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Puteiro de Garimpo - Parte 8 - Colando cacos

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AnãoJediManco

Depois que Nestor dispensa a fila, as mulheres são empurradas de volta para dentro do Barracão. Ninguém fala. O caminho até os fundos é feito em silêncio absoluto. Só se ouve o arrastar dos pés descalços no chão de madeira, o tilintar ocasional das correntes de Larissa e a respiração ainda descompassada de algumas. Nenhuma olha para a outra, nenhuma ousa comentar. O cheiro de carne queimada ainda parece grudado nas narinas. A imagem da baixinha pendurada no pau de arara, com as costas abertas e a letra “N” fumegando na pele, fica colada atrás dos olhos de todas.
A porta do cômodo é trancada por fora. O cadeado estala, o calor lá dentro é abafado, pesado, quase sólido. O ar não circula, suor começa a escorrer de novo assim que elas se sentam ou se deitam nos colchões sujos. Por longos minutos, o silêncio continua.
Ninguém se mexe muito. Algumas ficam olhando para o nada, outras cobrem o rosto com os braços. Larissa está encolhida num canto, as algemas ainda nos pulsos, o corpo inteiro tremendo em espasmos curtos. Jéssica segura a mão da mãe com força demais. Marisa permanece sentada, as costas retas, mas os olhos estão vermelhos e distantes.
Só quando o barulho lá fora diminui um pouco, o movimento do garimpo voltando à rotina, é que as primeiras vozes surgem, vozes baixas, quase sem força.
— Eu nunca vi… a mulher das queimaduras começa, a voz rouca. Nunca vi tanto de uma vez só.
Outra, mais antiga, de cabelo já com fios brancos, balança a cabeça devagar.
— Eu tô aqui faz sete anos. Já vi chicote, já vi ferro, já vi pau de arara. Mas tudo junto… do jeito que foi… com a gente sendo obrigada a olhar… isso eu nunca tinha visto.
Uma terceira cospe no chão, sem força.
— As duas que bateram… vocês viram o olho delas no final? Tinha uma que tava quase gozando cada vez que a baixinha gritava. Isso é o pior, o lugar não só quebra quem apanha. Quebra quem é forçado a bater também.
Marisa fala baixo, quase sem mexer a boca:
— Ele fez de propósito, tudo, procissão, fuga. O castigo na frente de todo mundo, as que contam, as que batem, o ferro no rosto. Ele queria que a gente levasse essa imagem pro resto da vida.
Jéssica aperta mais a mão da mãe. A voz dela sai num fio:
— Eu achei que ela ia morrer no meio. Quando ela se cagou e desmaiou… eu achei que tinha morrido. E mesmo assim eles continuaram.
Larissa, ainda encolhida, solta um soluço baixo:
— Eu não aguento isso… eu não vou aguentar…
A mulher das queimaduras se aproxima dela e fala baixo, sem suavizar demais:
— Você vai. Porque não tem escolha, mas guarda o que viu. Todas nós vamos guardar, esse foi o recado. Fugir não é opção, se alguém tentar… já sabe o preço.
O silêncio volta a cair por alguns segundos. O calor dentro do cômodo parece mais pesado agora. O cheiro de suor, medo e sangue antigo mistura com a memória ainda fresca do chiado do ferro na carne.
A porta se abre de novo. As três mulheres que participaram do castigo são empurradas para dentro do cômodo. A que contava as chicotadas e as duas que bateram. A porta é trancada atrás delas com o mesmo estalo seco. Por um momento, ninguém fala.
Os olhares se viram todas ao mesmo tempo. Não é curiosidade, é julgamento pesado, silencioso. A que contava mantém a cabeça baixa, os ombros encolhidos. As duas que chicotearam ficam paradas perto da porta, como se ainda não soubessem onde se colocar. O suor ainda escorre pelos corpos delas. Uma delas, a morena de cabelo curto, tem as mãos manchadas de sangue seco.
A mulher das queimaduras é a primeira a quebrar o silêncio. A voz sai baixa, mas dura:
— Fala o que vocês sentiram. Desembuchem logo!
A que contava engole seco. Quando abre a boca, a voz sai rouca, quase sem força:
— Eu… eu só queria não errar o número. Eu só pensava que se eu errasse, ia recomeçar. E eu não ia aguentar ouvir tudo de novo desde o começo. Cada número… parecia que eu tava batendo também. Eu sentia o estômago revirar cada vez que ela gritava. Mas eu continuei, porque eu tinha medo. Eu não queria ir no lugar dela.
Ela para. As lágrimas escorrem, mas ela não limpa.
— No final eu nem tava pensando mais nela. Só nos números, como se contar fosse a única coisa que ainda me mantinha de pé.
As outras escutam em silêncio.
A morena de cabelo curto demora mais para falar. Quando fala, a voz sai estranha, como se ela mesma não quisesse ouvir o que ia dizer:
— No começo eu achei que não ia conseguir. O braço pesava, eu batia fraco de propósito. Aí o Nestor falou que ia me colocar no lugar dela. Aí eu comecei a bater mais forte. E… em algum momento… mudou.
Ela aperta os próprios braços, as unhas cravadas na pele.
— Eu comecei a sentir um negócio no estômago. Cada vez que ela gritava mais alto, eu sentia um calor, um negócio sujo. Eu odiei. Mas não parava, quanto mais ela gritava, mais eu queria que o próximo golpe doesse. No final… eu tava quase gozando com o som. Eu sei que é nojento, eu sei, mas foi o que aconteceu.
