Puteiro de Garimpo - Parte 6 - Expectativas
O dia nasce sujo sobre o garimpo. A luz cinzenta da manhã encontra Marisa jogada na porta do Barracão das Sombras. Nua, coberta de lama, mijo seco, porra ressecada e marcas de chutes. O cabelo grudado no rosto. Os lábios rachados, as coxas abertas demais, como se o corpo tivesse esquecido como se fechar. Ela mal consegue se mexer quando dois homens a agarram pelos braços e a arrastam para dentro, direto para os fundos.
A porta do cômodo das mulheres se abre. Marisa é empurrada para dentro e a tranca volta a fechar. Jéssica está sentada no mesmo colchão de sempre. Quando vê a mãe, o corpo inteiro reage antes da cabeça. Ela se levanta rápido demais, as pernas ainda doloridas da sessão com o velho, e quase cai. Corre até Marisa e a segura antes que ela desabe no chão.
— Mãe…
A voz da filha sai baixa, apertada. As mãos de Jéssica tocam os braços da mãe, o rosto sujo, o cabelo emaranhado. Os olhos passam pelo corpo inteiro, as marcas roxas novas, o cu ainda dilatado e sujo, a boceta inchada, o cheiro forte de mijo e sexo azedo. Jéssica sente o estômago revirar, mas não solta.
— O que eles fizeram com você…?
Marisa não responde na hora. Só encosta a testa no ombro da filha e fica ali, respirando com dificuldade. O cheiro dela é pesado, animal. Jéssica sente o corpo da mãe tremer. Não é frio, é o que sobrou depois de horas sendo tratada como coisa. As outras mulheres do cômodo observam em silêncio, mas nenhuma se aproxima. Já viram esse tipo de volta antes.
Jéssica ajuda a mãe a sentar no colchão. Ajoelha na frente dela, segura o rosto sujo com as duas mãos e força Marisa a olhar para ela.
— Me conta tudo. Eu preciso saber.
Marisa engole seco, a garganta ainda dói. Quando começa a falar, a voz sai rouca, baixa, como se cada palavra raspasse por dentro.
— Eles me levaram para uma barraca… longe. Cinco traficantes.
Ela para, respira, continua. Não omite, conta como quem descreve um acidente do qual não conseguiu desviar.
Conta a primeira vez que a boca foi forçada, o pau grosso enfiando até a garganta enquanto outro abria o cu dela sem piedade. Conta o gosto, o engasgo, a saliva escorrendo misturada com o resto. Conta quando a mão entrou inteira, os dedos virando punho, a sensação de ser aberta por dentro de um jeito que parecia que ia rasgar de vez. Conta o mijo quente no rosto no meio da madrugada, o jato acertando o olho, a boca, o cabelo. Conta os chutes na lama, os xingamentos, a ordem de latir, de engatinhar, de ficar de quatro enquanto eles riam e a montavam como se fosse um animal. Conta a garrafa de cachaça torcida dentro do cu, o vidro frio, a humilhação de ser aberta só para os outros verem. Conta o gosto da porra de cinco homens diferentes, o cheiro da lama misturado com mijo, o momento em que o corpo simplesmente desistiu de lutar e só aguentou.
Cada detalhe sai devagar, sem enfeite e sem proteção. A voz de Marisa falha em alguns trechos, mas ela não para. Parece que precisa tirar tudo de dentro, como se falar fosse a única forma de não enlouquecer com as imagens ainda vivas atrás dos olhos.
Jéssica escuta sem interromper. As lágrimas escorrem em silêncio, as mãos dela apertam as da mãe com força demais. Em alguns momentos ela fecha os olhos, mas não pede para Marisa parar. Precisa ouvir, precisa saber exatamente o que o lugar faz com quem é levado para fora à noite.
Quando Marisa termina, o silêncio dentro do cômodo é quase insuportável. Só se ouve a respiração das duas e o barulho abafado do garimpo acordando lá fora.
Jéssica encosta a testa na testa suja da mãe. A voz sai num fio:
— Eu achei que você não ia voltar.
Marisa não consegue responder. Só segura a filha com os braços fracos, o corpo inteiro doendo, a mente ainda cheia das imagens da barraca e da lama. As duas ficam assim, abraçadas no colchão sujo, com o cheiro da noite ainda grudado na pele de Marisa e o medo novo se instalando entre elas, o medo de que a próxima a ser levada para fora seja a filha. E de que a mãe, de novo, não possa fazer nada além de esperar.
No Barracão das Sombras, o dia começa. E as duas já sabem que nenhuma noite é a última.
