#Assédio #Estupro #Sado #Voyeur

Puteiro de Garimpo - Parte 7 - Castigo

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AnãoJediManco

O triciclo faz a curva final e retorna na direção do Barracão das Sombras. A procissão chega exausta. Larissa ainda é puxada pela coleira, os pés queimados da lama quente, o pescoço marcado pelo couro. Atrás dela, a baixinha de coxas grossas continua engatinhando amarrada na traseira do veículo, os pulsos esfolados, o rosto sujo de sangue seco e barro, as marcas do cinto ainda vivas nas costas e nas nádegas. As outras mulheres andam em fila, nuas, suadas, em silêncio.
Quando o triciclo para na frente do puteiro, Nestor levanta a mão.
— Ninguém entra.
As mulheres param, algumas tentam se aproximar da porta por instinto, buscando sombra ou qualquer alívio. Os homens armados bloqueiam a passagem imediatamente.
— Ficam aí, em pé e no Sol, todas.
Não há banco, não há sombra de verdade, o sol da tarde ainda queima. As mulheres são obrigadas a permanecer alinhadas na frente do Barracão, nuas, expostas, com os pés no chão quente. Larissa continua presa pela coleira ao triciclo. A baixinha é desamarrada dos pulsos, mas forçada a ficar de joelhos na lama, a poucos metros à frente das outras.
Nestor anda devagar na frente delas, as mãos na cintura, o olhar passando por cada corpo como quem conta gado.
— Essa daqui ele aponta com o queixo para a baixinha, achou que podia correr. Achou que o mato ia esconder ela. Achou errado, né, puta maldita.
Ele se vira para os homens que já começam a se reunir ao redor. Garimpeiros, traficantes, alguns dos que tinham xingado durante o percurso. O círculo de espectadores cresce rápido.
— Agora vocês vão decidir. O que a gente faz com puta que foge?
As propostas começam baixas e logo sobem, sujas, sem nenhum freio:
— Chicote de novo até ela desmaiar.
— Amarrar ela ali fora a noite inteira, pro mosquito comer.
— Deixar os cachorros farejarem ela.
— Foder ela aqui mesmo, na frente de todo mundo, até ela aprender.
— Marcar ela com ferro. Pra não esquecer.
A baixinha permanece de joelhos, a cabeça baixa, a respiração ofegante. Não pede, não chora alto, só espera. As outras mulheres ficam em pé atrás, obrigadas a assistir, sem poder se sentar, sem poder entrar, sem poder desviar o olhar por muito tempo. O suor escorre pelos corpos. As pernas começam a tremer de cansaço. Ninguém ousa se mexer.
Marisa sente o peso do sol e do medo ao mesmo tempo. Jéssica ao lado dela aperta os próprios braços, as unhas cravadas na pele. Larissa, ainda com a coleira no pescoço, observa tudo com os olhos arregalados, entendendo na prática o que acontece com quem tenta escapar. Nestor deixa os homens falarem por um tempo, deixa o medo crescer, e depois levanta a mão de novo, pedindo silêncio.
— Calma. A gente vai decidir direito sem pressa.
Ele olha para a baixinha de joelhos e depois para a fila inteira de mulheres nuas, em pé, esperando.
— Enquanto isso, ninguém se mexe. Ficam aí, olhando e aprendendo.
O sol continua queimando. Os homens continuam circulando, comentando, rindo, apontando. E as mulheres permanecem exatamente onde foram colocadas, em pé, na frente do puteiro, proibidas de entrar, proibidas de sentar-se, obrigadas a esperar o julgamento daquela que ousou correr. No Barracão das Sombras, até o castigo é espetáculo, e todas são forçadas a assistir.
As mulheres continuam em pé na frente do Barracão, nuas, sem sombra, sem água, sem permissão para se mexer. O chão quente queima a sola dos pés. O suor escorre pelas costas, entre os seios, pela virilha, e seca rápido demais, deixando a pele espetada de sal. Algumas já tremem nas pernas de puro cansaço. Outras balançam o corpo de leve, tentando aliviar a dor nos pés sem chamar atenção. O calor entra pela boca quando respiram. A cabeça lateja.