A terceira mulher, a mais velha das que bateram, fica quieta por longos segundos. Quando fala, a voz sai baixa e monótona, como se estivesse confessando um crime:
— Eu senti raiva, não dela, de tudo, de estar aqui, de ser obrigada, de ter que fazer aquilo. Aí cada chicotada virou um jeito de descarregar. Quanto mais sangue saía, mais eu sentia que tava tirando alguma coisa de dentro de mim. No final eu já não tava pensando em parar. Eu tava pensando em continuar, isso me assusta mais do que o chicote.
O silêncio que se segue é denso. Nenhuma das outras mulheres grita, nenhuma xinga, o julgamento está nos olhos. Algumas baixam a cabeça, outras apenas olham fixo, como se estivessem medindo a distância entre elas e aquelas três. A compreensão é cruel e coletiva, o lugar não só obriga a sofrer. Às vezes obriga a se tornar parte da engrenagem. E uma vez que se cruza determinada linha, algo fica manchado para sempre.
Marisa fala baixo, sem olhar diretamente para nenhuma das três:
— Vocês fizeram o que foram obrigadas a fazer. A gente sabe, mas o que vocês sentiram… isso fica com vocês. Do mesmo jeito que o que a gente viu fica com a gente.
Jéssica aperta mais a mão da mãe. Larissa continua encolhida, os olhos grandes, assustados, olhando para as três como se tivesse acabado de entender que o perigo não vinha só dos homens.
Dentro do cômodo quente e abafado, o peso daquilo tudo se acomoda sobre todas. Não há absolvição. Só a verdade nua de que, no Barracão das Sombras, a maldade não pertence apenas a quem manda. Às vezes ela encontra espaço também em quem obedece.
O silêncio depois das confissões pesa, mas não se transforma em acusação. Nenhuma das mulheres xinga as três. Nenhuma desvia o corpo com nojo. O olhar que resta é cansado, pesado, de quem entende a mecânica do lugar. A mulher das queimaduras é quem fala primeiro, depois do que elas puseram para fora, com a voz baixa e sem julgamento:
— Ninguém aqui vai culpar vocês. A gente sabe como funciona, se não batessem, eram vocês no tronco. Se errasse a conta, recomeçava tudo. Vocês fizeram o que tinham que fazer pra continuar vivas. O resto… o que sentiram… isso o lugar coloca dentro da gente. Não foi escolha de vocês.
Algumas cabeças se mexem em silêncio, concordando. A morena de cabelo curto ainda mantém os olhos no chão, mas os ombros dela afrouxam um pouco. A que contava limpa o rosto com as costas da mão, sem conseguir olhar ninguém diretamente.
Marisa se vira para Larissa, que continua encolhida no canto, as algemas nos pulsos, o corpo ainda tremendo em espasmos irregulares. Aproxima-se devagar e fala baixo, quase junto dela:
— Respira devagar. Você ainda está aqui dentro com a gente. O que aconteceu lá fora foi aviso, foi pra todas nós. Mas agora você precisa conseguir ficar em silêncio e não chamar atenção. É a única proteção que a gente tem.
Jéssica se senta ao lado da novata e toca de leve o braço dela, longe das algemas.
— Eu também cheguei com medo de tudo. Achei que ia enlouquecer, ainda acho, alguns dias. Mas a gente aguenta um pedaço de cada vez, só um pedaço.
Larissa engole seco, os olhos vermelhos. A voz sai num fio:
— Eu fico vendo ela… pendurada… com aquela letra no rosto… e as costas…
— A gente também, responde a mulher das queimaduras. Todo mundo aqui está vendo a mesma coisa.
O silêncio volta por alguns segundos. Depois uma das mais antigas, a de cabelo com fios brancos, pergunta baixo, quase sem esperar resposta:
— Vocês acham que ela aguenta? A baixinha, com as costas daquele jeito… o ferro… e agora no pau de arara, no sol e na chuva…
Ninguém responde na hora. A pergunta fica pairando no ar quente. Todas sabem o que significa ficar dias daquele jeito. Sem cuidado, sem remédio. Só o corpo tentando não desistir.
— Se sobreviver aos próximos dois dias… talvez, fala a mulher das queimaduras. Já vi mulher voltar de coisa parecida. Volta diferente, mais quieta, às vezes mais quebrada por dentro do que por fora. Mas volta. Outras… não.
Marisa olha para a porta trancada e depois para as outras.
— E a noite de hoje? Vocês acham que ele vai deixar a gente quieta depois de tudo isso?
A pergunta muda o ar do cômodo. Algumas se mexem, desconfortáveis. A possibilidade de serem chamadas naquela mesma noite, ainda com o cheiro de carne queimada na memória e o corpo da baixinha pendurado lá fora, pesa sobre todas.
A mulher de cabelo branco balança a cabeça devagar.
— O Nestor não para o movimento por causa de castigo. Se tiver homem pagando, ele manda chamar. Pode ser que chame logo as que bateram… pra lembrar elas do lugar delas. Pode ser que chame a novata, pra começar a “ensinar”. Pode ser qualquer uma de nós. Depois de um dia como esse, ele gosta de ver se ainda tem alguém com coragem de demorar a obedecer.
Larissa aperta mais os joelhos contra o peito. Jéssica e Marisa trocam um olhar rápido. Nenhuma das duas precisa falar. As duas já entenderam, o espetáculo de hoje não encerrou nada. Só aumentou o peso do que ainda pode vir.
Dentro do cômodo quente, o medo agora tem várias camadas.
Medo do que aconteceu, medo do que pode acontecer com a baixinha lá fora, medo da noite que ainda não começou.

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