O abraço entre mãe e filha ainda não se desfez por completo quando uma das mulheres se aproxima devagar. É uma morena alta, magra demais, com uma cicatriz fina que corta a sobrancelha esquerda. Ela se agacha perto do colchão, olha para os lados e fala baixo, quase sem mexer os lábios:
— Eu ouvi o Nestor ontem à noite, do lado de fora da porta. Ele tava acertando com aquele homem… o que todo mundo tem medo. O alto, de voz baixa, que nunca ri. O que leva as meninas e elas não voltam iguais.
Marisa e Jéssica erguem o rosto ao mesmo tempo. A mulher continua, a voz ainda mais baixa:
— Tem um garimpeiro que tá devendo pesado para ele. Dívida de ouro, de droga, de proteção… não sei. O homem não quer mais esperar. Falou que se o pai não pagar até amanhã, vai buscar a filha do cara como pagamento. Menina nova, deve ser virgem ainda. Nestor só falou pode trazer. Aqui a gente ensina rápido.
O silêncio que se segue é denso. Jéssica aperta a mão da mãe com força. Marisa sente o estômago gelar. No Barracão, história de pagamento de dívida nunca termina bem.
Do outro lado do cômodo, uma voz rouca se levanta. É uma mulher que parece mais velha, uns trinta e oito anos, mas que deve ser mais nova, cabelo preso de qualquer jeito, olheiras fundas, seios caídos, marcas antigas de queimadura nos braços. Ela está sentada com as costas na parede, fumando o resto de um cigarro amassado. Olha para as duas e fala sem pressa, como quem já contou a mesma coisa vezes demais:
— Eu também fui pagamento.
As outras mulheres param de se mexer. Algumas já sabem a história. Outras ainda escutam como se fosse a primeira vez.
— Faz cinco anos que eu tô aqui. Cinco anos, três meses e alguns dias. Eu conto, já sai com mais de cinco mil homens.
Ela apaga o cigarro no chão e continua:
— Meu pai devia para um homem de Pacaraima. Dívida de jogo e de cachaça. Quando a dívida ficou grande demais, esse homem apareceu em casa com mais três. Eu tinha vinte e três anos. Estava dormindo. Eles entraram, seguraram minha mãe e meu irmão mais novo. Meu pai só ficou olhando pro chão. O homem falou baixo: A dívida tá paga com ela. Meu pai não disse nada. Só acenou com a cabeça.
A mulher puxa o ar pelo nariz e segue, a voz seca:
— Me arrancaram da cama de camiseta e calcinha. Me jogaram na caçamba de uma caminhonete. Tinha mais duas meninas lá. Uma chorava, a outra já tava quieta. Viajamos dois dias. Me estupraram a primeira vez ainda na estrada, debaixo de uma lona, enquanto o carro andava. Os quatro, um atrás do outro. Quando eu gritava, eles tapavam a boca com a mão suja de diesel. No segundo dia me trouxeram pra cá. Me apresentaram pro Nestor como “pagamento”. Ele olhou, apertou meus peitos, abriu minha boca e falou: Ela serve.
Ela ri sem humor nenhum.
— Na primeira semana eu ainda achava que meu pai ia aparecer pra me buscar. Na segunda semana eu já sabia que não. Me venderam a primeira vez no mesmo dia que cheguei. Três homens e uma mulher. Me amarraram numa estaca atrás do barracão e usaram até eu desmaiar. Quando acordei, tava no mesmo cômodo que vocês estão agora. Alguém tinha limpado o sangue com um pano sujo. Ninguém perguntou meu nome. Ninguém perguntou se doía. Só falaram: Amanhã você trabalha de novo.
A mulher olha direto para Jéssica.
— Cinco anos. Já fui usada por mais homens do que consigo contar. Já me fizeram de tudo que vocês ouviram e mais um pouco. Já tentei fugir duas vezes. Nas duas me pegaram. Na segunda eles queimaram meu braço com ferro de marca de gado pra eu não esquecer. Olha.
Ela mostra a marca antiga, redonda, deformada, na parte de dentro do antebraço.
— A filha desse homem que tá devendo… se o pai não pagar, ela chega daqui a um ou dois dias. Vai chorar igual eu chorei, vai gritar igual eu gritei. E daqui a uma semana vai estar sentada nesse mesmo chão, com o olhar vazio, esperando a próxima foda. É assim que funciona aqui. Dívida de homem vira buraco de mulher.
Marisa sente a filha tremer ao lado dela. Jéssica não fala nada, só aperta mais a mão da mãe. As duas olham para a mulher das queimaduras e entendem, sem precisar de mais palavras, que a história dela não é exceção. É o método.
No cômodo dos fundos, o silêncio volta a cair. Lá fora, o garimpo continua sua rotina barulhenta. E em algum lugar da fronteira, uma menina ainda dorme na casa do pai, sem saber que o nome dela já foi oferecido como pagamento.