O medo, porém, pesa mais que o sol. Todas sabem o que está sendo decidido ali na frente. Os homens formam um semicírculo ao redor de Nestor e da baixinha de joelhos. Falam baixo demais para as mulheres ouvirem as palavras inteiras, mas alto o suficiente para o tom chegar, risadas curtas, vozes grossas, o som de alguém cuspindo no chão. De vez em quando um deles olha para a fila de mulheres nuas e sorri. Esse sorriso faz o estômago de várias delas revirar.
Larissa, ainda com a coleira no pescoço, sente as pernas fraquejarem, seu pescoço dói. O medo dela é novo, cru, quase infantil. Ela ainda não aprendeu a esconder. Marisa mantém o maxilar travado, mas as unhas estão cravadas tão fundo na própria palma que já sangram. Jéssica respira pela boca, rápida demais, os olhos fixos na baixinha de joelhos como se olhasse o próprio futuro possível.
Nenhuma delas fala. Falar pode chamar atenção, e atenção, naquele momento, é perigoso. Depois de longos minutos, Nestor se vira para a fila. O silêncio que cai é pior que os insultos de antes. Ele anda devagar até ficar bem na frente das mulheres, com a baixinha ainda de joelhos ao lado.
— Escutem todas, a voz dele sai calma, quase cansada. Para ninguém depois dizer que não sabia.
Ele aponta com o queixo para a mulher que tentou fugir.
— Duzentas chicotadas, contadas, uma por uma. Depois, ferro quente. Nas duas coxas e no rosto. Para ficar marcado, para todo mundo ver de longe quem tentou correr. Se ela ainda estiver viva quando acabar… vai pro pau de arara. Embaixo daquela árvore ali. Fica lá uns dias. Sol, chuva, mosquito, sem água direito. Até aprender que daqui não se sai.
A baixinha solta um som baixo, quase um gemido abafado, não é um pedido, é só o corpo reagindo antes da cabeça.
Entre as mulheres em pé, o medo se espalha como calor. Uma delas fecha os olhos com força. Outra morde o lábio até sangrar. Larissa sente o queixo tremer e aperta as algemas contra o peito, como se pudesse se proteger. Jéssica encosta de leve o ombro no da mãe, buscando qualquer contato. Marisa não se mexe, mas o olhar dela está vidrado, calculando em silêncio o que duzentas chicotadas e ferro no rosto significam de verdade.
Nestor deixa o anúncio assentar, deixa o medo trabalhar.
— Todo mundo vai assistir, tudo, e sessão completa. Ninguém vira a cara, ninguém fecha o olho. Quem desviar o olhar leva chicote também, aqui a gente ensina todas e vão sofrer juntas.
O sol continua queimando, o suor continua escorrendo, e as mulheres permanecem exatamente onde foram colocadas em pé, expostas, com as pernas tremendo e a certeza fria de que o que vem a seguir não é só castigo. É um aviso para todas.
O silêncio que se segue ao anúncio é pior do que qualquer grito. Ninguém se mexe, o sol continua batendo forte na pele pálida das putas, o suor escorre. As moscas já começam a pousar na pele suada das mulheres em pé. A baixinha permanece de joelhos, a cabeça baixa, a respiração curta e irregular. O sangue seco no rosto dela mistura com o suor novo. Ela não pede. não chora alto, só espera. Esse silêncio dela assusta mais do que se ela estivesse gritando.
As outras sentem o peso da espera em cada músculo. As pernas tremem, os pés queimam. O medo se instala de um jeito diferente agora, não é mais o medo vago do que pode acontecer. É o medo concreto de ter que participar.
Nestor anda devagar na frente da fila. Os olhos passam por cada rosto suado, cada corpo tenso. Ele está escolhendo. Para na frente de uma mulher mais alta, de seios pesados e cicatriz antiga no ventre.
