comentado a qualquer hora, por qualquer um.
Quando os homens consideram suficiente, jogam o resto da água nelas e ordenam:
— Anda, termina logo, para irmos para o salão. As outras também vão.
As três são empurradas de volta para dentro do Barracão, ainda molhadas, tremendo, a pele em carne viva ardendo com o contato do ar. No caminho, as outras mulheres dos fundos também são retiradas do cômodo. Todas nuas, todas em fila. O silêncio é pesado, ninguém pergunta nada. Todas já entenderam que o anúncio dos resultados da competição será público.
O salão está semivazio naquela hora, mas os poucos homens que restaram da noite se aproximam com interesse. Nestor está no centro, sentado numa cadeira, limpando as unhas com um canivete. Quando vê a fila inteira de mulheres nuas entrando, sorri de lado. As três competidoras são colocadas na frente. As outras ficam em fila atrás, obrigadas a assistir. O chão ainda está frio sob os pés molhados, a febre continua queimando, a vergonha e o medo se misturam no peito de cada uma. Nestor levanta os olhos e fala, voz calma:
— Agora a gente fecha a conta.
O silêncio no salão fica absoluto, pois a limpeza terminou, mas a humilhação, não.
Nestor se levanta da cadeira com calma. Na mão ele carrega um caderno sujo de anotações e um megafone rachado. As três competidoras estão paradas na frente, ainda molhadas da limpeza, tremendo de febre e frio. Atrás delas, a fila inteira de mulheres nuas observa em silêncio. Os poucos homens que restaram no salão se aproximam.
Nestor começa a falar alto, sem pressa, como quem conta uma história engraçada:
— Olha só o que essas três fizeram nos últimos dias. A mãe, a filha e a novata. Primeiro dia, competição de garganta. Engoliram pau até quase desmaiar. Seguraram porra na boca igual cadela treinada. Uma derramou, a outra engoliu escondido, a mãe quase ganhou no tempo.
Ele folheia o caderno e ri baixo.
— Comentários dos homens na hora… deixa eu ler: “A novata se engasga igual virgem.” “A loirinha chupa com cara de quem tá chorando.” “A mãe ainda tem garganta funda de puta antiga.”
Algumas das mulheres atrás baixam a cabeça. Larissa treme mais forte. Jéssica aperta os próprios braços. Marisa mantém o olhar fixo em algum ponto à frente. Nestor continua, agora mais alto:
— Segundo dia, cento e cinquenta homens cada uma. Boceta usada até desmaiar. E mesmo desmaiadas continuaram comendo essas vacas largas e arrombadas. Comentários que ouvi, “A novata apertou até o trigésimo.” “A filha gozou sem querer no meio da fila.” “A mãe aguentou mais tempo consciente. Essa é puta de verdade.”
Ele ri de novo, virando a página.
— Terceiro dia foi o melhor. Primeiro a gente encheu o cu de água. Teve puta quase explodindo de tão cheia. Quem esguichou mais fundo e com mais volume… a mãe ganhou fácil. Comentário de um doido aqui: “Parecia mangueira de bombeiro. Quero ver de novo.”
Depois foderam só o cu. Votaram qual era o mais gostoso de meter. A filha ganhou. “Aperta gostoso.” “Quente por dentro.” “Melhor de todos.”
E no final… alargaram até não dar mais. Mão, cabo, garrafa. O cu mais bonito bem aberto, segundo a maioria… foi o da novata. “Ficou redondo.” “Dá pra ver tudo.” “Parece que não vai fechar nunca mais.”
Nestor fecha o caderno e faz os cálculos em voz alta, apontando para cada uma:
— Resultado parcial das etapas... Mãe é forte no primeiro dia, ganhou o segundo, ganhou volume de água. Filha é boa de garganta, ganhou o voto de cu mais gostoso e a novata perdeu quase tudo, mas ganhou o cu mais aberto.
Ele solta uma gargalhada curta e pega o megafone. A voz sai distorcida e alta, ecoando pelo salão e vazando para fora do Barracão:
— Oi, oi! Atenção no garimpo! Quem quiser ver o resultado da competição das três putas, vem agora para o salão! Quem ganhou, quem perdeu, prêmio e castigo! Venham ver a mãe, a filha e a novata! Venham ver o estado do cu delas! Última chamada!
O megafone chia. A voz de Nestor se espalha pelo acampamento. Em poucos minutos se escuta o barulho de homens se aproximando. Passos, vozes, risadas. O salão começa a encher de novo, todos querem ver o final.
