Tio Pedro, faculdade e Desejos
O e-mail da Universidade Federal tinha chegado na segunda-feira. Arquitetura, finalmente eu passei!
Meu nome estava lá, Leonardo Marion. A felicidade durou exatamente até eu lembrar que a faculdade ficava em outro estado, a cinco horas de ônibus da minha cidade natal.
Inicialmente tentei fazer uma vaquinha para custear minha vida lá, mas poucos me ajudaram.Foi então que minha mãe sugeriu.
— Liga pro seu tio Pedro. Ele e a tia Aline têm aquela casa enorme em Curitiba, sobra quarto e tem mais, eles adoram você.
Adoram mesmo. Sempre me trataram como filho, talvez porque não tiveram filhos próprios. Minha tia Aline, com seus quarenta e poucos anos de elegância discreta, sempre me presenteava com livros e perfumes importados. Já meu tio Pedro... meu tio Pedro era diferente. Bruto, expansivo, com aquela risada que tomava conta de qualquer ambiente, mas ainda sim, muito amoroso comigo, às vezes até demais.
Liguei. Ele atendeu com aquela voz grave, parecia que tinha fumado, mas nunca se quer colocou um cigarro na boca.
— Claro que sim, ruivinho. Vem pra cá. A gente cuida de você. A tia vai te esperar com o bolo de sempre hahaah.
Ruivinho. Apelido de infância que nunca perdeu. Ele sempre me chamava assim, além de elogiar minhas habilidades no tênis, titio fazia questão de elogiar todos os meus traços físicos, inclusive minha bunda.
Foram horas de viagem de ônibus e eu já estava pensando em desistir, mas quem diria que eu ganharia uma recompensa tão boa assim?
A casa era mais bonita do que eu lembrava. Dois andares, jardim impecável, bairro silencioso. A tia Aline me recebeu com aquele abraço perfumado de sempre e me levou até o quarto de hóspedes no segundo andar. Cama de casal, escrivaninha antiga, janela com vista para o quintal.
— Faz o que quiser desse espaço, Leo. É seu por cinco anos. - ela saiu do quarto me entregando a chave do quarto.
Tio Pedro apareceu no corredor, saindo do banheiro. Apenas de samba-canção preta e nada mais. A barriga de chop estava ali, juntos com pelos escuros cobrindo o peito largo, os ombros musculosos de quem trabalha com o corpo, as pernas grossas e firmes.
— E aí, novo universitário! — Ele veio pra cima de mim, abraço de urso que me fez desaparecer por um segundo dentro daquele calor masculino. Ele ainda estava molhado do banho, mas o cheiro de homem não saia dele.
Senti o cheiro dele. Sabão, desodorante sem frescura. Quando ele se afastou, notei o volume na frente da samba-canção. Não era pequeno. Balançou quando ele se virou para descer as escadas, pesado, desinibido.
— Tá confortável demais, né tio? — ri, sem malícia.
— Minha casa, minhas regras, ruivinho. Aqui a gente vive solto.
Não que eu odiasse a cena, mas seria tão difícil para mim ver aquilo balançando.
A tia Aline saiu na quinta-feira. Congresso de cosméticos em São Paulo, cinco dias fora. Deixou a casa organizada, a geladeira cheia, e um beijo no rosto de cada um. Tio pedro odiou a ideia, mas falou que iria fazer mais plantões no hospital para suprir a saudade da tia e não ficar muito em casa… Ele mentiu.
— Cuidem um do outro. Nada de fazer bagunça e pelo amor de Deus, não peçam só ifood.
Foram nesses dias que eu vi, senti e presenciei o que era um homem com tesão.
Titio era mesmo desinibido. Andava de samba-canção pela casa, às vezes sem camiseta, às vezes com uma velha regata branca que deixava os pelos do peito escapando pelas laterais. Na cozinha, na sala, no quintal. O volume entre suas pernas sempre estava presente, balançando pesadamente quando ele se movia, como se tivesse vida própria.
Eu tentava não olhar. Tentava. Eu estava na flor da idade, já tinha beijado alguns amigos e queria tanto sentir algo além de uma língua na minha boca. Mesmo que fosse errado, mesmo que fosse com meu tio.
Mas tinha algo na forma como ele se sentia em casa, completamente à vontade com sua masculinidade, sem vergonha, sem pudor. Eu, que sempre fui mais delicado, mais suave, que nunca me encaixei direito nos códigos de macho que esperavam de um rapaz ruivo e sardento...
Comecei a notar mais do titio. O formato da cabeça dele através do tecido fino quando ele acordava de manhã, semi-ereto. A forma como ele se alongava, braços para cima, barriga para fora, a samba-canção esticando sobre aquela massa entre suas pernas.
No segundo dia, ofereci-me para lavar as roupas. A pilha de roupas já começava a crescer, e eu me sentia na obrigação de fazer algo pela casa.
— Sério, Leozinho? Você é um anjo, sabia? - disse passando a mão na minha cabeça e fazendo um cafuné.
Foi assim que acabei com as cuecas dele nas mãos. Era isso que eu queria!
Levantei até o rosto antes de colocar na máquina. O cheiro me atingiu como um tapa, uma tapa agradável e que fez meu cuzinho piscar de tesão. O aroma, o suor masculino, amadeirado. Fechei os olhos e inspirei mais fundo, sentindo meu próprio corpo reagir, as mãos trêmulas.
Guardei o segredo. O segredo e a excitação. A vontade de lamber e de guardar a cueca para mim.
Os dias foram se passando e novamente fui lavar as roupas. Estava ansioso para sentir o titio denovo.
Então, repita a rotina: café da manhã com ele de samba-canção (hoje azul-clara, marcando a cabeça gigante do titio), conversas sobre a faculdade, ele rindo da minha seriedade de adolescente recém-saído do ensino médio. A tarde, a coleta de roupas para lavar.
As cuecas dele estavam no alto da cesta. Mesmo modelo, cor vermelho vinho desta vez. Quando peguei, senti algo dentro. Papel dobrado.
Desdobrei pensando que era algum dinheiro ou coisa do tipo. Mas era um bilhete e com a letra dele, aquela letra de médico, ilegível, escrito apenas umas frase:
*"Vem cheirar direto da fonte, safada."*
Li três vezes. Tinha uma audácia e um medo, um receio e uma vontade incontrolável… Eu queria, mas e se não desse certo?
Ele provavelmente tinha me visto. Naquela terça, quando eu achava que estava sozinho na lavanderia, com o rosto enfiado naquela cueca cinza...
Fiquei parado por dez minutos. O que fazer? Negar? Ignorar? Correr?
Ou...
Desci as escadas devagar. Ele estava na sala, no sofá, de samba-canção como sempre, mas desta vez com a perna aberta, o volume visível e propositalmente exposto. Um copo de cerveja na mão, os olhos no jogo de futebol.
— Tio!
— E aí, ruivinho. Lavou as roupas?
— Lavei. — Minha voz saiu estranha, fina. — Encontrei... algo.
Ele girou a cabeça lentamente. O olhar dele, castanho escuro, quase preto, encontrou o meu. Havia ali uma provocação madura, confiante, de quem sabe exatamente o que quer.
— Achou mesmo? — A voz saiu mais grave que o normal. — E o que você vai fazer sobre isso?
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