— Você vai contar em alto ada chicotada. Se errar a conta, a gente recomeça do zero. E você dividirá as chicotadas com essa vadia nojenta que tentou fugir.
A mulher engole seco e só acena com a cabeça. A voz dela nem sai. Nestor continua andando, para na frente de duas outras. Uma é a morena de cabelo curto que dançou no pole dias atrás, a outra é uma mulher mais velha, de olhar sempre baixo.
— Vocês duas, vão dar as chicotadas. Revezam e tenham braço forte. Se eu achar que tá fraco, eu mesmo ensino como se bate, e vai ser em vocês.
As duas empalidecem sob o sol. Uma delas abre a boca para falar, mas Nestor já se virou. Não há espaço para pedido. Ele aponta para mais duas mulheres no final da fila.
— Vocês duas, peguem as pás que tão ali perto da pilha de madeira. Vão cavar aqui na frente, bem fundo. Fundo o bastante para segurar um tronco em pé.
As duas hesitam só um segundo. Um dos homens armados dá um passo na direção delas. Elas se mexem, pegam as pás. O som da lâmina entrando na terra quente e dura quebra o silêncio. Cada pá de terra jogada para o lado é um segundo a mais de espera. O buraco vai crescendo devagar, o suor escorre dos corpos das duas enquanto cavam, nuas, sob o olhar de todos.
Quando o buraco está fundo o suficiente, Nestor manda trazer um tronco grosso, já preparado. Puxado por outras putas, os homens enfiam o tronco no buraco e firmam com terra e pedras, batendo com a pá até ele ficar sólido, vertical, como um poste. A madeira é áspera, cheia de farpas.
A baixinha é puxada pelos cabelos até ficar de pé na frente do tronco. Os homens a viram de costas para ele. Amarram os pulsos para cima, esticados, com corda grossa. Depois amarram os tornozelos na base do tronco, forçando as pernas a ficarem abertas. O corpo dela fica completamente exposto, as costas, as nádegas, as coxas e o rosto de lado, visível para todas as outras.
Nestor olha o trabalho e acena, satisfeito.
— Agora sim.
Ele se vira para a fila de mulheres que continuam em pé, queimando sob o sol.
— Todo mundo olhando, ninguém desvia os olhos. A que conta, conta alto. As que batem, batem com vontade. E as outras… aprendem.
O silêncio volta a cair por mais alguns segundos. Só se ouve a respiração ofegante da baixinha amarrada no tronco, o zumbido das moscas e o barulho distante de um motor de balsa.
Depois Nestor faz um gesto curto com a mão. O tormento está prestes a começar.
A primeira chicotada corta o ar com um estalo seco. O chicote de couro acerta bem no meio das costas da baixinha. A pele se abre num filete fino e vermelho. O grito dela sai alto, agudo, e se espalha pelo garimpo. Homens que estavam longe param para escutar.
A mulher encarregada de contar engole seco. A voz sai embargada, quase falhando:
— U-uma…
Nestor, de braços cruzados, apenas observa.
A segunda vem segundos depois. Mais forte, atinge a mesma região, abrindo mais o corte. O grito é ainda mais alto. A baixinha puxa os braços contra as amarras, o corpo inteiro se contorce no tronco.
— Duas…
As chicotadas não vêm em sequência rápida. Nestor mandou que fossem intervaladas. Tempo suficiente para o grito ecoar, para a dor assentar, para a mulher recuperar o fôlego só o bastante para gritar de novo. Cada intervalo é uma tortura à parte, o silêncio entre um golpe e outro é preenchido pelo soluço dela, pelo zumbido das moscas e pela respiração contida das outras mulheres em pé.
A morena de cabelo curto é a próxima a bater. No começo o braço treme, o chicote não desce com toda a força. Nestor nota na hora.
— Mais forte, vagabunda, ou eu troco você e te coloco no lugar dela.