As três permanecem na frente, nuas, molhadas, com febre, os corpos ainda destruídos das provas. O medo agora é outro, não é mais o medo da prova. É o medo do que Nestor vai anunciar na frente de todo mundo.
Os homens chegam em peso. O salão, que ainda estava meio vazio, se enche rápido. Garimpeiros sujos de lama, traficantes, donos de máquina, foragidos. Alguns ainda bêbados da noite anterior. Outros vieram só por causa do megafone. O barulho sobe, risadas, assobios, xingamentos soltos no ar.
Quando veem as três paradas na frente, nuas, molhadas, com as pernas abertas demais, os corpos ainda marcados, os comentários explodem:
— Olha o estado dessas putas!
— A novata ainda tá com o cu aberto, caralho!
— A mãe aguentou firme, hein?
— Quero ver quem ficou em último!
Aplausos irregulares misturados com vaias e gritos obscenos. Alguém joga uma bituca de cigarro perto dos pés de Larissa. Outro cospe no chão em frente a Jéssica. O clima é de espetáculo. Nestor deixa o barulho crescer um pouco. Depois levanta o megafone de novo e a voz distorcida corta o salão:
— Silêncio, porra! Vou falar a classificação geral!
O volume diminui, mas não some por completo. Nestor folheia o caderno sujo uma última vez e começa a anunciar, pausado, saboreando cada palavra:
— Em terceiro lugar… a novata Larissa. Perdeu no primeiro dia, desmaiou primeiro no segundo, só ganhou o voto de cu mais aberto. Classificação final terceiro lugar. Nem em competição de puta essa vadia serve. Essa maldita é tão porca e tão fraca, que nem como dívida ela presta.
Alguns homens batem palma de deboche. Outros gritam:
— Última! A virgem arrombada ficou em último!
— Vai levar o pior castigo, putinha!
Larissa treme visivelmente, mas não se mexe. O olhar continua no chão.
Nestor continua:
— Em segundo lugar… a filha. Jéssica. Foi bem na garganta, ganhou o voto de cu mais gostoso, mas não aguentou tanto quanto a mãe. Classificação final, segundo. Essa puta ainda vai render dinheiro, e esse cu ainda vai esfolar muito pau.
Novos assobios e comentários:
— A loirinha ficou no meio!
— Nem ganhou, nem perdeu feio!
— Quero ver o que vai pegar de castigo!
Jéssica mantém o rosto rígido, mas as unhas estão cravadas na própria coxa. Ao lado, Marisa respira fundo.
Nestor sorri de lado e finaliza:
— Em primeiro lugar… a mãe. Marisa a grande puta do garimpo, que trouxe sua filha para vocês usarem. Aguentou mais tempo na garganta, aguentou mais homens consciente, ganhou o volume de água e somou mais pontos no geral. Classificação final, primeiro lugar.
Aplausos mais fortes, misturados com gritos:
— A velha ganhou!
— Puta de ferro!
— Vai pegar o prêmio bom… ou o pior de todos, quem sabe!
O salão inteiro ri. Nestor desliga o megafone por um segundo e olha as três, ainda sem revelar nada.
— Classificação está feita. Primeiro, segundo e terceiro.
Agora vocês vão ficar sabendo o que cada colocação significa. Prêmio para quem ganhou, castigos diferentes para quem perdeu. Ele faz uma pausa longa, deixando o medo crescer.
— Mas isso eu só falo daqui a pouco. Quero ver a cara de vocês mais um pouco.
As três permanecem ali, nuas, sob os olhares e xingamentos de dezenas de homens, já sabendo a ordem de chegada… mas ainda sem saber o preço de cada posição.
Nestor levanta a mão e o salão faz um silêncio relativo.
— Agora elas vão falar. Três minutos cada uma e podem falar o que quiserem… mas eu não tolero puta mal-educada. Se xingar, se reclamar demais, se falar com soberba, o castigo piora. Ficou claro?
As três acenam com a cabeça. A garganta de cada uma ainda dói dos dias anteriores.
— Começa pela terceiro lugar. Vai putinha de dívida, fala alguma coisa!