O silêncio depois da história da mulher das queimaduras pesa sobre o cômodo. Nenhuma das outras fala. Só se ouve a respiração e o barulho abafado do garimpo lá fora. Jéssica ainda segura a mão da mãe. É Marisa quem quebra o silêncio. A voz sai rouca, baixa, como se estivesse puxando as palavras de um lugar fundo e dolorido.
— A gente também foi enganada.
As mulheres viram o rosto para elas. Algumas se ajeitam no colchão. Outras apenas escutam, porque todas ali conhecem esse começo.
Marisa respira fundo. O corpo ainda dói inteiro, mas ela fala assim mesmo.
— A gente vivia no interior do Rio Grande do Sul. Cidade pequena. Casa simples, mas nossa. Eu trabalhava em uma loja de roupas. A Jéssica fazia faculdade de enfermagem na cidade vizinha. Voltava todo final de semana. A gente tinha uma vida… normal. Não era rica, mas tinha comida na mesa, tinha respeito, tinha nome. As pessoas cumprimentavam a gente na rua.
Jéssica baixa os olhos. A voz dela entra logo em seguida, mais baixa ainda:
— Eu tinha namorado. Nada sério demais, mas tinha, tinha amiga, tinha plano de me formar e trabalhar no hospital da região. Minha maior preocupação era prova e dinheiro da passagem. Nunca tinha passado por nada parecido com isso. Nunca tinha sequer visto um homem nu de verdade até chegar aqui.
Marisa aperta a mão da filha e continua:
— O pai dela… meu marido… era fraco. Jogava, bebia, foi se endividando aos poucos. Um dia ele simplesmente sumiu. Deixou uma carta dizendo que não aguentava mais e que a gente se virasse. A dívida que ele deixou era grande. Homens começaram a aparecer em casa ameaçando. Falando em levar o pouco que ainda restava.
Ela engole seco. O gosto da noite anterior ainda parece grudado na garganta.
— Foi aí que apareceu o intermediário. Um homem de fala mansa, bem vestido, cheiro de perfume barato. Disse que tinha trabalho no Norte. Em um restaurante de garimpo. Cozinha, limpeza, atendimento. Salário bom, comida, lugar para dormir. Falou que em seis meses a gente juntava o suficiente para voltar e quitar tudo. Eu desconfiei, mas a dívida estava no pescoço. E a Jéssica… eu não queria que ela perdesse a faculdade.
Jéssica ri sem humor nenhum, um som seco e quebrado.
— Eu acreditei. Achei que ia ser difícil, mas ia ser trabalho. Até entrei no ônibus com uma mala pequena e o material da faculdade. Fiquei estudando no caminho, bobagem… achando que ia voltar.
Marisa balança a cabeça devagar.
— A viagem foi longa. Ônibus até Manaus, depois barco, depois caminhonete por estradas que nem pareciam estrada. Em nenhum momento nos disseram exatamente para onde íamos. Cada vez que eu perguntava, o homem falava “tá logo ali” ou “é um pouco mais na frente”. Quando a gente finalmente parou na frente desse barracão, já era tarde demais. Não tinha restaurante, não tinha cozinha. Só tinha homem armado e o Nestor olhando a gente como se a gente já fosse mercadoria. A voz de Marisa falha por um segundo. Ela força a continuar:
— Eu ainda tentei falar que tinha sido um engano. Que a gente tinha vindo para trabalhar de verdade. Ele riu, falou que todo mundo falava a mesma coisa no começo. Depois tirou a roupa da gente na frente de todo mundo e colocou a gente em cima da mesa de sinuca. Foi ali que eu entendi, não tinha volta. A vida boa que a gente tinha… a casa, a faculdade, o nome… tudo isso tinha ficado no Sul. Aqui a gente só tinha o corpo. E o corpo já não era mais nosso.
Jéssica completa, quase num fio de voz:
— Eu ainda era virgem. Nunca tinha ficado com ninguém de verdade. Na primeira noite me estupraram na frente da minha mãe. E ela não podia fazer nada. Assim como eu não pude fazer nada quando levaram ela. A gente tinha uma vida, a gente tinha futuro. Agora a gente só tem medo de quantos homens vão pagar para usar a gente hoje.
O cômodo permanece em silêncio. Algumas mulheres baixam a cabeça. Outras apenas olham para as duas com o reconhecimento amargo de quem já viveu uma história parecida.
Marisa encosta a testa suja na testa da filha. As duas ficam assim, respirando juntas, enquanto a realidade que acabaram de contar fica pairando no ar quente e pesado do Barracão das Sombras.
A vida boa ficou para trás. Aqui só resta o que os homens ainda não destruíram por completo.
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Comentários (1)
Comedor de meninas: Que seja uma menina. Chega de velhas
Responder↴ • uid:dlo3mjkm1