O próximo golpe vem com mais ódio. O estalo é mais alto, a pele se rompe de verdade. Sangue começa a escorrer em fios finos pelas costas. O grito da baixinha rasga a tarde.
— T-três… a voz da que conta falha. As lágrimas escorrem, mas ela não para.
As mulheres em fila sofrem junto. Cada grito faz o corpo delas reagir. Larissa chora sem som, as algemas trementes. Jéssica tem o queixo tremendo, os olhos vermelhos, mas não desvia o olhar, Nestor está prestando atenção. Marisa permanece rígida, o maxilar tão apertado que dói, sentindo cada chicotada como se fosse nela.
Com o passar dos golpes, algo muda nas duas que estão batendo.
No início era só medo, a obrigação e o risco de estar no lugar da vítima, nojo de si mesmas. Mas depois da décima, da décima quinta, o braço já não treme tanto. O estalo do couro na carne começa a produzir um efeito estranho. A morena sente um calor subindo pela barriga quando o grito da baixinha sai mais desesperado. A outra, a mais velha, percebe que está respirando mais rápido, que a mão aperta o cabo do chicote com força demais, que parte dela espera o próximo intervalo acabar.
Nestor ri baixo quando nota.
— Isso. Agora sim. Podem bater com vontade, vacas.
Os golpes ficam mais pesados e mais precisos. Atingem as nádegas, a parte de trás das coxas, de novo as costas. A pele vai se abrindo em várias linhas vermelhas que se cruzam. O sangue escorre pelas pernas da baixinha e pinga na terra quente. Os gritos já não são só de dor, são de desespero puro, a voz começando a sumir.
A que conta continua, a voz cada vez mais quebrada:
— Vinte e dois…
— Vinte e três…
— Vinte e quatro…
Cada número sai como se doesse na garganta dela, mas ela não erra. O medo de recomeçar do zero é maior.
As duas que chicoteiam já não precisam de ameaça. O braço sobe e desce com ritmo. Há um brilho estranho nos olhos delas. Não é só medo agora, há prazer, um prazer sujo, culpado, que nasce da possibilidade de descarregar em outra o ódio que não podem descarregar em ninguém. Cada grito da baixinha alimenta esse prazer torcido. Cada vez que o corpo amarrado se contorce, algo dentro delas se acende.
As outras mulheres veem isso. E o medo aumenta, porque entendem que o lugar não só destrói quem recebe a dor. Também corrompe quem é forçado a aplicar. O sol continua queimando, o sangue continua escorrendo. E a contagem, embargada, assustada, segue em frente, uma por uma, enquanto o garimpo inteiro escuta os gritos.
O tormento mal começou para essa coitada. As chicotadas passam da casa dos trinta, ainda falta muitas até o sofrimento dela acabar.
O corpo da baixinha já não reage do mesmo jeito. No começo ela se contorcia inteira, puxava as amarras, o grito saía inteiro. Agora os movimentos são mais curtos, descontrolados, como se os músculos estivessem falhando. A pele das costas é um mapa de cortes abertos que se cruzam. O sangue não escorre mais em fios finos, desce em veios mais grossos, misturado com suor, pingando sem parar na terra quente. Algumas moscas já pousam nos ferimentos. A voz dela muda, não é mais só grito de dor. É um som mais rouco, mais fundo, que rasga a garganta. Entre um golpe e outro ela solta soluços curtos, engasgados, como se estivesse se afogando no próprio sofrimento. Quando a chicotada acerta em cima de um corte já aberto, o ululo que sai dela faz várias mulheres na fila estremecerem ao mesmo tempo.
— Trinta e oito…
— Trinta e nove…
— Quarenta…
A que conta já chora abertamente. A voz sai embargada, falhando no meio dos números, mas ela não para. O medo de errar e recomeçar é maior do que a náusea.