Larissa é empurrada um passo à frente. Os holofotes improvisados do salão parecem queimar a pele dela. A voz sai baixa, trêmula, quase sem força:
— Eu… eu só queria pedir… por favor… o castigo… que não seja muito… eu já não aguento mais direito… eu fiz tudo que mandaram… engoli… segurei… abri… eu não aguento mais dor… por favor…
Os homens começam a interromper com perguntas, sem nenhum pudor:
— Fala mais alto, puta!
— Qual buraco doeu mais quando a gente abriu? O cu ou a boceta?
— Você gozou alguma vez nesses três dias ou só chorou?
— Quer que a gente mande as fotos para o seu pai antes ou depois do castigo?
Larissa se engasga com as perguntas e as lágrimas escorrem. Ela tenta responder, mas a voz falha. Só consegue repetir:
— Por favor… não… não manda… eu faço qualquer coisa…
Nestor olha o relógio improvisado e corta:
— Tempo. Próxima. A de segundo lugar.
Jéssica avança. O rosto está rígido, mas o queixo treme. Ela fala olhando para o chão:
— Eu peço… que o castigo não me separe da minha mãe… a gente já aguentou tudo junto… eu chupei… eu abri as pernas… eu segurei a porra… eu não recusei nada… por favor… não tira ela de perto de mim…
As perguntas dos homens vêm rápidas e sujas:
— Sua mãe chupa melhor que você ou é o contrário?
— Quando te alargaram, você sentiu vontade de cagar ou só de chorar?
— Se tiver que escolher um castigo, prefere levar no cu ou ver sua mãe levando?
— Quantos paus você acha que aguentaria ainda hoje antes de desmaiar de novo?
Jéssica fecha os olhos. A voz sai ainda mais baixa:
— Eu só… peço misericórdia… por favor…
— Tempo! Corta Nestor. Agora a ganhadora, a mamãe mais putas.
Marisa dá um passo à frente. O corpo dela ainda carrega a febre e a dor, mas a voz sai mais firme, mesmo rouca:
— Eu não vou xingar, não vou reclamar. Só peço… que o prêmio, se tiver algum, não seja pior que o castigo. E que minha filha não seja machucada demais por causa da colocação dela. A gente fez tudo, aguentou tudo. Agora… só peço que não destruam o pouco que ainda sobrou.
Os homens não perdoam:
— Você gozou quando tavam enfiando a mão no seu cu?
— Qual dos três dias você se sentiu mais puta?
— Se a gente te der escolha, você prefere engolir porra de vinte ou levar no cu de vinte?
— Sua filha aprendeu a ser puta com você ou já nasceu assim?
Marisa engole seco. Responde só o suficiente para não piorar:
— Eu fiz o que foi mandado. Só peço… clemência para ela.
Nestor bate palmas devagar.
— Tempo esgotado. Falaram bonito, pediram direitinho. Nenhuma foi mal-educada… ainda.
Ele sorri de lado e olha o salão lotado.
— Agora que todo mundo ouviu as putas suplicando… chega a hora de falar o que cada colocação vai ganhar de verdade.
O silêncio que cai é pesado, cheio de expectativa suja. As três permanecem na frente, nuas, tremendo, ainda sem saber o preço exato do primeiro, do segundo e do terceiro lugar.
Nestor deixa o silêncio amadurecer. O salão está lotado, os homens esperam. As três mulheres continuam nuas na frente, ainda molhadas, com febre, as pernas abertas demais. Atrás delas, a fila inteira de prostitutas observa sem respirar direito.
Nestor pega o megafone de novo. A voz sai distorcida e clara:
— Agora vocês vão ficar sabendo o preço de cada colocação.
Ele aponta primeiro para Jéssica.
— Segundo lugar, a filha da puta, literalmente. Eu vou começar com ela.
Você vai substituir a baixinha no pau de arara. Uma semana inteira, com Sol e chuva. Só água duas vezes ao dia e um pouco de mel para não morrer de fome. Mel também vai ser passado nos seus buracos… boceta e cu… para atrair mosca, formiga e abelha. Você não vai apanhar e não vai ser marcada a ferro. Mas vai ficar pendurada lá fora, do jeito que a outra está agora. Uma semana só, passa rápido.
Jéssica empalidece. Os lábios tremem, mas nenhum som sai. Marisa ao lado dela fecha os olhos com força por um segundo.
Nestor vira o megafone para Larissa.
— Terceiro lugar. A novata que eu peguei como dívida.