As duas que batem estão irreconhecíveis. O braço sobe e desce com precisão cada vez maior. Já não há hesitação, há ritmo, há intenção. A morena de cabelo curto morde o lábio inferior enquanto desfere o golpe, os olhos brilhando com uma mistura turva de ódio, culpa e prazer. A outra respira pela boca, ofegante, e em certos momentos solta um som baixo, quase um gemido, quando o couro encontra a carne e o grito da baixinha sobe. O prazer delas não é limpo. É sujo, vergonhoso, e por isso mesmo mais intenso. Cada chicotada vira uma válvula. Cada grito da mulher amarrada alimenta algo que nenhuma das duas queria descobrir que existia dentro de si.
Na fila, o medo extrapola.Larissa está tremendo tanto que as correntes nos tornozelos tilintam sem parar. As pernas dela falham, ela cai de joelhos sem conseguir se segurar. Ninguém a manda levantar-se O choro dela agora é aberto, descontrolado, de quem está vendo o próprio futuro possível sendo esfolado a poucos metros de distância. Jéssica aperta o braço da mãe com tanta força que as unhas entram na pele. O rosto dela está branco. Em determinado momento ela desvia o olhar por um segundo, só um segundo, e Nestor nota.
— Olho nela, ordena, frio. Se desviar de novo, você é a próxima no tronco.
Jéssica volta a olhar. As lágrimas escorrem sem parar, mas ela não desvia mais.
Marisa sente algo se quebrar dentro do peito. Não é só medo, é a compreensão fria de que aquele lugar não tem fundo. Que a dor pode sempre aumentar, que o corpo humano aguenta coisas que a mente não deveria testemunhar. O suor escorre pelo rosto dela misturado com lágrimas que ela nem percebe que estão caindo. Outras mulheres na fila começam a ceder.
Uma delas, mais ao fundo, começa a rezar baixo, palavras emboladas, sem sentido. Outra cospe bile no chão, o estômago incapaz de segurar. Uma terceira simplesmente desaba sentada, as pernas sem força, e fica olhando para o tronco com a boca entreaberta, o olhar vazio, como se a mente tivesse decidido se desligar para não processar mais.
O chicote continua, cinquenta, sessenta, setenta.
A baixinha já não grita com a mesma força. Os sons que saem dela agora são mais graves, mais curtos, entrecortados por engasgos. Em alguns intervalos ela apenas geme, um som contínuo e rouco, enquanto o corpo pende mais pesado nas amarras. A pele das nádegas e das coxas está tão aberta quanto as costas. Em alguns pontos a carne aparece de um vermelho escuro, brilhante de sangue fresco. O cheiro metálico se mistura ao cheiro de suor e terra quente.
A dor passou do ponto em que era só dor. Virou algo ultrajante, insuportável. Uma ofensa contínua ao corpo. Cada nova chicotada não só machuca, rasga o que ainda restava de inteiro. E o pior é o intervalo, esses segundos em que ela recupera só o bastante da consciência para perceber que ainda não acabou. Que ainda falta muito.
As que batem já não conseguem esconder o prazer. Há um brilho febril nos olhos delas, o braço cansa, mas elas não param. Quando o golpe acerta precisamente e o corpo da baixinha se debate com o pouco de força que ainda resta, uma das duas solta uma risada curta, baixa, quase histérica. A outra aperta as coxas uma contra a outra, sem perceber, enquanto ergue o chicote outra vez.
O medo na fila se transforma em algo maior. Não é mais só medo de sentir a mesma dor. É medo de um dia ser obrigada a segurar o chicote. Medo de descobrir, como aquelas duas estão descobrindo, que parte de si pode gostar. Medo de que o Barracão das Sombras não destrói só a carne. Destrói também o que a pessoa ainda acredita ser.
O sol ainda está alto e o tormento ainda está longe do fim.
As chicotadas passam das cento e oitenta e o corpo da baixinha quase não reage mais. Os gritos viraram sons roucos, curtos, quase sem voz. Em alguns golpes ela só solta um gemido baixo, abafado, como se a garganta já não aguentasse rasgar mais. As costas são um único ferimento aberto. Não há mais pele intacta entre os ombros e a cintura. É carne viva, vermelha-escura, brilhante de sangue fresco e coagulado, com farpas de pele solta pendendo em alguns pontos. As moscas pousam sem serem espantadas.
No golpe cento e oitenta e sete, ela desmaia. A cabeça pende para frente e o corpo inteiro afunda nas amarras e um fio de saliva escorre do canto da boca. Nestor levanta a mão.
— Para.
Um dos homens se aproxima com um balde de água suja e joga na cara dela. A baixinha se engasga, tosse, os olhos se abrem por um segundo, sem foco. O chicote volta a descer. Ela grita mais fraco, poucos golpes depois, desmaia outra vez. Acordam ela de novo, água no rosto, tapa na cara e puxão no cabelo. Ela acorda, e o chicote continua.
É nesse ponto que o corpo dela cede por completo. Um cheiro forte se espalha, ela se mija. O líquido escorre pelas pernas abertas, misturando com o sangue que já descia das coxas. Logo depois o intestino não segura mais com a musculatura destruída pela dor, a merda sai devagar, sujando as nádegas, as coxas, pingando no chão junto com o sangue. O cheiro é pesado, ácido, misturado ao metálico do sangue e ao suor azedo.
Nenhuma das mulheres na fila desvia o olhar, Nestor não permite, algumas choram em silêncio. Outras estão pálidas, nauseadas. Larissa vomita no chão, ainda de joelhos. Jéssica tremendo tanto que precisa se apoiar na mãe. Marisa mantém os olhos abertos à força, o rosto rígido, mas por dentro algo se quebra de vez.
As duas que chicoteiam continuam. Mesmo com o corpo inerte, mesmo com o cheiro, mesmo com a mulher desmaiando a cada poucos golpes. Agora já não há só prazer, há um vazio estranho nos olhos delas. Como se tivessem atravessado alguma linha e não soubessem mais voltar. O braço sobe e desce quase mecanicamente, o estalo do couro na carne viva é molhado, diferente. Cada vez que a baixinha é acordada e solta um som fraco, uma delas aperta mais o cabo do chicote.
A que conta mal consegue falar. Os números saem arrastados, embargados, entrecortados por soluços:
— Cento e noventa e um…
— Cento e noventa e dois…
— Cento e noventa e três…
A baixinha não abre mais os olhos. Mesmo quando a acordam, as pálpebras continuam pesadas, entreabertas no máximo, sem foco. A boca permanece entreaberta. O corpo só reage com espasmos curtos quando o chicote acerta precisamente na carne já destruída.
As últimas chicotadas são quase administradas num corpo que já não está plenamente consciente. Mesmo assim, Nestor manda completar.
— Duzentos.
O último estalo ecoa. O braço da mulher que batia cai ao lado do corpo. O chicote fica pendurado na mão dela, sujo de sangue.
A baixinha pende nas amarras, imóvel. As costas são uma única superfície aberta, em carne viva. As pernas sujas de sangue, mijo e merda. O rosto inchado, sujo, a boca frouxa. Por longos segundos parece que não respira. Depois o peito sobe. Fraco, irregular, mas sobe.
Ela sobreviveu.
Nestor olha o corpo amarrado no tronco e acena, satisfeito.
— Ainda vive. Bom, isso é muito bom. Agora limpa essa merda e prepara o ferro. Ela ainda vai carregar a marca.
O silêncio que se segue é pesado, sujo, cheio do cheiro da dor. As mulheres em fila continuam de pé, quebradas por dentro de formas diferentes. Algumas já não choram mais. Só olham e entendem, com uma clareza cruel, que o Barracão das Sombras não tem limite. Só tem o próximo passo.
O ferro é trazido num pedaço de madeira. É uma haste grossa, com a letra “N” soldada na ponta. Um dos homens acende o maçarico, a chama azul-alaranjada lambe o metal. O som do gás saindo e o chiado do ferro esquentando cortam o silêncio. Todos olham, e ninguém fala.