Você vai ser a mais castigada. Durante uma semana inteira você será gratuita. Qualquer homem que quiser pode te usar. Boceta, cu, boca… do jeito que quiser, quantas vezes quiser, a qualquer hora, e sem pagar nada. No último dia da semana… você recebe a marca de ferro quente. Letra N na parte de dentro da coxa, para ficar lembrando e ser minha propriedade para sempre.
Larissa solta um gemido baixo e quase desaba. Um dos homens armados a segura pelo braço. Os comentários sujos já começam a subir no salão:
— Gratuita uma semana!
— Vou foder essa todo dia!
— Marca nela vai ficar linda!
Por fim, Nestor se vira para Marisa.
— Primeiro lugar, a mãe, a puta vencedora.
Seu prêmio é trabalho braçal, uma semana inteira na lida do garimpo, das quatro da manhã, até as dez da noite, nua e com um plug no cu, sem reclamar e sem descansar. No garimpo vai fazer de tudo. Enquanto tiver sol, vai carregar balde, cavar, carregar peso… o que mandarem, depois que o Sol desce, vai fazer a limpeza das ferramentas.
Ele faz uma pausa e sorri de lado.
— Mas como você ganhou… você tem escolha. Pode fazer o trabalho você mesma… ou pode passar essa obrigação para qualquer outra puta da casa, qualquer uma, e vamos respeitar a sua escolha. E o sorriso dele fica mais largo.
— Só tem uma condição, se você escolher outra para ir no seu lugar… você fica junto com sua filha no pau de arara durante a semana inteira. Do lado dela, nas mesmas regras. Sol, chuva, mel nos buracos. A escolha é sua.
O salão explode em gritos e risadas. Os homens batem palma, xingam, fazem apostas altas sobre o que a mãe vai decidir.
Marisa permanece imóvel. O olhar dela vai da filha para Larissa e depois para as mulheres enfileiradas atrás. O peso da escolha cai sobre ela como uma laje. Trabalhar nua uma semana sob o sol… ou mandar outra no lugar e ficar pendurada ao lado da filha, com mel atraindo insetos nos buracos abertos.
Nestor desliga o megafone por um momento e fala só para ela, baixo o suficiente para as três ouvirem:
— Pode pensar um pouco, mas não demora. Eu quero a resposta ainda hoje.
As três continuam na frente de todo mundo, nuas, destruídas, cada uma carregando agora o peso exato da sua colocação.
E a decisão mais cruel ainda precisa ser tomada, e Marisa fica parada no meio do salão como se o chão tivesse sumido debaixo dos pés. O barulho dos homens ao redor vira um zumbido abafado. As vozes, os assobios, as apostas altas… tudo fica distante. Dentro da cabeça dela só existe a escolha.
Trabalhar nua uma semana inteira sob o sol do garimpo. Carregar peso, cavar, sentir a lama e o olhar de todos enquanto o corpo ainda lateja dos três dias de competição.
Ou passar a obrigação para outra mulher e ficar pendurada no pau de arara ao lado da filha. Sol, chuva, mel nos buracos, insetos, uma semana inteira, mas perto de Jéssica. Mas pagando o preço de condenar outra. A tontura vem em ondas, o estômago revira, a febre que ainda não passou mistura com o frio na nuca. Marisa sente o mundo inclinar, as pernas tremem. Por um segundo ela acha que vai cair. Ela vira o rosto devagar e encontra os olhos da filha.
Jéssica está olhando para ela, ela não chora, não suplica em voz alta, só olha. No olhar da filha há medo, há dor, e há também uma pergunta muda e desesperada, você vai ficar comigo? Ao mesmo tempo, há o peso de saber que qualquer escolha da mãe vai machucar alguém. Se Marisa for para o trabalho, Jéssica fica sozinha no pau de arara. Se Marisa escolher ficar, alguma outra mulher vai carregar o sol e a lama no lugar dela. A troca de olhares dura só alguns segundos, mas parece longa demais. Marisa vê na filha o mesmo conflito que a está corroendo por dentro. Nenhuma das duas consegue sorrir, e nenhuma das duas consegue desviar o rosto.
Nestor bate o canivete na palma da mão, impaciente.
— Ei, puta imunda, não tenho a vida toda para essa decisão fácil, anda, decide logo. Ou você vai para o garimpo… ou escolhe outra puta e vai para o pau de arara junto com a sua filha. Fala logo.
A voz dele corta o zumbido. Vários homens riem e começam a gritar palpites:
— Manda outra!
— Fica com a filha, vai!
— Escolhe a mais nova para trabalhar no seu lugar!