O metal demora a ficar no ponto. Primeiro escurece, depois começa a ficar alaranjado. Por fim, vermelho-vivo, brilhante, quase branco no centro da letra. O calor faz o ar ao redor tremer, e o cheiro de metal superaquecido se espalha.
A baixinha ainda pende no tronco. Mal consciente, com as pálpebras inchadas que não abrem de verdade. A respiração é curta, irregular. Quando o homem se aproxima com o ferro vermelho, ela nem reage de imediato.
Nestor faz um gesto.
— Coxa esquerda primeiro.
Dois homens seguram a perna dela. O ferro desce.
O contato produz um chiado alto, úmido, horrível. A pele e a carne chiam. Uma fumaça fina e acinzentada sobe junto com um cheiro que ninguém consegue ignorar, carne queimada misturada com sangue coagulado e suor. O grito que sai da baixinha é diferente de todos os anteriores. É mais agudo, mais desesperado, como se a dor do ferro fosse uma ofensa nova, ainda pior que o chicote. O corpo inteiro se debate nas amarras com a última força que sobrou.
O homem mantém o ferro pressionado longos segundos. Quando tira, a letra “N” está marcada fundo, vermelha-escura, a pele ao redor já começando a inchar e escurecer.
— Agora a outra coxa.
O mesmo processo. O mesmo chiado. O mesmo cheiro forte de carne queimada se espalhando no ar quente. Várias mulheres na fila viram o rosto por instinto. Nestor grita na hora:
— Olho nela!
Todas voltam a olhar. Larissa chora sem som, o corpo inteiro tremendo. Jéssica tem náusea visível. Marisa permanece rígida, mas o olhar está vidrado, como se estivesse gravando cada detalhe à força.
Por último, o rosto. Um homem segura a cabeça da baixinha pelo cabelo, forçando o lado esquerdo do rosto para cima. O ferro vermelho se aproxima da face. O chiado dessa vez parece mais alto. O grito dela rasga o que ainda restava de voz. O cheiro de carne queimada fica ainda mais forte, misturado ao sangue que ainda escorre das costas. Quando o ferro é retirado, a letra “N” fica marcada na carne da face, logo abaixo do olho, permanente, impossível de esconder.
A baixinha desmaia de novo. Dessa vez não acordam ela na hora. Nestor olha o trabalho e acena.
— Pronto. Agora todo mundo sabe quem tentou correr.
Dois homens desamarra o corpo dela do tronco. Ela cai como peso morto. Arrastam a mulher até uma árvore próxima, onde o pau de arara já está armado, uma estrutura simples de madeira, com uma viga horizontal. Amarram os pulsos dela juntos, passam a corda por cima da viga e puxam até o corpo subir, os braços esticados acima da cabeça, os pés longe do chão. As pernas ficam pendendo, abertas. As costas destruídas e as marcas de ferro ficam completamente expostas ao ar, às moscas e ao sol.
Ela fica ali, pendurada, inconsciente, o corpo sujo de sangue, merda, mijo e terra. A respiração ainda existe, fraca. As marcas do ferro já estão inchando. As costas continuam abertas. Nestor se vira para as mulheres que ainda estão em pé, queimadas pelo sol, quebradas por dentro.
— Olhem bem. Essa daqui fica uns dias, sem água direito, sem sombra. Só o que a gente mandar. Quem mais tiver ideia de correr… já sabe o caminho. Ele faz um gesto dispensando a fila.
— Agora podem entrar. Quem for chamada hoje, limpa o sangue e se prepara. O trabalho não parou.
As mulheres se movem devagar, em silêncio. Nenhuma olha para trás por muito tempo. Mas todas carregam a imagem, a baixinha pendurada no pau de arara, sob a árvore, com a letra “N” queimada nas coxas e no rosto, e as costas em carne viva.
No Barracão das Sombras, o aviso ficou claro. E a noite ainda vai chegar.

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