Marisa sente o peito apertar. A decisão não é só sobre dor física, é sobre o tipo de pessoa que ela ainda consegue ser depois de tudo. Se escolher o trabalho, abandona a filha para sofrer sozinha durante sete dias. Se escolher ficar, carrega a culpa de apontar outra mulher para o sol e o cansaço brutal… e ainda assim vai sofrer ao lado de Jéssica.
A tontura volta mais forte, o suor frio escorre pelas costas, as orelhas zumbem. Ela abre a boca, mas nenhum som sai na primeira tentativa. O olhar de Jéssica continua cravado nela, esperando.
Nestor dá um passo à frente, a voz mais baixa e perigosa:
— Última chance. Se não falar agora, eu decido por você. E aí as duas vão para o pau de arara… e ainda mando a novata junto só de quebra e depois vão trabalhar trinta dias no garimpo. Fala vadia!
Marisa fecha os olhos por um segundo. Quando abre de novo, procura o rosto da filha uma última vez. O conflito continua roendo por dentro, sem resposta fácil, sem saída limpa. Só existe o peso da escolha e o olhar de Jéssica esperando.
O salão inteiro espera., e o tempo de Marisa está acabando.
Marisa abre a boca, e a voz sai rouca, baixa, mas alta o suficiente para o salão inteiro escutar.
— Eu fico.
Um silêncio curto.
— Eu fico no pau de arara com a minha filha.
Nestor ergue uma sobrancelha, quase divertido.
— Então você vai escolher outra para ir no seu lugar.
Marisa acena com a cabeça. O movimento é lento, pesado, como se cada centímetro custasse algo que ela não vai recuperar. Os olhos dela percorrem a fila de mulheres nuas atrás de si. Nenhuma se mexe, nenhuma ousa respirar fundo demais. Todas sabem o que está prestes a acontecer. O olhar de Marisa para.
Fixa numa mulher de uns trinta anos, corpo ainda firme, cicatriz antiga no ventre, uma das que sempre ficou quieta nos fundos. Não é a mais fraca, não é a mais odiada. É só… alguém.
— Ela, diz Marisa, apontando com o queixo.
A mulher escolhida empalidece na hora. Os lábios se abrem, mas nenhum som sai. Os olhos dela encontram os de Marisa por um segundo. Não há ódio ainda, só a compreensão fria de que acabou de ser entregue.
Nestor bate palmas uma vez, satisfeito.
— Fechado. A mãe fica com a filha no pau de arara. Uma semana com mel no cu e tomando Sol e chuva.
A escolhida vai para o garimpo, para trabalhar nua. Trabalho braçal enquanto tiver sol.
Os homens explodem em gritos e risadas. Alguns aplaudem, outros já começam a fazer filas mentais para a novata gratuita da semana.
Marisa não ouve quase nada disso. Ela vira o rosto para Jéssica, a filha a encara com os olhos muito abertos. Há alívio ali, alívio egoísta e desesperado por não ficar sozinha. Mas há também algo quebrado, a filha acabou de ver a mãe condenar outra mulher para poder ficar perto dela. E as duas sabem que essa imagem não vai sair nunca mais.
Marisa sente a rachadura se abrir dentro da cabeça. Não é só culpa, é a certeza fria de que ela acabou de atravessar uma linha da qual não existe volta. Durante todos aqueles dias de estupro, chicote, ferro e competição, ela ainda conseguia se enxergar como vítima. Agora não, agora ela apontou, agora ela escolheu, agora outra mulher vai carregar o sol e a lama porque ela não aguentou a ideia de deixar a filha sozinha no pau de arara. A tontura volta, o estômago revira. Por um instante ela acha que vai vomitar ali mesmo, na frente de todo mundo. Não vomita, só fica de pé, nua, com a decisão já dita e impossível de engolir de volta.
Nestor faz um gesto para os homens armados.
— Leva as duas paro pau de arara. A outra vai começar o trabalho amanhã cedo.
Enquanto arrastam Marisa e Jéssica para fora, a mãe ainda consegue olhar uma última vez para a mulher que escolheu. A mulher agora tem ódio nos olhos, Marisa sabe que merece. Dentro da cabeça dela, algo se parte de forma definitiva. Não é o corpo que acaba de quebrar, é o resto de pessoa que ela ainda tentava proteger.
E dessa rachadura, ela já entende, não vai nascer nada que possa ser consertado.
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